24/08/2017 às 14h00min - Atualizada em 24/08/2017 às 14h00min

Artigo sobre Amália Rodrigues

WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO
Cantinho  Musical  oferece  esta  homenagem  fraternal  às  simpáticas  colônias lusitanas  radicadas  no  Brasil  para  que  curtam , saudosamente , os  cantos  da  terrinha  através  das  belas  interpretações  deste  ícone  da  música  popular  portuguesa :   “ AMÁLIA   RODRIGUES  . “
        Este  artigo   homenageará   uma  cantora  que   se  destacou  em  um  gênero  de  música  identificado  com  os  sentimentos   do  povo  português , interpretando   os FADOS   com uma  enorme  carga  emocional  nos  estilos  próprios  dessas  belas  canções  :  “  AMÁLIA  RODRIGUES “  .  

    O fado é um estilo musical português geralmente  cantado por uma só pessoa (fadista) e acompanhado por uma guitarra clássica (nos meios fadistas denominada viola) e uma guitarra portuguesa. Uma explicação popular para a origem do fado de Lisboa remete para os cânticos dos mouros, que permaneceram no bairro da Mouraria , na cidade de Lisboa após a reconquista Cristã. A dolência e a melancolia, tão comuns no Fado, teriam sido herdadas daqueles cantos.

"É   UMA  CASA  PORTUGUESA  COM  CERTEZA ,
É  COM  CERTEZA UMA CASA PORTUGUESA  !"
    
Amália da Piedade Rodrigues Lisboa, nasceu em 23 de Julho  de 1920 ,  em  Lisboa, vindo falecer em 6 de Outubro de 1999. Foi uma fadista, cantora e atriz portuguesa, considerada o exemplo máximo do fado, comumente aclamada como a voz de Portugal e uma das mais brilhantes cantoras do século XX. Tornou-se conhecida mundialmente como a Rainha do Fado e, por consequência, devido ao simbolismo que este gênero musical tem na cultura portuguesa, foi considerada por muitos como uma das suas melhores embaixadoras no mundo .

 
   Passaremos  agora  apresentar  uma  sequência  de  canções  que  foram  consagradas  na  maravilhosa  voz  de  AMÁLIA  RODRIGUES  e  que  encontram-se  perpetuadas  na  galeria  dos  grande  fados  portugueses .  Iniciaremos  com  um  belo  fado  composto  por  Artur  Ribeiro  e  Ferrer  Trindade  e   interpretado  com  muita  emoção   por  Amália  Rodrigues  cujo  tema  é  uma  verdadeira  ocultação  dos  sentimentos amorosos ,  tornando-se , durante  o  desenvolver  da  canção,  um  imenso  enigma  sobre  a  pessoa  a  quem  ela  dedica  seu  grande  amor , e com  afirmação  do  esclarecimento  temático  :  “  NEM  ÀS  PAREDES  CONFESSO  “  .            [ “ / Não queiras gostar de mim, sem que eu te peça / Nem me dês nada que ao fim, eu não mereça / Vê se me deitas depois culpas no rosto / Isto é sincero porque não quero dar-te um desgosto / De quem eu gosto nem às paredes confesso / E até aposto que não gosto de ninguém / Podes sorrir, Podes mentir, podes chorar também / De quem eu gosto, nem às paredes confesso / Quem sabe se te esqueci ou se te quero / Quem sabe até se é por ti por quem eu espero / Se eu gosto ou não afinal, isso é comigo / Mesmo que penses que me convences nada te digo / De quem eu gosto nem às paredes confesso / E até aposto que não gosto de ninguém / Podes sorrir, podes mentir, podes chorar também / De quem eu gosto, nem às paredes confesso /  (BIS) /  . “  ]  . 

