04/07/2020 às 22h17min - Atualizada em 04/07/2020 às 22h17min

ADENOIDE, A HISTÓRIA DE MINHA SURDEZ

Ao contrário de praticamente todos os meninos do Grupo Escolar Dr. Justino Pereira onde fiz meu curso primário, que sequer conheciam Cataguases, eu não tinha mais que oito anos quando conheci Juiz de Fora e andei de bonde e de elevador pela primeira vez. De elevador, para chegar ao consultório médico e, de bonde, como prêmio por ter me comportado corretamente no médico.

Em Juiz de Fora, na tal ida, papai me levou a um otorrinolaringologista, que me extraiu a adenoide, numa cirurgia que durou pouco tempo e, se me lembro, nada doeu, nem mesmo depois.

A adenoide foi vilã cruel de muito sofrimento meu, de meus pais e de alguns amigos. A carne esponjosa inflamou, provocou-me violenta otite que levou à perfuração da membrana timpânica direita e à consequente surdez parcial.

Enquanto o mal progredia, minha mãe, duas ou mais vezes ao dia, usando água oxigenada ou hipoclorina, se encarregava de higienizar meu ouvido direito, que purgava fedorentamente, preocupando minha família e levando ao sacrifício olfativo os amiguinhos mais chegados, principalmente o Ceceu (Alceu Silveira) e seu primo Roberto Silveira.

Todas as minhas férias nos cursos primário e ginasial foram no Caatinga, então distrito de Miraí e hoje o município de São Sebastião da Vargem Alegre. Lá eu me hospedava em casa de dona Ritinha e do Sr. Paulino Sarmento.

A limpeza de meu ouvido era feita pela dona Angelina/Angelita (quase pecado eu lhe esquecer o nome correto), esposa do Sr. Lannes, o farmacêutico local.

Depois da cirurgia, não mais tive problema de purgação no ouvido. Não sei como era minha audição antes, mas nunca mais escutei bem do ouvido direito.

No Caatinga, como diversão, eu jogava futebol e andava a cavalo.

Lá eu tinha três amiguinhos de aventuras, o Aldinho Vieira de Almeida, o Totonho (falecido jovem, vítima de diabetes) e seu irmão Zezé Vargas.

Para não deixar perecer o nosso alto sentimento de amizade, de vez em quando eu contato, pessoalmente ou por telefone, o Aldinho, que ainda mora no Caatinga, e o Zezé, que mora em Tamboara, no Paraná.

Ao telefone, não sei se por ser canhoto ou se por ser surdo do ouvido direito, só uso o ouvido esquerdo.

Quando jovem, eu não tinha o prazer de, ao mesmo tempo, dançar colado e conversar com a dama. Se quisesse colar, tinha que ficar calado; se quisesse ouvir a dama, tinha que “desgrudar”, porque meu ouvido direito já era um terrível adversário de minhas alegrias.

Por outro lado, valendo-me disso, eu avisava os companheiros de quarto José Marcelo Furtadinho Sarmento (no Hotel Centenário do sr. Moysés e do sr. João Gato, em Ubá) e o Heitor Ferreira de Carvalho (no apartamento 207 da Hermenegildo de Barros, nº. 8, no Rio) que iria colocar o ouvido esquerdo no travesseiro e conseguia que eles parassem de falar e me permitissem dormir.

Já casado, na segunda década dos anos 60, na tentativa de recuperar a audição do lado direito, me submeti no Rio, com o então famosíssimo otorrino dr. Carlos Kós, a uma estapedectomia (restauração do tímpano perfurado pelas purgações), mas não fui feliz. O médico recomendou repouso em local super silencioso, mas fui me hospedar em casa de meus padrinhos de casamento Anne e Pereira, que possuíam três filhinhos travessos. Eles foram comportadamente ao quarto onde eu estava e a Anne, vigilante, percebeu e chegou lá gritando a 200 decibéis:

“calem a boca porque o Nelsinho precisa de silêncio absoluto”.  A intervenção da Anne, pensando estar ajudando, levou ao indesejado: “cirurgia perdida !”

Fato cômico ocorreu por ocasião dessa cirurgia. Eu “tinha certeza” de que eu morreria durante ela e, ao acordar, a primeira pessoa que vi foi minha irmã freira Lalá, na época em que ela ainda usava as vestes carmelitas e eu, ainda meio dopado, pensei: “se morri, no inferno não estou”.   

Até hoje, automaticamente, procuro me posicionar de modo que o (a) interlocutor (a) fique em posição em que fale a meu ouvido esquerdo. Quando, porém, estou ao volante, geralmente o carona perde tempo em ficar falando, porque, concentrado na obrigação, eu não escuto o que me é falado.

Tenho o hábito de falar alto e sempre aviso que o faço não por falta de educação, mas porque, escutando mal, penso que ninguém escuta bem. Fica o falso consolo de que, pelo menos, ainda escuto do ouvido esquerdo.

Por deslocamento de retina, perdi a visão no olho direito e, num grave acidente de automóvel em 1970, fiquei com a perna direita mais curta. Já tive infartos, já me colocaram espaçadamente quatro stents e ainda um aparelho alemão, misto de desfibrilador e marca-passo.

Perguntaram à Calé por mim e ela sintetizou: um ouvido, manca para andar, já teve três infartos, já recebeu quatro stents, usa marca-passo e desfibrilador no peito, mas está bom”.

Em 23.12.2017

Nelsinho
 
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