01/02/2017 às 22h45min - Atualizada em 01/02/2017 às 22h45min

67 – Martins de Almeida - Um modernista nascido em Leopoldina

Personagens Leopoldinenses

Luja Machado e Nilza Cantoni

“Às vezes, sou invadido pela dúvida de que não
fiz mais do que sonhar às avessas dos outros.”
Martins de Almeida([i])
 
 
A partir de hoje o Trem de História empreenderá viagem pela obra e vida de Martins de Almeida, um modernista nascido em Leopoldina. Um importante personagem que se pretende retirar da gaveta dos esquecidos.
De início é justo registrar que a busca pelas suas origens foi estimulada por Glória Barroso e José Gabriel Barbosa que, sabedores de nossos estudos sobre as antigas famílias leopoldinenses, perguntaram a quem pertencia este nome citado por Pedro Nava como tendo nascido em Leopoldina. Uma pergunta que nos intrigou e para a qual não tínhamos resposta naquele momento.
Iniciadas as buscas a partir das informações de Pedro Nava e de outros modernistas, descobrimos o nome completo do personagem e de seu pai, embora não existisse menção alguma a eles em nosso banco de dados.
A luz no final do túnel surgiu quando a Hemeroteca Nacional se tornou disponível na rede mundial de computadores e permitiu que, através de uma busca pelos nomes, se chegasse ao anúncio do noivado([1]) de Georgina, filha de Félix Martins Ferreira [neto] e de Heliodora Pinheiro Correia de Lacerda com o então Secretário da Polícia de Ouro Preto, Dr. Antonio Francisco de Almeida.
Descobriu-se, então, que Francisco Martins de Almeida, o até então desconhecido modernista, nasceu([2]) em Leopoldina em 07 de janeiro de 1903 e faleceu([3]) no Rio de Janeiro (RJ) no dia 29 de julho 1983. Era filho do magistrado Dr. Antonio Francisco de Almeida e de Georgina Martins de Almeida. Teria sido aluno do Colégio Granbery, em Juiz de Fora, segundo informações de um membro da família. E soube-se que em 1920 ele já estava em Belo Horizonte onde, segundo o poeta Drummond de Andrade, teria aberto “a caixa com os primeiros livros de Proust a chegarem na cidade”([4]). Na capital mineira era acadêmico de direito([5]) em 1923 e participava do Grupo Estrela, com rapazes que “decompunham e recompunham o espetáculo humano e preparavam materiais de cultura”, conforme declarou Drummond([6]).
Fernando Correia Dias([7]) informa que pouco tempo depois nosso biografado estava residindo no interior do estado, na cidade de Oliveira, para onde havia sido nomeado promotor. O que não o impediu de continuar em contato com os companheiros, inclusive no debate que se seguiu a algumas opiniões. Fato que se confirma pelas páginas do jornal Diário de Minas, citado por Dias em sua obra, onde Martins de Almeida contestou a entrevista de João Alphonsus, outro nome da literatura mineira naquele momento.
Para concluir a carga deste vagão de hoje, destacamos que no posfácio de seu livro “Brasil Errado” o autor fala de si mesmo, numa espécie de autobiografia do seu fazer intelectual que se transcreve([8]):
“É muito comum deixarmos abandonadas nossas ideias no meio do caminho por onde enveredamos, um pouco distante do ponto terminal do nosso percurso espiritual. Propositadamente nem sempre chegamos ao extremo de nossos pensamentos. Talvez por pudor intelectual, receando o desapontamento de um efeito excessivo. Não sei bem, mas raramente atingimos as últimas conclusões de nossas ideias. Falo a respeito dos nossos pensamentos claros e frios, sem qualquer envoltório simbólico, que param de repente sem querer chegar às suas derradeiras consequências. O meu espírito vai muito além do que escrevi. De fato, os meus trabalhos estão quase todos por acabar”.
E acabar é a ação imposta a este texto, por razão de espaço. Mas fica a promessa de que na próxima edição o Trem de História continuará com Martins de Almeida. Aguardem!

[i] ALMEIDA, Francisco Martins de. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. p. 144.
[1] Minas Geraes. Belo Horizonte, MG, 2 abr 1898, ed 89 p.5
[2] Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais de Providência, Leopoldina, MG, matricula: 0371430155 1903 1 00003 053 0000003 81.
[3]Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 30 jul 1983, ed 113 p.14
[4] Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, RJ, 26 out 1977, ed. 8589 p.9.
[5] O Pharol, Juiz de Fora,MG, 29 jul 1923, ed 366 p. 1.
[6] ANDRADE, Carlos Drummond de. Recordação de Alberto Campos. In: Confissões de Minas. São Paulo: Cosac Naify, 2011. p.50
[7] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.38
[8] MARTINS DE ALMEIDA. Brasil Errado. 2.ed. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1953. p.143
 
Publicado na edição 322 no jornal Leopoldinense de 1  de janeiro de 2017

 

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