04/09/2017 às 09h57min - Atualizada em 04/09/2017 às 09h57min

Não vou me adaptar

Gino Ribas Meneghitti

A grande maioria de nós, brasileiros, possui apenas uma vaga noção da configuração geográfica, política e econômica do país, o que nos impede de reconhecer e visualizar os verdadeiros agentes e mandatários da nação. 
  
Banqueiros, empreiteiros e multinacionais andam de mãos dadas com um grupo de latifundiários, empresários e industriais, cujos principais empreendimentos se concentram desde o agronegócio, às grandes indústrias de energia (petróleo), transporte (automóveis), mineração (minério de ferro) e bebidas (cerveja). 
 
Em seguida, podemos enumerar uma série de políticos, juízes e militares, além do poder do clero e, claro, a grande arquiteta, simbolizada pelo olho que tudo vê: a Rede Globo e os meios de comunicação de massa, leiam-se mídia e imprensa. 
 
Difícil é acreditar que os defensores desta ordem e deste progresso, além de serem recrutados na base da pirâmide, são obrigados a servir e se alistar para defender com unhas e dentes os interesses de quem oprime a si e ao seu povo.
 
Enquanto adotarmos uma postura de conivência e submissão aos ditames impostos por este modelo piramidal de globalização, os tentáculos do capitalismo tendem a esmagar a maioria da população que se contenta em reproduzir e se enquadrar nos moldes e padrões preestabelecidos.  
 
Enquanto não formos incentivados a criar e a repensar um novo caminho para o país estaremos destinados ao fracasso. Até quando seremos reféns da mediocridade, do medo e da covardia? Necessitamos de pessoas sérias e dispostas a realizar algo de relevante em prol da população. 

Gostaria de, ao invés de apontar os erros e as injustiças, propagar as soluções, mas não existe nenhuma intervenção mágica e de fácil resolução. Demandará tempo, paciência e energia, pois ainda iremos assistir alguns espetáculos de gosto duvidoso; cômicos se não trágicos. 
 
A competitividade, a especulação em torno da economia, as respostas simplórias e reducionistas que exemplificam um profundo desconhecimento do assunto, o qual pode ser contemplado nas respostas vazias e evasivas "o problema é a crise internacional" "os juros, a inflação". Na verdade, várias são as razões e causas desta questão. Ainda somos vítimas dos grandes monopólios de terra e de renda. 
 
Uma minoria hipócrita, que não acredita e nunca acreditou na melhoria efetiva do país, que sempre se beneficiou da esfera privada, que nunca se privou de nada em benefício do povo, que sempre se julgou superior e intocável pelas leis vigentes em nosso país, começa a se render aos fatos de que, futuramente, as pessoas possam novamente reivindicar seus direitos à força. Por isso elas temem a elevação da consciência e lançam um olhar perverso sobre a realidade. 
 
Enquanto o povo permanecer escravizado, lutando pela sobrevivência com baixos salários e assumindo a responsabilidade por toda mão de obra pesada, iremos assistir passivos a passagem de bravos espíritos que tão somente exemplificam e nos mostram, através de sua vida e de seus atos, os verdadeiros valores que deveríamos admirar e respeitar. 
 
A agricultura familiar, o desenvolvimento sustentável, a abertura de novos mercados, o investimento maciço na educação de base, a revisão dos bens exportados e importados, a descentralização do poder e a adoção de medidas para impedir o avanço da inflação, como o investimento em outros meios de transporte e energia são formas inteligentes de encarar certos problemas ou se preferimos, assumirmos desafios.   
 
A crença passiva de que alguém será capaz de resolver todos os nossos problemas e conflitos num passe de mágica é o que nos mantém cativos de nós mesmos, prisioneiros do tempo e escravos da esperança. 
 
Por outro lado, somos motivados a enxergar as transformações operadas em nossas próprias vidas. Se por um lado conseguimos visualizar as alterações que podem e devem ser operadas no interior do sistema, por outro, ousemos admitir que só podemos e devemos mudar a nós mesmos. 
 
Mesmo que as coisas piorem e os problemas se multipliquem, existem outros meios e formas de mudar o mundo em que vivemos. Cada qual em sua área, exercendo sua atividade, buscando dar sempre o seu melhor. Acredito que um dia iremos viver num país decente, afirmando nossa identidade, reconhecendo nossos valores e nossa capacidade de crescermos e evoluirmos através de nossa inteligência, persistência e criatividade. 
 
Contamos com pessoas criativas, que acreditam na mudança e que operam, silenciosas, a verdadeira revolução: a de consciências. Pessoas que teimam em permanecer fiéis aos princípios esposados. Que vivem em função daquilo que acreditam e creem ser correto: a ética, o respeito, a dignidade. 
 
Conheço muitas pessoas que não abrem mão de serem reconhecidas como honestas, que se fiam na palavra e no fio de bigode. Espero que possamos ser responsáveis pela renovação e mudança, que se fazem tão urgentes e necessárias. Nos resta agir em prol da melhoria efetiva em nossas vidas, sabendo que a verdadeira mudança começa em nós mesmos.

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