Neste  belo  fado  ,   composto  por  Alberto  Janes  , Amália  Rodrigues  acrescenta  um  lindo  toque  sentimental  com  sua  bela  voz  em  um  tema  que  descreve  toda  criação  de   Deus  e  o  milagre  dado  a  ela  como   acalanto  diante  da  dor  e  do  pranto  quando  seu  canto  expressa muita  fé  na  melodia  de  um  fado , o  que  justifica  tal  fenômeno e  a  certeza  de  que   :   “   FOI   DEUS   “ .  [ “ /  Não sei, não sabe ninguém / Por que canto o fado / Neste tom magoado / De dor e de pranto / E neste tormento / Todo o sofrimento / Eu sinto que a alma / Cá dentro se acalma / Nos versos que canto / Foi deus / Que deu luz aos olhos / Perfumou as rosas / Deu ouro ao sol / E prata ao luar / Foi deus / Que me pôs no peito / Um rosário de penas / Que vou desfiando / E choro a cantar / E pôs as estrelas no céu / E fez o espaço sem fim / Deu o luto as andorinhas / Ai, e deu-me esta voz a mim / Se canto / Não sei o que canto / Misto de ventura / Saudade, ternura / E talvez amor / Mas sei que cantando / Sinto o mesmo quando / Se tem um desgosto / E o pranto no rosto / Nos deixa melhor / Foi deus / Que deu voz ao vento / Luz ao firmamento / E deu o azul às ondas do mar foi deus / Que me pôs no peito / Um rosário de penas / Que vou desfiando / E choro a cantar / Fez poeta o rouxinol / Pôs no campo o alecrim / Deu as flores à primavera / Ai!, e deu-me esta voz a mim. / . “  ]  . 


Aníbal Nazaré  e  Frederico Carvalho  compuseram  uma  peça  musical    conceituando  o  que  é  um  fado e , no  decorrer  da  canção,  descrevem  os  ingredientes  na  construção  emocional  da  música ,  associando , em  cada  verso , todas  suas  características  com  os  sentimentos  da  paixão , descartando , através da bela  voz de  Amália  Rodrigues  ,  qualquer  possibilidade   de   separação  entre   o  puro  amor  e o  fado , porque      “  TUDO   ISTO  É  FADO  “  .      [ “ /  Perguntaste-me outro dia / Se eu sabia o que era o fado / Disse-te que não sabia / Tu ficaste admirado / Sem saber o que dizia / Eu menti naquela hora / Disse-te que não sabia / Mas vou-te dizer agora / Almas vencidas / Noites perdidas / Sombras bizarras / Na Mouraria / Canta um rufia / Choram guitarras / Amor ciúme / Cinzas e lume / Dor e pecado / Tudo isto existe / Tudo isto é triste / Tudo isto é fado / Se queres ser o meu senhor / E teres-me sempre a teu lado / Não me fales só de amor / Fala-me também do fado / E o fado é o meu castigo / Só nasceu pra me perder / O fado é tudo o que digo / Mais o que eu não sei dizer / . “  ]  . 


Em  uma  pequena  manifestação  musical  , José Galhardo   e  José  dos Santos  compuseram   um  fado ,  interpretado  emocionalmente  pela  bela  voz  de  Amália  Rodrigues ,  manifestando  um  saudosismo  retratado  na  bela  cidade  em  momentos  de  belas  lembranças  presentes  na   “   LISBOA   ANTIGA   “  .      [ “ /  Lisboa, velha cidade, / Cheia de encanto e beleza! / Sempre a sorrir tão formosa, / E no vestir sempre airosa. / O branco véu da saudade / Cobre o teu rosto linda princesa! / Olhai, senhores, esta Lisboa d'outras eras, / Dos cinco réis, das esperas e das toiradas reais! / Das festas, das seculares procissões, / Dos populares pregões matinais que já não voltam mais! / ( BIS ) / .  “  ]  . 




Ainda  homenageando  um  famoso  espaço  de  Portugal  onde  se  curtiam  grandes  amores ,  José Galhardo / Raul Ferrão / José Dos Santos  criaram  uma  bela  canção ,  destacando  durante  a  cadência  musical  características  sentimentais  presentes  na  alma  do  povo  português  ,  representado no  reduto  dos   amores              “   COIMBRA   “  .  [ “ / Coimbra é uma lição / De sonho e tradição / O  lente é uma canção / E a lua a faculdade / O livro é uma mulher / Só passa quem souber / E aprende-se a dizer saudade / Coimbra do choupal / Ainda és capital / Do amor em Portugal, ainda / Coimbra onde uma vez / Com lágrimas se fez / A história  dessa Inês tão linda / Coimbra das canções / Tão meiga que nos pões / Os nossos corações, à luz / Coimbra dos doutores / Pra nós os teus cantores / A fonte dos amores és tu / . “  ]  . 


