24/02/2017 às 13h44min - Atualizada em 24/02/2017 às 13h44min

A intérprete faz jus ao título de rainha da voz: Dalva de Oliveira

WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO

                Vicentina de Paula Oliveira, conhecida como Dalva de Oliveira, Intérprete de música popular brasileira, nascida na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, cuja extensão de sua voz, que ia do contralto ao soprano, marcou época como intérprete e uma das grandes estrelas dos anos 40 e 50. Em  1937 .  Casou-se com Herivelto Martins, com quem teve seus dois filhos, Pery e Ubiratã .  Dalva e Herivelto separaram-se, iniciando uma batalha de ofensas mútuas muito  explorada  pela  imprensa da época . Foi  uma polêmica pública mantida  através de músicas provocantes , por ocasião da separação do casal.. Começando, então, sua carreira solo . foram inúmeros sucessos  que eram aplaudidos até  pelos músicos ao fim das apresentações . Excursionou pelo Brasil, sendo, anunciada como a “Rainha da Voz, sempre fazendo grande sucesso, por onde passava. Daí, logo viajou para a Europa, com contratos para se apresentar em Espanha e Inglaterra .  Dalva morreu em 30 de agosto de 1972, de uma hemorragia no esôfago, deixando como herança o fascínio que exerceu sobre o seu público e  a  influência  sobre  várias  cantoras .

        
A  partir  de  agora , O  Cantinho  Musical  desfilará  as  belas  canções  executadas na  magnífica  voz  afinadíssima  de  DALVA  DE  OLIVEIRA . Primeiramente apresentaremos algumas  peças  musicais  que  tiveram envolvidas  na  histórica  polêmica  de  sua  separação , quando  canções  provocantes  e  agressivas pintavam  o cenário  musical  da  época ,  compostas  por  Herivelto  Martins  e  da  polêmica participaram não apenas os protagonistas do caso, mas diversos compositores que abasteciam o repertório de Dalva. . Em que pese o sensacionalismo extramusical despertado pela discórdia , grande parte de seu sucesso se deveu às interpretações de Dalva de Oliveira, que soube imprimir às canções a dose de sentimentalismo que elas exigiam.  Essa briga conjugal das mais famosas da nossa    história  ,  Herivelto  já  anunciava  a  separação  quando  compôs  “ Caminhemos “  gravada por Francisco Alves. No mesmo ano fez pra Dalva “Segredo” e já tínhamos aí dois clássicos numa tacada só. Esta  canção  é  uma  alusão ao  silêncio amoroso  que  ocorre  entre  os  casais  tornando-se  assim  um  grande  “  SEGREDO  “ .  [ “ / Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois / O peixe é pro fundo das redes, segredo é pra quatro paredes / Não deixe que males pequeninos / Venham transformar os nossos destinos / O peixe é pro fundo das redes / Segredo é pra quatro paredes / Primeiro é preciso julgar / Pra depois condenar / Quando o infortúnio nos bate à porta / O amor nos foge pela janela / A felicidade para nós está morta / E não se pode viver sem ela / Para o nosso mal não há remédio coração / Ninguém  tem culpa  da  nossa  desunião / . “  ]  .

Mas a polêmica mesmo veio depois quando Dalva volta de viagem, separada de Herivelto –  ele já estava morando com a nova mulher _  , e grava “Tudo Acabado”, de J. Piedade e Oswaldo Martins.  Esta  canção versa  sobre  o  definitivo  término  de  uma  relação  amorosa , lamentando o ato do  desenlace  com a simples expressão  :       “   TUDO   ACABADO  “ .  [ “ /  Tudo acabado entre nós /já não ha mais nada / tudo acabado entre nós  / hoje de madrugada / você chorou e eu chorei / você partiu e eu fiquei / se você volta outra vez / eu não sei / nosso apartamento agora / vive a meia luz / nosso apartamento agora  / já não me seduz / todo egoísmo veio de nós dois / destruímos hoje  / o que podia ser depois / . “  ]  . 





Outro sucesso estrondoso e feito na sequência da  polêmica  foi o bolero de Marino Pinto e Mario Rossi  que  relata  a ausência  de  um  relacionamento amoroso  que  marcou  o  passado  de  prazer , expresso  na  convivência  de  um  amor  que  se  perdera , daí  o  questionamento  :   “   QUE   SERÁ   “  .                  [ “ /  Que Será / Da Minha Vida Sem o Teu Amor / Da Minha Boca Sem Os Beijos Teus / Da Minha Alma Sem o Teu Calor / Que Será / Da Luz Difusa Do Abajour Lilás / Se Nunca Mais Vier a Iluminar / Outras Noites Iguais/ Procurar / Uma Nova Ilusão Não Sei / Outro Amor  / Não Quero Ter Além Daquele Que Sonhei /Meu Amor / Ninguém Seria Mais Feliz Que Eu / Se Tu Voltasses a Gostar De Mim Se Teu Carinho Se Juntasse Ao Meu / Eu Errei / Mas Se Me Ouvires Me Darás Razão / Foi o Ciúme Que Se Debruçou / Sobre o Meu Coração / . “  ]  .




