30/05/2018 às 06h47min - Atualizada em 30/05/2018 às 06h47min

Greve dos caminhoneiros!

Um amigo caminhoneiro, Fagner Guilherme, que trabalhou comigo nos Correios dizia: quer ver o Brasil parar? Basta os caminhoneiros entrarem em greve.
 
Confesso que não levava a sério o que ele falava. Tendo em vista que havia presenciado diversas greves e manifestações de caminhoneiros ao longo dos tempos. Vale destacar que os caminhoneiros fizeram paralisações nos governos: Sarney, FHC, Lula e Dilma. Causando transtornos. Porém, passando despercebido pela população. Inclusive, muitos sequer lembram que nesses governos houve greve.  Talvez se lembrem da manifestação contra Dilma – por ser mais recente. Mas não paralisou o país.
 
Foi então que os caminhoneiros resolveram enfrentar o governo Temer. Aconteceu aquilo que meu amigo Fagner dizia: o país vai parar. O Brasil parou.  Leopoldina parou. Jamais passou pela minha cabeça ver manifestação por essas bandas. Ao ponto da cidade ficar sitiada. Sem receber ou enviar carga - com exceções para remédios. Enfrentando falta de combustível, de alimentos e produtos.  Diversas empresas e setores do governo paralisados. É o caso dos Correios – empresa a qual trabalho – que mesmo quando tem greve na nossa categoria o serviço funciona quase que normal. Poucos aderem.  Mas na greve dos caminhoneiros, ficamos por mais de uma semana sem funcionar. Tenho 14 anos de Correios e nunca vi os Correios ficar tanto tempo sem funcionar.
 
O mais curioso nisso tudo é que a população, mesma afetada pela greve, apoiou do início ao “fim”. Fazendo  campanha para doações de alimentos, produtos de higiene, remédios, roupas e agasalhos. Eu por exemplo, estive no bloqueio diversas vezes. Além de alimentos, doei um pouco de cultura. Como diz na Bíblia “nem só de pão vive o homem” (Mateus 4:4) e a  música do Titãs: “A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”. Junto com os músicos e camaradas, Everton e Sapin, contando também com a colaboração do Bili, organizamos uma noite cultural. Regada de muita música e é claro, uma cachacinha para espantar o frio, a saudade de casa e  o estresse que é uma greve.  
 
Foi uma das noites mais incríveis da minha vida. Senti orgulho de apoiar essa greve.  Veio à manhã do dia seguinte e o que era sonho virou pesadelo.  Foi colocada no bloqueio dos caminhoneiros  uma faixa pedindo: Intervenção Militar já! Pra mim a greve acabou ali. Não só pra mim. Muitos que, até então apoiavam, retiraram apoio.   A partir da colocação dessa faixa, não só aqui em Leopoldina, mas em diversos outros bloqueios Brasil a fora, fez com que o movimento perdesse sentido. Passando a ganhar um tom político.

Creditos da foto: Prof Rodolfo Cristiane G. Toso Pereira - Segunfo Felipe Senra
 
Muita gente começou a pegar carona na greve dos caminhoneiros. Na verdade, isso vinha acontecendo desde o início. A própria população  apoiou, pois viu nessa greve uma forma de pressionar o governo fazendo com que fosse reduzido o preço de outros produtos: gasolina, álcool e o gás de cozinha. Com isso, a pauta dos caminhoneiros, que até então tinha como revindicações temas da categoria: preço do diesel, do frete e do pedágio; começou a ganhar um monte de propostas populares.  O que explica porque a greve durou tanto tempo. 
 
Esse fato me fez lembrar as manifestações de junho de 2013. Onde milhares de pessoas foram às ruas protestar. Alguém se lembra de como tudo começou? Começou com o reajuste de R$ 0,20 na passagem de ônibus no Estado de São Paulo. O Movimento Passe Livre (MPL), formado por jovens estudantes, saiu às ruas da capital paulista protestando. Faziam isso há 10 anos. Mas dessa vez, foram massacrados pela polícia. A violência contra esses jovens foi tão grande que acabou fazendo com que a população saísse em defesa dos manifestantes. E quando isso acontece o país para. 
 
Com isso, o movimento que até então era pequeno, um ato contra o aumento da passagem em São Paulo, se tornou numa grande manifestação nacional. Com atos  em todas as cidades brasileiras. Inclusive, Cataguases e Leopoldina – os quais participei. Destaco a  ocupação do Congresso Nacional.


Fonte: (
CC BY-SA) Mídia Ninja
 
A essa altura, não era mais por causa de R$ 0,20. As manifestações passaram a reivindicar um monte de coisa. Destaco  o fim da corrupção e redução dos impostos. Reivindicações essas que foram incluídas na greve dos caminhoneiros de 2018.
 
Como o leitor pode ver,  a população não aguenta mais esse modelo político e econômico. Quando tem uma greve ou manifestação com mais intensidade, o povo aproveita para mostrar toda sua revolta. Pegando contra nesses movimentos.
 
Acho interessante o povo mostrar sua indignação. Porém, não vai ser através de uma greve ou manifestação que vamos resolver os problemas do Brasil. Na minha opinião, esses problemas se resolvem nas urnas.
 
Do que adianta apoiar greves e manifestações se quando chega às eleições o povo pede intervenção militar, deixa de votar, faz campanha pelo voto nulo, vota sem conhecer o candidato e ainda pior:  vende o voto?

Negar a política não vai melhorar em nada a vida do povo. Pelo contrário, tende a piorar. Logo, a melhor forma de protesto é através do voto. Nossa única arma. Você que está indignado com tudo que está acontecendo com o país, mostre isso em Outubro. Participe das eleições. Vou mais além, não apenas vote. Exija dos políticos (prefeitos, vereadores, governadores, senadores, deputados) mais participação popular. Não podemos nos limitar apenas a apertar um botão de 4 em 4 anos. O povo deve participar mais da política. Exigindo realização de referendos, plebiscitos e criação de projetos de iniciativa popular – como o Ficha Limpa.   Do contrário, vamos ter que esperar outra greve ou manifestação.

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