17/02/2017 às 07h37min - Atualizada em 17/02/2017 às 07h37min

Orquestra Filarmônica comemora dez anos como patrimônio da arte e da cultura

Fabio Mechetti fala do trabalho pela democratização da música clássica e dos planos futuros, entre eles uma importante iniciativa para formação de novos talentos

Agência Minas

Orquestra Filarmônica de Minas Gerais dá início às comemorações de seus dez anos de existência
Adicionar Minas Gerais em uma visão cultural, de vivência íntima com a música clássica e concertos acústicos de alta qualidade, como há dez anos não existia no estado e oferecer realizações de excelência. Desmistificar a ideia de que concertos de orquestra são opções culturais para um público restrito. Democratizar o acesso à música clássica. Estes são os desafios e objetivos do maestro paulista Fabio Mechetti.

Como diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, criada pelo Governo de Minas Gerais, em 2008, o maestro dos concertos de abertura da 10ª temporada de apresentações desta quinta-feira e sexta-feira, dias 16 e 17 de fevereiro, às 20h30, na Sala Minas Gerais, Fabio Mechetti posicionou a Orquestra mineira nos cenários nacional e internacional. Em cartaz na estreia da temporada, a execução do poema sinfônico Festklänge, de Liszt, e a Sinfonia nº 5 em dó sustenido menor, de Mahler.

Com ela, o regente conquistou vários prêmios, realizou gravações para o selo Naxos e turnês pelo Uruguai e Argentina para a disseminação do repertório sinfônico brasileiro e universal.

Em entrevista à Agência Minas Fabio Mechetti falou sobre a importância de levar ao público o trabalho orquestral ao maior número de pessoas possível, fomentando a cultura da música erudita, desmistificando e popularizando o acesso aos concertos sinfônicos, e do plano de criar uma orquestra jovem e uma academia universitária para dar oportunidades aos aspirantes da carreira em música clássica.

Quais elementos são essenciais no comando de uma Orquestra Filarmônica?

Fabio Mechetti – Um conjunto de elementos são essenciais para a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais revelar uma produção de alta qualidade. A Filarmônica começou em 2008 comigo e foi criada a partir de uma premissa política: toda a base da orquestra foi construída e planejada em busca de excelência. Tudo o que desvia desse caminho tentamos evitar. Acho que os resultados que a Orquestra tem conquistado nestes anos têm mostrado que estamos no caminho certo. O Governo demonstrou compromisso com a gente ao construir uma sala exclusiva para a Filarmônica, onde agora podemos tanto ensaiar quanto realizar as apresentações. Todos os músicos se sentem contemplados por executar as composições em um local que representa um marco na história dos espaços de concerto, por ter uma acústica fiel aos instrumentos orquestrais, e da própria Filarmônica de Minas Gerais.

A que se deve este crescente interesse do público pela orquestra e, consequentemente, pela música clássica?

Fabio Mechetti – Esse interesse começou a se expandir quando a Orquestra Filarmônica obteve uma posição de destaque no cenário cultural e artístico ao longo dos últimos anos, alcançado por apresentar ao público um produto de alta qualidade, com realização de importantes gravações e realizações. Desde o início da trajetória orquestral a Filarmônica já realizou 641 concertos com a apresentação de 835 obras do período barroco ao contemporâneo, que foram assistidos presencialmente por mais de 800 mil de pessoas, isso com 45% de gratuitamente. O objetivo é adicionar culturalmente o estado em uma dinâmica que há dez anos não existia, além dos programas que realizamos, preocupados em levar a Orquestra a todos os territórios de Minas Gerais. Nosso estado tem um público que varia de 8 a 80 anos, chega a todos os públicos, e temos conseguido desmistificar a música clássica como sendo destinada a um público elitizado. Este é o resultado de uma combinação de fatores que vai desde os investimentos feitos pelo Governo do Estado, especialmente por meio das leis de incentivo Estadual e Federal, e também pela iniciativa privada, como a busca pelo primor dos músicos e de todos os envolvidos na Orquestra. 