Essa  canção  foi um golpe mortal em Herivelto, já que seu parceiro de longa data, Marino Pinto assinava a canção. E aí o nosso querido e genial compositor entrou numa rota errada. Escreveu uma bravata em parceria com David Nasser e as coisas tomaram um caminho ruim. A música se chamava por ironia “Caminho Certo” e insinuava traições de Dalva de Oliveira com os amigos e parceiros compositores.  Veja esse trecho: “Senti agora que os amigos que outrora/ Sentavam a minha mesa / Serviam sem eu saber / O Amor por sobremesa…”     Daí é que veio em 1950 a famosa  canção  de Ataulfo Alves que  tem  como  conteúdo  significativo  uma  confissão , porém  justificando  e  culpando  o  amante  com  base  no  abandono  amoroso   “  ERREI,  SIM  “ .  [ “  Errei sim, / Manchei o teu nome / Mas foste tu mesmo / O culpado / Deixavas-me em casa / Me trocando pela orgia / Faltando sempre / Com a tua companhia. / Lembra-te, agora, que não é, / Só casa e comida / Que prende por toda a vida / O coração de uma mulher./ As jóias que me davas / Não tinham nenhum valor / O mais caro me negavas / Que era todo o teu amor, / Mas, se existe ainda / Quem queira me condenar, / Que venha logo / A primeira pedra / Me atirar./ . “  ]  .


Em resposta, Herivelto fez “Teu Exemplo” falando de estrelas na lama. Dalva gravou na sequência “Calúnia”, de Marino Pinto e Paulo Soledade .  respondendo ,  com  uma  segurança  musical  , à  agressão  nas  mensagens  que  compunham a canção  :      “   CALÚNIA  “  .  [ “  /  Quiseste ofuscar minha fama / E até jogar-me na lama / Só porque eu vivo a brilhar / Sim, mostraste ser invejoso / Viraste até mentiroso / Só para caluniar. / Deixa a calúnia de lado / Se de fato és poeta / Deixa a calúnia de lado / Que ela a mim não afeta / Tu me ofendes,tu serás o ofendido / Pois quem com o ferro fere / Com ferro será ferido. / “  ]  .  






Ataulfo Alves ,  um  dos  escudeiro  de  Dalva na  polêmica ,  demonstra  nos  versos  desta  canção  um  relato  conclusivo  e  sofredor , resultante  de  uma  discussão entre  os  envolvidos  no  drama  da  traição , dando  um  basta  em  todas  as  controvérsias  musicais :  “  FIM  DE  COMÉDIA  “  .   [ “ / Este amor quase tragédia, / Que me fez um grande mal / Felizmente esta comédia / Vai chegando ao seu final. / Já paguei todos pecados meus, / O meu pranto já correu demais / Só lhe peço pelo amor de Deus, / Deixe-me viver em paz. / Não quero me fazer de inocente, / Porém não sou tão mal / Como disseram por aí, / Eu quero é meu sossego  / tão somente, / Cada um sabe de si  / . “  ]  .   






Dessa época a mais conhecida até hoje é uma  canção , presente de Nelson Cavaquinho e Oswaldo Martins para Dalva e que fazia referência à antiga profissão circense de Herivelto.                         “   PALHAÇO  “  .  [ “  /Sei Que é Doloroso Um Palhaço / Se Afastar Do Palco Por Alguém /Volta Que a Platéia Te Reclama / Sei Que Choras Palhaço / Por Alguém Que Não Te Ama / Enxuga Os Olhos / E Me Dá Um Abraço / Não Te Esqueças / Que És Um Palhaço / Faça a Platéia Gargalhar / Um Palhaço Não Deve Chorar / . “  ]  . 








Encerrando  essa  polêmica  musical  que  marcou  uma  época  nas  Rádios  que  divulgavam  sempre  uma  resposta  através  das  canções das  partes  envolvidas ,  MAX  NUNES  em  uma  mensagem  de  paz  criou  uma  marca-rancho  que  fez  sucesso  na  voz  de  Dalva  e  tomou  conta  dos  salões  em  bailes  carnavalescos  :    “   BANDEIRA   BRANCA  “  .  [ “  Bandeira branca, amor / Não posso mais. / Pela saudade, / Que me invade eu peço paz. / Bandeira branca, amor / Não posso mais. / Pela saudade, / Que me invade eu peço paz. / (BIS) /  Saudade, mal de amor, de amor / Saudade, dor que dói demais / Vem, meu amor / Bandeira branca eu peço paz./ . “  ]   . 







Ainda  no  gênero  musical  marcha-rancho ,  Dalva  gravou  um grande  sucesso  de   Zé  Kéti  e  Pereira  Mattos  que  retrata  a  efemeridade  do  amor  no  carnaval  , em  que  se  aproveita  o  momento  carnavalesco  .  “  MÁSCARA   NEGRA  ‘ . [ “ / Tanto riso, oh quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando pelo amor da Colombina / No meio da multidão / Foi bom te ver outra vez / Tá fazendo um ano / Foi no carnaval que passou / Eu sou aquele pierrô / Que te abraçou / Que te beijou, meu amor / A mesma máscara negra / Que esconde o teu rosto / Eu quero matar a saudade / Vou beijar-te agora / Não me leve a mal / Hoje é carnaval / . “ ]  . 






