05/05/2018 às 19h03min - Atualizada em 05/05/2018 às 19h03min

A lógica do ressentimento – ou o Estado Vingador

Rafael Castro
       Programas televisivos de cunho sensacionalista são realmente interessantes. Vê-los dramatizar uma luta eterna entre o bem e o mal, o vagabundo e o trabalhador, Deus e o diabo, a polícia e o bandido, o crime e o castigo é uma experiência arrebatadora que revela – oculta entre polêmicas infinitas – a lógica do ressentimento que embala as massas expectadoras. Basta assisti-los com a devida atenção para perceber a lógica que rege o senso comum. No que diz respeito ao sistema penal brasileiro, por exemplo, o discurso sensacionalista gira em torno de um lugar comum, a saber: “hoje, no Brasil, compensa mais ser criminoso do que ser trabalhador honesto!” Esse é o discurso mais usual, apresentado conforme algumas variáveis e suscitando justificativas, como o abrandamento das penas, a frouxidão da lei – especialmente no que toca o menor infrator –, os altos custos do sistema prisional, o medo generalizado e etc. De fato, há um cenário caótico em termos de violência retratando o Brasil de hoje. Com certa ressalva aos exageros, característicos desse tipo de discurso, o trabalhador honesto – desprovido de bens produtivos de alto valor econômico – realmente encontra-se em uma situação desoladora: mal remunerado, sem acesso à saúde, habitação e educação de qualidade, submetido a um transporte público desumano e com poucas opções de entretenimento. A crítica social é valida, as condições atuais do trabalhador brasileiro sufocam qualquer esperança de ascensão social e qualidade de vida, mas a lógica do discurso trai as demandas do próprio trabalhador. 

             Não creio que um criminoso comum, considerando o atual estado das prisões brasileiras, esteja mais confortável que o trabalhador – refiro-me ao trabalhador pobre que vende sua força de trabalho. No entanto, suponhamos que seja verdade, que realmente o crime compense mais do que o trabalho. Se pensarmos assim, qual seria a solução lógica e ética para esse problema: tornar a vida do criminoso um inferno pior do que já o é ou melhorar as condições de vida do trabalhador honesto? A tortura assistida de um homem, por mais desprezível que ele seja, não assegurará ao trabalhador melhores condições de vida e de trabalho. Alongar o sofrimento de um outrem não abreviará o meu sofrimento, a menos que o meu desejo real seja a vingança. E se esse for o caso, sejamos ao menos sinceros e admitamos o afã vingativo que nos move. O ressentimento de uma vida de trabalho desvalorizada é compreensível, todavia, despejar esse ressentimento em forma de violência sobre outro ser ressentido, socialmente violado como qualquer outro pobre, não é uma solução racional ou sequer aceitável em termos éticos.

       Bem, acredito que ao invés de exigir maior investimento em penas mais duras, melhor seria exigir mais e reais investimentos em assistência social: educação, saúde, habitação, previdência pública, leis trabalhistas, cultura, lazer e muito mais. O caminho da razão é procurar tornar a carreira do trabalhador comum de fato mais compensatória do que a estreita vida do crime. O que a meu ver não parece tão difícil, afinal, se olharmos atentamente o cotidiano de um criminoso comum, daquele criminoso de periferia aliciado pelas facções criminosas, usuário de drogas, conglomerado numa cela, que provavelmente não vai chegar aos 30 anos de idade, descobriremos que estamos no mesmo navio afundando.  

       É evidente que nessa minha lógica ensaiada não cabem os grandes criminosos – os verdadeiros criminosos –, aqueles criminosos que estão inseridos no Mercado, na política patrocinada pelo próprio Mercado ou em grandes órgãos públicos. Convenhamos, não é esse tipo de criminoso que superlota as prisões. Esse tipo de criminoso não necessita de direitos humanos, pois ele já os tem todos eles, assegurados pelo capital que ele possui. Se formos rigorosamente racionais, no caso desses criminosos, o crime sempre compensou. E por que diabos esse criminoso de grife não é alvo desse ressentimento violento que o trabalhador brasileiro vomita a todo instante? Nesse exato ponto, o senso comum mostra-se ainda mais enganado, pois os programas sensacionalistas – que apregoam como cães raivosos a pena de morte e a tortura da plebe criminosa – ignoram o crime que de fato compensa, o crime de quem rouba antes mesmo que o bem comum seja distribuído – de quem rouba o pão antes que ele chegue à mesa do trabalhador. O ódio pode até ser útil, se dirigido às pessoas certas. Ou melhor, lutar para que o bandido seja castigado, mais do que já é, é um desperdício de força, de palavras e dinheiro público. Lutar pelo bem comum é mais racional.

       A política patrocinada já percebeu que o ódio, quando bem manipulado, angaria muitos votos. A possível chegada de políticos, que representam esse discurso de ódio, ao congresso nacional pode fazer do Estado um Estado Vingador. Um Estado que, através de um espetáculo de ódio, arranca muitas palmas, satisfaz nossa necessidade de vingança, nosso ressentimento acumulado em anos de trabalho sem reconhecimento, sem resultados materiais, sem esperança de repouso. No entanto, essa é a única necessidade demasiada humana que esse modelo de Estado pode satisfazer, a todas as outras ele permanecerá indiferente. O ódio satisfeito não fará desaparecer as demais necessidades. Aquele criminoso desprezível certamente vai sofrer – eis a promessa do Estado Vingador –, porém, amigo cidadão, não espere nada além disso. Nada mais. Resta saber se somente a vingança é o suficiente. Penso que a vingança não encherá nossas barrigas. Lamentavelmente, há mais pessoas à espera do inferno para o outro do que do céu para si.

Rafael Castro – Jovem escritor. Morador de Leopoldina. Mestre e Doutorando em Ciência da Religião pela UFJF.
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