15/02/2017 às 10h02min - Atualizada em 15/02/2017 às 10h02min

69 – Martins de Almeida na visão de terceiros

Personagens Leopoldinenses

Luja Machado e Nilza Cantoni

O Trem de História segue sua viagem com os comentários dos críticos e amigos do modernista leopoldinense, como se verá a seguir.
Na década de 1930, já morando no Rio de Janeiro, Martins de Almeida foi diversas vezes citado em matérias sobre “Alguma Poesia”, obra que Carlos Drummond de Andrade havia lançado. Eram comentários e impressões de intelectuais da época, muitos deles estendidos a todo o grupo mineiro.
Augusto Frederico Schmidt publicou em O Jornal, em 1929, um artigo sob o título Os novos de Minas. Tristão de Ataíde, pseudônimo de Alceu de Amoroso Lima, além de comentar a obra de Martins de Almeida em janeiro([1]) de 1931, voltou ao assunto quando abordou “Os novos de 1927” - como ficou conhecido o grupo modernista - em seu Estudo publicado em livro em 1934. Afonso Arinos (sobrinho) teceu elogios à obra em junho([2]) de 1930, Agripino Grieco([3]) em fevereiro de 1931 e Raul Floriano em junho de 1931([4]).
Para Fernando Correia Dias([5]), nessa época a “literatura era vivida em profundidade, era amplamente participada”. Baseia esta sua interpretação no já citado artigo de Martins de Almeida publicado em 1930 em O Jornal, do qual recolhemos um trecho significativo([6]):
“Nós outros, companheiros de vida literária ou antes, de vida vivida (Emílio Moura, João Alphonsus, Pedro Nava e eu) temos de emprestar um caráter particularíssimo às poesias de Carlos Drummond. Vemos que muitas delas não param nelas mesmas, continuando infinitamente para além do próprio autor. Cada um de nós tem a sua parte em várias daquelas poesias.”
Em Galo das Trevas Pedro Nava informa que o nosso biografado escreveu([7]), também, “Amigado com a vida – inédito, conhecido só dos que receberam do autor suas cópias xerografadas”. E diz considerá-lo um ensaísta de primeira e um dos melhores espíritos críticos da sua geração. “Um conversador admirável, o que justificaria plenamente o apelido que lhe dava Emílio Moura de: o nosso Rivarol[8]”.
Para Ribeiro Couto([9]), em carta dirigida ao próprio Martins de Almeida, ele foi “um crítico de mão cheia que devia cultivar essa veia”.
Agripino Grieco([10]), em artigo publicado na Gazeta de Notícias se refere a Martins de Almeida como um: “escritor de uma sobriedade elegante, pensador e esteta, inimigo da vulgaridade e sempre desejoso da beleza”.
Uma rápida passagem por uma das principais obras de Martins de Almeida, a publicação denominada “A Revista”, se faz necessária. E para isto nos valemos da opinião de Ronald de Carvalho([11]) em carta a Carlos Drummond de Andrade, em 01.09.25. Diz ele:
“Que bonita fogueira estão vocês fazendo com A Revista. Precisamos dessas queimadas para a nossa literatura de gravetos, espetos, paus e palitos de Ovar. Você e Martins de Almeida, que inteligentíssimos diabos para sapecar essas pereiras, pessegueiros e oliveiras do nosso mato acadêmico!”
Para Dias([12]), o grupo mineiro decolara, impusera-se como coletividade estruturada, através de um instrumento eficaz de afirmação: uma revista fugaz, porém marcante.
Como é sabido, A Revista contou apenas com três edições e seu fim não tem explicação definitiva. Para uns, deveu-se a dificuldades econômico-financeiras. Para outros, a saída de Belo Horizonte daqueles jovens que foram buscar novos horizontes depois da formatura foi o real motivo para o fim de A Revista.
Os comentários sobre o movimento modernista de Belo Horizonte não se esgotam aqui. Mas o espaço do Jornal impõe que o Trem de História encerre por hoje. No próximo número ele volta com a carta de Mário de Andrade para Martins de Almeida. Até lá.
 
[1] O Jornal, Rio de Janeiro, 18 jan 1931, ed 3739 Primeiro Caderno p. 4.
[2] idem, 15 jun 1930, ed 3554 Primeiro Caderno p. 2.
[3] idem, 22 fev 1931, ed 3769 Segunda Seção p. 2.
[4] idem, 17 jun 1931, ed 3867 Segunda Seção p. 21.
[5] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.114
[6] O Jornal, Rio de Janeiro, 10 ago 1930, ed 3602, Segunda Seção, p. 2
[7] NAVA, Pedro. Galo-das-Trevas: As Doze Velas Imperfeitas: memórias, 5. Rio de Janeiro: José Olumpio, 1981. Nota p. 319
[8] Referência ao escritor e polemista Antoine de Rivarol, nascido na França em 1753 e falecido na Alemanha em 1801
[9] A Revista. Reimpressão fac-similar de José Mindlin, Patrocínio da Metal Leve S.A, São Paulo,1978. p.87.
[10] idem, p.86.
[11] idem, p.85.
[12] DIAS, Fernando Correia. O Movimento Modernista em Minas: uma interpretação sociológica. Brasília: Ebrasa, 1971. p.43
 
Publicado na edição 324 no jornal Leopoldinense de 1  de fevereiro de 2017
 

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