22/03/2017 às 07h24min - Atualizada em 22/03/2017 às 07h24min

A (contra) Reforma do Ensino Médio

Gino Ribas meneghitti

A reforma do ensino médio, que deveria ser analisada, revista e discutida à exaustão foi aprovada em três horas pelo senado e sua sanção tem gerado muita polêmica. Os questionamentos perpassam desde o aumento da carga horária, redução das disciplinas obrigatórias, admissão de professores até a divisão das disciplinas por áreas de interesse.
 
O aumento da carga horária é um dos pontos mais positivos. Visando à presença do aluno em tempo integral, as escolas terão o prazo de cinco anos para se adequarem à nova realidade. Neste período, elas terão a obrigatoriedade de apresentar uma grade de 1000 horas anuais. A meta estipulada a longo prazo é de 1400 horas, quase o dobro da atual de 800 horas anuais.
 
A redução das disciplinas obrigatórias e a divisão das disciplinas por área de interesse é um dos pontos mais sérios e relevantes a serem destacados. O ensino da Língua Portuguesa e de Matemática, serão os únicos de caráter obrigatório nos três anos do ensino médio, que poderá ser cursado de acordo com áreas de interesse do aluno e da disponibilidade de cada instituição. Todas as escolas deverão ofertar pelo menos um dos cinco "itinerários formativos": linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas e formação técnica e profissional.
 
A escolha das disciplinas e dos conteúdos que serão ofertados poderá afetar, desde a formação dos nossos jovens, à escolha de sua profissão, e o seu possível ingresso numa universidade pública. Ora, a partir do momento que o governo brasileiro optar pela fragmentação do saber e do conhecimento, privilegiando em demasia, disciplinas com caráter pragmático e aspecto utilitarista, como no caso, Português e Matemática, a formação de nossos jovens estará voltada, quase que única e exclusivamente, para atender às demandas imediatistas impostas pelo mercado.  Esta característica tecnicista, mecânica e utilitária pode ser sentida na ausência de reflexão e senso crítico, que faz com que o povo seja cegamente guiado e conduzido por instituições interessadas na sua perpétua dependência e ignorância. 
 
Triste é pensar que essa reforma poderá ser apenas mais um instrumento para fomentar a divisão de classes e dificultar o ingresso do aluno de escola pública ao ensino superior gratuito. Enquanto as escolas públicas poderão oferecer 60% das disciplinas incluídas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como proposto pela medida, a escola particular que optar por continuar oferecendo 100% de sua grade curricular focada nas disciplinas da BNCC, estará anos luz à frente na preparação de seus alunos para o vestibular, visto que o conteúdo das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), principal via de acesso às universidades públicas do país, permanecerá o mesmo.  
 
Outra medida, que tem provocado um certo desconforto, principalmente entre os professores e os profissionais da educação, é a possível admissão de professores com "notável saber" para lecionar no ensino técnico e profissional. Além disso, profissionais graduados, sem licenciatura, poderão lecionar no ensino médio, desde que realizem uma complementação pedagógica. Resta-nos saber como, e por quem, serão avaliados e selecionados na prática os professores de "notável saber" e, ainda, como será possível alguém dominar determinada matéria e conteúdo apenas com uma complementação pedagógica.
 
 O aspecto científico, filosófico, histórico, artístico e cultural de uma nação não pode ser relegado a segundo plano. É impossível avançarmos em termos civilizatórios sem o devido material humano. Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, já apontava para o perigo de uma sociedade forjada somente por cientistas e construtores de pontes. As Artes, assim como a Filosofia e a Sociologia, são alimentos imprescindíveis na formação cultural de nossos jovens. É impossível qualquer tipo de mudança ou avanço enquanto a nossa base educacional estiver presa a este molde arcaico, ultrapassado, quiçá ditatorial, que só serve aos interesses de instituições (Estado, empresas e igrejas) que almejam lucrar com a mão de obra barata e com uma postura irrefletida perante a vida.

As consequências são sentidas no baixo nível estético e ético exigido nos meios de comunicação de massa, seja na televisão, rádio ou internet. A preocupação com o belo e com os princípios éticos não estão entre as prioridades daqueles que poderiam operar uma brusca mudança comportamental coletiva. Ao contrário, primam por velar de forma proposital seus verdadeiros interesses e objetivos. Este é o verdadeiro sentido e caráter de toda ideologia.
 
É preciso um pouco mais de Música, Pintura e Poesia, pois é assustador o acréscimo de sensibilidade promovida pela Arte. É impressionante a quebra de paradigmas proporcionada pela Filosofia, pois ela amplia o olhar e faz o ser transitar por novas dimensões. É revolucionária a experiência catártica operada pelo Teatro, pois nos leva ao encontro de nós mesmos. Enfim, é necessário uma dose generosa de "humanidade" caso quisermos elevar a consciência do "nosso povo".

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