08/04/2017 às 08h44min - Atualizada em 08/04/2017 às 08h44min

Mágicos acrobatas cospem fogo!

Gino Ribas Meneghitti

Poderia ser o chamariz de algum circo, promovendo sua mais nova atração, mas tal habilidade pode ser facilmente constatada em alguns juristas, políticos, jornalistas e empresários brasileiros. Um majestoso show de pirotecnia, onde fascinantes faíscas incandescentes e incendiárias são lançadas, mas suas vítimas são bem reais. Atingindo desde os grandes representantes da indústria de alimentos até um time de segunda divisão, o qual perdeu grande parte de sua receita por ter contratado o açougueiro, digo, goleiro Bruno, conhecido por apreciar carne fatiada e, nas horas vagas, apresentar um grande número de mágica: “ocultação de cadáver”. Boa!
 
A lista de Janot é “vazada” e veiculada de forma bem menos arriscada e embaraçosa do que a negociação promovida por um grande time interessado na compra de um famoso jogador de futebol. Sem contar a vantagem de o informante ser preservado sob o manto do anonimato e do que, no meio jornalístico, convencionou-se chamar de “entrevista coletiva em off”. Se por um lado a fonte é protegida, por outro ela gera o mínimo de incertezas e desconfianças, seja pelo teor das acusações, ou pelo peso das consequências, sobretudo políticas, para não dizer partidárias e pessoais.
 
A operação Lava Jato faz três anos e seu aniversário será comemorado ou lamentado do mesmo jeito e da mesma forma, nos mesmos bairros, ruas e endereços, nos restaurantes ou iates (será?) mais bem frequentados (?) do país, em especial nas capitais do Rio, São Paulo, Distrito Federal e  Paraná. Tudo isso com direito a vinho, uísque e  champanhe, sem citar os canapés e os acepipes mais finos e sofisticados.
 
Mesmo diante das inúmeras manifestações de protesto realizadas nas principais capitais e cidades do interior do país, o desejo de grande parte dos meios de comunicação era de que a reforma da previdência pudesse passar despercebida e silenciosa, pequena e sem importância. Os principais jornais e emissoras, tanto escritos como televisionados, optaram por abordar outros temas e assuntos nas edições e editoriais que seguiram ao desenlace. O pacote de maldades será sentido por nós e principalmente pelas futuras gerações, que terão de iniciar sua jornada de trabalho mais cedo, caso tenham interesse em se aposentar com 65 anos e receber o valor integral dos seus vencimentos.
 
 Por uma destas misteriosas ironias do destino, a polícia federal deflagrou, na mesma semana, a operação carne fraca, que constatou várias irregularidades e absurdos cometidos por grandes indústrias do setor alimentício, desde a mistura de material cancerígeno, ao fornecimento de carne podre e estragada. Numa atitude de extremado desespero e desrespeito ao consumidor, uma das empresas veio a público, não para se retratar ou pedir desculpas, o que por si só seria insuficiente, mas sim para tentar justificar o ocorrido através de fotos e postagens de seus funcionários ostentando produtos em suas casas.
 
A contratação do goleiro Bruno pelo time mineiro de Varginha, o Boa, que irá disputar a segunda divisão do campeonato brasileiro, gerou polêmica e discussão. Os maiores patrocinadores, num gesto de repulsa e desaprovação, para não terem o nome de sua empresa envolvido ou associado ao goleiro, retiraram seu time de campo e rescindiram o contrato com o clube. Numa entrevista concedida a uma conhecida emissora de televisão, seu presidente foi questionado se daria esta mesma  oportunidade ao goleiro , caso a vítima tivesse sido sua filha. De uma forma inteligente e pouco usual, o presidente respondeu no mesmo tom e altura, com outra pergunta: “e se o Bruno fosse o seu filho?”
 
Estamos vivendo um período de profunda transformação política e o monopólio da informação, detido até pouco tempo, pelas maiores empresas de comunicações do país, está sendo diluído através de outros canais, modos e meios. A internet e os dispositivos móveis, que hoje são responsáveis pelo maior número de acessos, operam, mesmo que de forma lenta e gradativa, uma verdadeira revolução na nossa maneira de agir, sentir e pensar. A interação virtual é algo real e o número de informações compartilhadas é infinitamente superior ao que era possível constatar há uma década.
 
Apesar de parcela significativa da população estar atenta e vigilante aos mandos e desmandos operados pelos agentes do poder, ainda é possível contemplar um esforço desmedido de algumas emissoras, principalmente as de canal aberto, para negar e ignorar determinados fatos e eventos,  dando ênfase a aspectos irrelevantes de certos acontecimentos, como se nada estivesse ocorrendo.
 
Não por acaso Buda nos diz que “três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o sol, a lua e a verdade”. Em Marcos, capítulo 4, versículo 22 podemos ler que “nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada em segredo que não seja trazido à luz do dia”. Me despeço com uma célebre frase de Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos por todo o tempo”.

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