E como é este desafio de democratizar e desmistificar o acesso à música clássica?
Fabio Mechetti – O importante é desmistificar sem comprometer o produto. Levamos um repertório com riquíssimas nuances, legitimo e tradicional. A reação do público é excepcional em quase todos os concertos, pois a música erudita tem essa força com uma qualidade emotiva. A excelência no trabalho vem deste viés: acreditamos no poder de transformação que a música tem na sociedade. Me lembro de um caso que costumo contar para fazer referência sobre a relevância da Orquestra em Minas Gerais. Uma vez, na cidade de Tupaciguara, no Triângulo Mineiro, um lugar com 10 mil habitantes, cerca de 3 mil pessoas assistiam ao repertório que incluía Beethoven e Tchaikovsky. Quando acabou o concerto, centenas delas fizeram uma fila para cumprimentar um a um os músicos, e um senhor veio chorando e apertou nossa mão e disse que nunca tinha ouvido uma orquestra e que aquilo parecia coisa divina, e nos agradeceu. Você vê que apenas um momento de alegria talvez possa mudar a vida de uma pessoa através da sensibilidade, o que justifica a força da cultura da música erudita.

Como são formados novos músicos e há espaço para talentos carentes socialmente?
Fabio Mechetti – O músico da Filarmônica passou por um processo de treinamento em aulas individuais, escolas e igrejas e este é o celeiro onde este talento é reconhecido. A grande maioria foi estudar fora porque no Brasil os conhecimentos para músicos de orquestra são limitados, muitos fizeram mestrado e doutorado para ampliar seus estudos na música erudita e orquestral. O que se observa é que falta uma ponte entre talento e profissionalismo para que estes jovens ingressem nas orquestras. Há um grande desejo de criar uma orquestra jovem para inserir estes jovens carentes para dar oportunidades e reconhecer talentos e também de criar uma academia com músicos, salas, instrumentos com todo apoio necessário para que eles se desenvolvam se tornem músicos orquestrais para que eles sejam integrados às oportunidades no futuro. Esperamos trabalhar nisso para que consigamos executar esse plano nos próximos anos.

Qual a marca das comemorações dos dez anos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais?

Fabio Mechetti – A décima temporada marca o sucesso que a Filarmônica tem tido na sua missão de oferecer música de qualidade a um público cada vez maior, dentro e fora de Belo Horizonte. Nossos assinantes crescem a cada ano, vários de nossos concertos têm estado lotados, obrigando-nos a duplicar apresentações, além da programação estabelecida; nossas séries educacionais, como os Concertos para a Juventude, também têm se esgotado. Isso mostra o interesse da sociedade mineira pela Filarmônica, desde os mais jovens aos mais velhos, e a confiança no trabalho que realizamos.

O repertório inaugural

Com os sons festivos de Franz Liszt e a profunda reflexão de uma das mais célebres obras do repertório de Gustav Mahler, a Filarmônica de Minas Gerais abre, em 2017, sua décima temporada. Nos concertos destas quinta e sexta-feiras, na Sala Minas Gerais, às 20h30, a Filarmônica realiza a abertura interpretando o poema sinfônico Festklänge, de Liszt, e a Sinfonia nº 5 em dó sustenido menor, de Mahler. ​

Antes das apresentações, das 19h30 às 20h, o público poderá participar dos Concertos Comentados, palestras que abordam aspectos do repertório. O palestrante será Werner Silveira, percussionista da Filarmônica de Minas Gerais e curador da iniciativa.

Na ocasião, as pessoas saberão que, ao invés de uma carta, Mahler escreveu uma música como testemunho de seu amor por Alma Schindler, com quem viria a se casar. Trata-se do Adagietto, quarto movimento da Sinfonia nº 5, obra que começou a ser escrita no verão de 1901. No inverno anterior, o compositor havia conhecido, e se apaixonado, pela jovem Alma. Ficaram noivos no outono e se casaram em março de 1902, data de conclusão da peça. A sinfonia descreve sentimentos díspares que vão da tragédia à leveza e ao triunfo.

“A qualidade da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais transformou-se em mais um emblema da cultura mineira, de modo a referir, no contexto nacional e no exterior, a conquista singular que a música de concerto alcançou em nosso estado. Os aplausos se intensificam, a cada récita, e a Filarmônica devolve sempre, ao entusiasmo do público, motivos para que este a considere um patrimônio da arte e da cultura de um território tão rico em expressões admiráveis” (Ângelo Oswaldo, secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais)

Programas educacionais

Atualmente, a Filarmônica de Minas Gerais desenvolve seis frentes de trabalho de cunho educativo e pretende, no próximo ano, dar início a dois novos projetos: Academia Filarmônica e Orquestra Filarmônica Jovem.

