09/07/2020 às 08h51min - Atualizada em 09/07/2020 às 08h51min

O Dia do Panificador, o pão e a fome

Oito de julho, Dia do Panificador.

Profissão humilde, raramente é lembrada.

Entretanto, merece exaltação porque é uma profissão nobre.

Existe maior grandeza do que fabricar o pão que alimenta e mata a fome?

Creio que não.

Existem presentemente cerca de um bilhão de pessoas subnutridas no mundo.

A maioria das pessoas que passam fome são mulheres e crianças.

As mortes por fome, segundo dados da ONU, suplantam as mortes por sida, malária e tuberculose somadas.
Insufiência alimentar na infância provoca danos irrecuperáveis para sempre.
Por este motivo a fome é a mais violenta negação dos direitos humanos.

Não tem coerência afirmar que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos, se a expectativa  média de vida nos países ricos é, em dobro ou em triplo, a expectativa média de vida em alguns países pobres; se mesmo no seio dos países pobres, a expectativa média de vida dos ricos da população é, em dobro ou em triplo, a expectativa média de vida dos pobres da população.
        
Aparecem recursos para acabar com doenças transmissíveis que, nos países pobres, ameaçam, pela contaminação, a saúde dos ricos.

Por que não se tomam medidas para acabar com a fome?

Por que a Humanidade terá de transpor um novo milênio carregando, nos ombros, a imoralidade e a antijuridicidade da fome?
         
Grande Josué de Castro, que merece estátuas modeladas em ouro, em bronze, ou simplesmente em pão, em todos os Horizontes e em todos os Continentes, inclusive na sede da ONU!  
         
Belo profeta brasileiro que denunciou, com pioneirismo, as causas sociais da Fome. 
Josué de Castro mostrou a fome como “problema social”. 

Graciliano Ramos, nos seus romances, retratou a fome como problema político.

A fome não brota do céu.

A fome tem causas na terra, nas injustiças imperantes.

Josué e Graciliano sofreram exílio e prisão por dizer uma verdade óbvia.
         
No Brasil contemporãneo, a grande figura profética, na luta contra a fome, foi o sociólogo Herbert de Souza, ou simplesmente o Betinho, como ficou carinhosamente conhecido.
         
A fome tem pressa, disse Betinho, com extrema racionalidade.  

Condenado a morrer, Betinho lutou, até o último momento, pela vida. 
Mas não tanto pela sua vida.
Lutou muito mais pela vida do povo brasileiro, dos marginalizados e oprimidos, dos que são massacrados pela injustiça brutal que é a fome.
        
 Não poderia haver, na sociedade brasileira contemporânea, figura que pudesse simbolizar melhor esse grito contra a fome.
Betinho estava predestinado para ser o líder da cruzada que empunhou.
 
É livre a publicação deste artigo em jornais.
É também livre a transmissão do texto, de pessoa para pessoa.
 

João Bapista Herkenhoff
       Juiz de Direito aposentado (ES) e escritor
         Email – jbpherkenhoff@gmail.com
 
 
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