Continuando  com  outra  marcha-rancho  de  João  Roberto  Kelly  e  Chico  Anísio , sucesso  na  deliciosa e afinada voz  de  Dalva , há uma abordagem  que  homenageia  onde  tudo  começou  que  é , simbolicamente, uma  parte  do  Rio  de  Janeiro  o  espaço  que  expressa , tradicionalmente,   a  raiz  do  nosso  carnaval   “   RANCHO  DA  PRAÇA  ONZE   “  .  [ “  / Esta é a Praça Onze tão querida / Do carnaval a própria vida / Tudo é sempre carnaval / Vamos ver desta Praça a poesia / E sempre em tom de alegria / Fazê-la internacional / A Praça existe alegre ou triste / Em nossa imaginação/ A Praça é nossa e como é nossa / No Rio quatrocentão / Este é o meu Rio boa praça / Simbolizando nesta Praça / Tantas praças que ele tem / Vamos da Zona Norte a Zona Sul / Deixar a vida toda azul / Mostrar da vida o que faz bem / Praça Onze, Praça Onze / . “  ]  . 






Para  encerrar  o  gênero  marcha-rancho , selecionamos  uma  canção  composta  por  dois ícones  da  nossa  MPB :  João  de  Barro (  Braguinha )  e  Noel  Rosa , eternizando-se  na  maravilhosa  de voz  de Dalva  de  Oliveira :      “  AS  PASTORINHAS .  [ “  /  A estrela d'alva / No céu desponta / E a lua anda tonta / Com tamanho esplendor / E as pastorinhas / Pra consolo da lua / Vão cantando na rua / Lindos versos de amor / Linda pastora / Morena da cor de Madalena / Tu não tens pena / De mim que vivo tonto com o teu olhar / Linda criança / Tu não me sais da lembrança / Meu coração não se cansa / De sempre e sempre te amar / . “  ]  .






Rendendo  uma  homenagem  aos  morros  pelas  suas  caracterizações  , Herivelto  Martins  compôs  uma  prece  através  de  uma  bela  canção,  e  Dalva  de  Oliveira  eternizou-a , com  sua voz  graciosa , no  cenário  musical  do  nosso  cancioneiro “   AVE  MARIA  NO  MORRO  “ .       [ “ /  Barracão / De zinco, sem telhado / Sem pintura, lá no morro / Barracão é bangalô. / Lá não existe / Felicidade de arranha-céu / Pois quem mora lá no morro / Já vive pertinho do céu. / Tem alvorada, tem passarada, / Alvorecer / Sinfonia de pardais / Anunciando o anoitecer. / E o morro inteiro / No fim do dia / Reza uma prece / Ave Maria. / Ave Maria, a - a – ave / E quando o morro escurece / Eleva a Deus uma prece / Ave Maria. / . “  ]  . 






Encerrando  esta  bela  seleção  de  canções   entoadas  com  muita  afinação  e  emoção  na  voz  suave  de  DALVA  DE  OLIVEIRA  ,  o  Cantinho  musical  optou  por  apresentar  um  samba-exaltação  composto  por  Herivelto  Martins  e  Chianca  de  Garcia  exaltando  a  Bahia  com  toda  sua  cultura  e  religiosidade    “  A  BAHIA  TE  ESPERA   “  .  [ “ /   A Bahia da magia, dos feitiços e da fé. / Bahia que tem tanta igreja, que tem tanto candomblé. / Para te buscar nossos saveiros já partiram para o mar. / Yayá Eufrásia, ladeira do Sobradão / Tá preparando seu candomblé / Velha Damásia da ladeira do mamão / Tá preparando o acarajé / Para te buscar nossos saveiros já partiram para o mar / Nossas morenas roupas novas vão botar / Se tu vieres, virás provar o meu vatapá / Se tu vieres viverás nos meus braços a festa de Yemanjá / Vem, vem, vem / Vem em busca da Bahia / Cidade da tentação / Onde o meu feitiço impera / Vem / Se me trazes o teu coração / Vem / Que a Bahia te espera / Bahia, Bahia, Bahia, Bahia / . “  ]  .



            “   SUSTENTAR  UM  TÍTULO  DE  “  RAINHA  DO  RÁDIO  “  E  CONSERVAR  DURANTE  SEU  REINADO   UMA  ALTEZA  NA  VOZ   É  PRIVILÉGIO  DE  UMA  SÓ  INTÉRPRETE  QUE  TRAZIA  CONSIGO  A  SUAVIDADE  EM  SEUS  CANTOS  HARMONIOSOS  .  DALVA  DE  OLIVEIRA  DEDICOU SUAS  BELAS  CANÇÕES  AOS  QUE  APRECIAVAM  E  APLAUDIAM  SUAS  INTERPRETAÇÕES   DURANTE  TODO  O  TEMPO  EM  QUE  DESFRUTOU  DE  SUA  COROA  !  “    
Waldemar  Pedro  Antonio                                                 e-mail :  [email protected]

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