Os atuais programas são os Concertos para a Juventude, iniciativa que recupera, em Minas Gerais, a tradição de concertos sinfônicos nas manhãs de domingo. São dedicados à família e à formação de público. Em 2017, as seis apresentações, dirigidas pelo regente associado Marcos Arakaki, irão tratar da relação entre a música sinfônica e outras formas de arte, além de abordar conceitos musicais básicos como ritmo, melodia, harmonia, contraponto etc.

Os Concertos Didáticos são dedicados a crianças e adolescentes dos ensinos fundamental e médio e a instituições sociais. Em 2017 serão oito concertos na Sala Minas Gerais. Para o melhor aproveitamento das apresentações, os alunos são preparados por monitores da Escola de Música da Universidade do Estado de Minas Gerais. Visando sedimentar essa experiência e agora também com o apoio da Secretaria de Estado da Educação, além da Esmu/UEMG, em 2017 os Concertos Didáticos serão acompanhados por um trabalho educativo sobre o universo sinfônico, realizado nas próprias escolas participantes, antes e depois das apresentações.

O Festival Tinta Fresca destina-se ao fomento da criação musical sinfônica entre jovens compositores brasileiros. Com inscrições provenientes de todo o país, um corpo de jurados formado por compositores renomados é responsável pela seleção das peças. Feito isso, Orquestra e criadores dão início ao processo de transformação de partituras em músicas que, ao fim, são reveladas em concerto aberto ao público.

O Laboratório de Regência, a cada ano, reúne 15 jovens regentes provenientes de todo o país e em busca do aprimoramento de seus talentos. Eles recebem orientação do regente titular da Filarmônica, Fabio Mechetti, e, ao final de uma semana de aulas técnicas e teóricas, quatro deles conduzem a Orquestra em um concerto aberto ao público.

Os Concertos Comentados são dirigidos ao público de cada concerto das séries Allegro, Vivace, Presto e Veloce, seja assinante ou avulso. Conduzida por diferentes palestrantes e com duração de 30 minutos, esta ação busca situar obras e compositores do repertório do dia dentro de diversos contextos, de modo a ampliar a sensibilidade para a apresentação de cada peça.

Os Concertos de Câmara da Filarmônica buscam criar um contato mais próximo com grupos de instrumentos da orquestra – cordas, madeiras, metais e percussão –, aprofundar a percepção sobre a diversidade de timbres, assim como promover um diálogo estreito entre público e músicos

Destaques da programação de 2017

Em 2017, das cinco séries, a chamada Fora de Série será inteiramente dedicada ao estilo barroco na música. Com o propósito de aprofundar sobre o tema, cada um de seus nove concertos, realizados aos sábados, irá explorar o barroco em sua concepção francesa, alemã, mineira, italiana, sua influência através dos tempos, bem como obras de compositores específicos como Vivaldi, Haendel, Bach e de sua família.

Nas séries Allegro, Vivace, Presto e Veloce, realizadas às quintas e sextas-feiras, entre seus convidados a Orquestra recebe, pela primeira vez, o regente e violinista israelense Pinchas Zukerman, que irá reger e tocar, ao mesmo tempo, o concerto para violino e violoncelo em lá menor, op. 102, de Brahms. Também estreiam com a Filarmônica de Minas Gerais o pianista tcheco Lukás Vondrácek, vencedor do último Concurso Rainha Elisabeth, da Bélgica, e o norte-americano Robert Bonfiglio, que se apresenta com um instrumento pouco usual em concertos sinfônicos: a harmônica.

O público terá a oportunidade de rever dois músicos brasileiros há muito alçados ao cenário mundial da música erudita: o pianista Nelson Freire e o violoncelista Antonio Meneses, colaboradores e amigos da Filarmônica desde sua criação. Dentre os estrangeiros, retornam ao palco da orquestra a pianista Anna Vinnitskaya e os violinistas Phillipe Quint, Nicolas Koeckert e Sergej Krylov, entre outros grandes músicos.

No repertório, obras de compositores essenciais como Mahler (Sinfonia nº 5 e nº 6, “Trágica”), Rachmaninov (Danças Sinfônicas), Vivaldi (As quatro estações), Dvorák (Sinfonia nº 9, “Do novo mundo”), Brahms (Sinfonia nº 1), Nunes Garcia (Requiem), Bruckner (Sinfonia nº 3), Haendel (Música Aquática), Berlioz (Sinfonia Fantástica), Shostakovich (Sinfonia nº 12, “O ano de 1917”), Tchaikovsky (Sinfonia nº 4), Bach (Cantata nº 211, “Do Café”), Holst (Os planetas) e muito mais.

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