06/08/2018 às 13h35min - Atualizada em 06/08/2018 às 13h35min

Quem escravizou os negros?

As pessoas têm uma forma curiosa de interpretar os fatos. Utilizam uma visão simplista. Muitas das vezes, culpam a própria vítima.
 
Quando uma mulher é estuprada, alguns costumam falar: “Também, vestindo daquela forma, pediu pra ser estuprada”. Como se o fato da mulher se vestir mais sensual fosse um convite para o abuso.  Deixando de ser vítima.
 
Outro exemplo de inversão de valores é na questão dos negros. Dias atrás, um candidato a presidente do Brasil, não citarei o nome, pois quero tratar do tema e não da pessoa, participando do debate no programa Roda Viva, foi questionado sobre a questão da escravidão, da dívida que temos com os negros. Segundo esse candidato, não temos dívida alguma. Tendo em vista que os próprios negros que escravizaram os negros.  Segundo ele, os portugueses não pisaram na África.
 
Como assim os portugueses não pisaram na África? Como explicar então, que muitos países da África não falam africano, mas sim português? Não só português, mas francês, inglês, holandês... A resposta é simples: esses países foram invadidos pelos europeus. Que impuseram sua língua, religião, costumes e a escravidão. Como aconteceu no Brasil. O Brasil não foi descoberto. Mas sim invadido. Falamos português porque fomos colonizados pelos portugueses. Além da língua, os portugueses impuseram a escravidão. Que durou quase 400 anos.
 
A respeito da participação dos negros na escravidão aconteceu sim. Mas não porque os negros concordavam com a escravidão. Eles foram obrigados a fazer isso.  
 
Dias atrás, estava no Rio de Janeiro, curtindo férias. Estava tomando cerveja num bar. Localizado no território controlado pela milícia. De repente para um carro na porta do estabelecimento. O dono do bar faz um sinal de joinha. Como se dissesse: tá tudo bem. O carro então vai embora.
 
Conhecendo a história do Rio de Janeiro, acredito eu que esse carro era da milícia. Milícia é um grupo armado que se instala num território e passa a tomar conta dele. Oferecendo “segurança”. Mas para isso, é preciso pagar uma taxa. Além dessa taxa, os comerciantes e a população são obrigados a comprar os produtos fornecidos pela milícia: gás, cerveja, cigarro, carvão, água mineral, internet, TV por assinatura...
 
O comerciante e população podem recusar a pagar a taxa de “segurança” e comprar os produtos que a milícia comercializa? Claro que não! Se recusarem correm o risco de perder o comércio e serem expulsos da área. Isso quando não são mortos.
 
Voltando a questão da escravidão na África, os negros tinham escolha? Podiam escolher se concordavam ou não com a escravidão? Claro que não. Os europeus utilizavam da mesma tática da milícia. Uso da força armamentista. Definiam aquele território com seu e obrigavam a população a aceitar suas regras.
 
Os europeus quando  invadiam os países chegavam para as tribos e falavam: ou vocês capturam negros para serem escravos ou faremos de vocês escravos. Entre ser escravo ou capturar escravo, muito melhor capturar. Questão de sobrevivência. Afinal, quem quer se escravo?
 
Vou dar um exemplo. Um bandido armado aponta a arma na sua cabeça e diz: passa a carteira ou eu te mato. O que você faria? Passaria a carteira ou reagiria? Tenho certeza que passaria a carteira.
 
No caso da escravidão, os negros optaram por capturar os negros. Os europeus tinham força suficiente para escravizarem os negros por conta própria. Porém, acharam melhor jogar uma tribo contra outra. Tendo em vista que havia muitas rivalidades entre elas. Disputa por territórios. Questões políticas e religiosas. Os europeus aproveitaram dessas disputas para conseguir escravos sem precisar se arriscar. Ofereciam para as tribos armas e dinheiro.  Em troca de escravos.
 
Tem uma história muito curiosa de um desses acordos. Certa vez, os portugueses chegaram numa tribo para fazer um acordo.   Prometendo um monte de vantagens. Sem muita escolha, afinal, aceitava o acordo ou lutava contra os portugueses ou com a tribo financiada por eles, essa tribo acabou aceitando a parceria.  Para selar esse acordo, os portugueses convidaram membros da tribo para uma grande festa. A festa ocorreu dentro de um navio português.  Os negros que foram comeram e beberam a noite toda. Como já estavam dentro do navio, desarmados e embriagados, os portugueses, malandramente, fizeram deles escravos. Foi à captura mais rápida e barata da história da escravidão.
 
Como o leitor pode ver, assim como os comerciantes das áreas controladas pelas milícias são obrigados a concordar com as regras impostas pelos milicianos, os negros africanos foram obrigados a concordar com a escravidão. Nem por isso podemos dizer que os comerciantes e os negros são favoráveis a esse controle. O comerciante paga a milícia porque é obrigado. Não tem escolha. Ou alguém acredita que ele paga por que gosta? Que ele opta por vender os produtos da milícia por que são mais lucrativos? Pelo contrário, são muitos mais caros. Mas como não podem escolher, acabam concordando com isso.
 
Tanto o comerciante quando os negros são vítimas do sistema. Logo, não podemos culpá-los. Querer culpar os negros pela escravidão é desconhecer a história. É ter uma visão simplista das coisas.


 
 
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