Este  fado  fala  de um  dos mais tradicionais bairros da  cidade de Lisboa .  Foi  nesse  tradicional  bairro que permaneceram  os mouros após a Reconquista  Cristã . E  foi  motivado  nesse  recanto  que  Amadeu  do  Vale  referiu-se ,  em  sua  composição ,  a   todo  amor  e  paixão   expressos  nesta  canção  tão  bem  interpretada  por  Amália  Rodrigues  , descritos  com  todos  os  detalhes  fixados  na  memória  em  uma  precisão  saudosista  manifestada  em                         “   AI   MOURARIA  “ .  [ “ / Ai  mouraria / Da velha rua da palma / Onde eu um dia / Deixei presa a minha alma / Por ter passado / Mesmo a  meu lado / Certo fadista / De cor morena / Boca pequena / E olhar trocista / Ai  mouraria / Do homem do meu encanto / Que me mentia / Mas que eu adorava tanto / Amor que o vento / Como um lamento / Levou consigo / Mais que inda agora / A toda a hora / Trago comigo / Ai  mouraria / Dos rouxinóis nos beirais / Dos vestidos cor-de-rosa / Dos pregões tradicionais / Ai  mouraria / Das procissões a passar / Da severa em voz saudosa / Na guitarra a soluçar / . “  ]  . 


Nós  não  poderíamos  deixar  de  mostrar nesta  homenagem  o  cenário  de  um  simples  lar  português . Artur Vaz Da Fonseca  ,  Reinaldo Ferreira  e Vasco Sequeira  nesta  composição  descrevem , com  muita  precisão ,  como  o  povo  lusitano  recebe  convidados  em  sua  residência , detalhando  ,minuciosamente ,  em  cada  verso  da  bela  canção  interpretada  por  Amália  Rodrigues ,   como  é      “  UMA  CASA  PORTUGUESA  “  .          [ “ / Numa casa portuguesa fica bem / Pão e vinho sobre a mesa / E se à porta humildemente bate alguém / Senta-se à mesa co'a gente / Fica bem esta franqueza, fica bem / Que o povo  nunca desmente / A alegria da pobreza / Está nesta grande riqueza / De dar, e ficar contente / Quatro paredes caiadas / Um cheirinho à alecrim / Um cacho de uvas doiradas / Duas rosas num  jardim Um São José de azulejo / Mais o sol da primavera / Uma promessa de beijos / Dois braços à minha espera / É uma casa portuguesa, com certeza! / É, com certeza, uma casa portuguesa! / No conforto pobrezinho do meu lar / Há fartura de carinho / E a cortina da janela é o luar / Mais o sol que bate nela... / Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar / Uma existência singela... / É só amor, pão e vinho / E um caldo verde, verdinho / /A fumegar na tigela / Quatro paredes caiadas / Um cheirinho á alecrim / Um cacho de uvas doiradas / Duas rosas num jardim / Um São José de azulejo / Mais um sol da primavera... / Uma promessa de beijos... / Dois braços à minha espera... / É uma casa portuguesa, com certeza! / É, com certeza, uma casa portuguesa! / .”  ] .   


Amadeu do Vale / Frederico Val   compuseram  esta  maravilha  de  fado  e   Amália  Rodrigues   interpreta  com  grande  emoção  os  lamentos  de  uma  mulher  que  fora  abandonada  e  que  aceita  uma  reconciliação  com  o  amante ,  se,  de  fato , houver  arrependimento  por  ter estado  com  outra ,  caso  contrário,  que  permaneça  a  separação  , tudo  manifestado  na  canção  :   “   FADO  COM  CIÚME   “  .  [ “ / Se não esqueceste / O amor que me dedicaste, / E o que escreveste / Nas cartas que me mandaste, / Esquece o passado  / E volta para meu lado, / Porque já estás perdoado / De tudo o que me chamaste. / Volta meu querido, / Mas volta como disseste, / Arrependido / De tudo o que me fizeste, / Haja o que houver / Já basta p'ra teu castigo / Essa mulher  / Que andava agora contigo. / Se  é contrafeito / Não voltes, toma cautela / Porque eu aceito / Que vivas antes com ela / Pois podes crer / Que antes prefiro morrer / Do que contigo viver / Sabendo que gostas dela. / Só o que eu te peço  / É uma recordação, / Se é que mereço / Um pouco de compaixão, / Deixa ficar  / O teu retrato comigo, / P'ra eu julgar / Que ainda vivo contigo./ . “  ]  .

Neste  lindo  fado  composto  por  Silva  Tavares  e  Frederico  Valério ,  Amália  Rodrigues  faz  uma  bela  representação  musical  , demonstrando  uma  enorme  nostalgia , resultante  de  guardar  dentro  de  si  todo  um  sofrimento  e  a  importância  de  seu  canto  para  encobrir  toda  tristeza na  execução  de  seus  fados  fingindo  alegria  e   felicidade  :  “   QUE  DEUS  ME  PERDOE  “ .  [ “ / Se a minha alma fechada / Se pudesse mostrar, / E o que eu sofro calada / Se pudesse contar, / Toda a gente veria / Quanto sou  desgraçada / Quanto finjo alegria / Quanto choro a cantar... / Que Deus me perdoe / Se  é crime ou pecado / Mas eu sou assim / E fugindo ao fado / Fugia de mim. / Cantando dou brado / E nada me dói / Se é pois  um pecado / Ter amor ao fado / Que Deus me perdoe. / Quanto  canto não  penso / No que a vida é de má, / Nem sequer me pertenço, / Nem o mal se me dá. / Chego a querer a verdade / E a sonhar - sonho imenso - / Que tudo é felicidade / E tristeza não há. / . “  ]  . 


Para  quebrar  a  nostalgia  do  fado , encerraremos  a  homenagem   a  esta  intérprete  das  canções  portuguesas ,  convidando  a  dançar  um  VIRA  . Chama-se Vira, porque há uma viragem de corpos que lhe é característica, fazendo  com que a saia da mulher que  dança comece a formar uma espécie de sino distorcido – “ó rosa arredonda a saia”, como se costuma cantar.  Para  dar  ritmo  a essa  dança  da  região  de  Moinho ,   Amália  Rodrigues  interpretará  a  canção  que  é  reconhecidamente  o  rótulo  do  povo  lusitano :   “  TIRO  LIRO  LIRO  “  .             [ “  / Lá em cima está o tiro-liro-liro / Cá embaixo está o tiro-liro-ló / (Lá em cima está o tiro-liro-liro / Cá embaixo está o tiro-liro-ló) / Juntaram-se os dois na esquina / A tocar a concertina, a dançar o solidó / (Juntaram-se os dois na esquina / A tocar a concertina, a dançar o solidó) / Comadre, minha comadre / Eu gosto da sua pequena! / (Comadre, ó minha comadre / Ah, eu gosto da sua pequena!) / É bonita, apresenta-se bem / Parece que tem a face morena! / (É bonita, apresenta-se bem / Parece que tem a face morena!) / REFRÃO : Lá em cima está o tiro-liro-liro /.../ Comadre, minha comadre / Eu gosto da sua afilhada! / (Comadre, ó minha comadre / Ah, eu gosto da sua afilhada!) / É bonita, apresenta-se bem / Parece que tem a face rosada! (BIS) / REFRÃO : / Lá em cima está o tiro-liro-liro / ... / . “  ]  .
  
   “   QUANDO  UM  CANTO  DORIDO  ALCANÇA  A  ALMA  DE  ALGUÉM ,  CERTAMENTE  OS  SENTIMENTOS  NOSTÁLGICOS  SE  ELEVAM  NOS  CORAÇÕES  DOS  APAIXONADOS .  O  FADO  ,  COM  SUAS   MELODIAS  SOFRIDAS ,  É  O  AGENTE  MUSICAL  DESSA  REALIZAÇÃO  QUE , APOIADO  NA  MARAVILHOSA  VOZ  DE  AMÁLIA  RODRIGUES  ,  CANALIZA   PARA  OS  AMANTES  DA  CANÇÃO  UMA  IMENSA  MELANCOLIA  RELACIONADA  AO  AMOR  NÃO  CORRESPONDIDO !  “
 
Waldemar  Pedro  Antonio                   e-mail  :   wpantonio@terra.com.br
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