18/08/2020 às 19h28min - Atualizada em 18/08/2020 às 19h28min

BENÉFICO ENCONTRO CASUAL - EDMUNDO DIAS DA COSTA

A partir de 1950, inaugurando o gratuito Ginásio Municipal Santo Antônio de Miraí, fundado pelo então prefeito Dr. Luiz Alves Pereira, ali cursei meu ginasial.
 
Ao findá-lo, em 1953, surgiram quase intransponíveis dificuldades para eu, gratuitamente, prosseguir nos estudos. Sem sobras financeiras, papai tentou o Colégio Caraça, mas não me aceitaram porque lá somente se matriculavam candidatos a futuros sacerdotes católicos e a direção encontrou nos arquivos que papai e dois irmãos por lá passaram e não se ordenaram. Tentativas outras também não lograram êxito.
 
Em uma de suas simpáticas e solidárias visitas a nossa família em Miraí, o Padre Raimundo Nonato Fernandes de Araújo, irmão da dindinha Eugênia, madrasta de papai, tomou conhecimento da situação e procurou ajudar, obtendo, com eficiência invejável, êxito junto ao então Colégio Leopoldinense, que pertencia ao Bispado de Leopoldina.
 
Projetando os fatos é que se pensa que o destino de todos está previamente traçado. Não houvesse o Curso Clássico, eu não teria estudado em Leopoldina, não voltaria sempre quando havia Exposição Agropecuária e, em consequência, não teria conhecido a Calé e minha vida, certamente, teria tomado outro rumo.
 
Num domingo de 1954, manhãzinha, véspera do primeiro dia de aula no Curso Clássico do Colégio Leopoldinense, papai arranjou um carro emprestado e saiu comigo rumo a Leopoldina. Desapontamento ocorreu quando ele, ao chegar, ficou sabendo que o internato somente me abrigaria a partir da manhã seguinte. Sereno como sempre lhe foi peculiar, ele comentou “não tenho aqui comigo dinheiro para hotel e refeições, não posso voltar com você para Miraí e tornar a vir amanhã. Não sei o que fazer. Tem sugestão?
 
Demonstrando coragem que eu não sabia possuir, propus-lhe eu dormir na porta do colégio, fazendo da mala o travesseiro e ele, recusando minha proposta, me disse "vamos andar que Deus nos dará a solução".
 
Na Cotegipe, rua principal, nós dois a pé, pequena mala na mão porque o automóvel não tinha tranca, um senhor nos olhou, parou-nos e falou que conhecia papai. Este, surpreso, completou o diálogo, afirmando "eu também conheço o senhor de uma ida a minha casa em Miraí com a família, pois uma de suas filhas, chamada Marisa, era colega em Cataguases da minha filha mais velha, a Maria, que os irmãos chamam Lalá". 
 
Era ! Era o senhor Edmundo Dias da Costa !
 
Tudo esclarecido, fomos almoçar na companhia dele, então proprietário do Hotel Santos.  Comidinha boa, que, aliviados, degustamos com imenso prazer. Papai se foi e eu fiquei como que anestesiado, envergonhado em lar estranho e, “vítima” de agrado maravilhoso de todos, deitei-me assim que houve como.
 
Na manhãzinha seguinte, quando dona Amanda foi me despertar, eu já estava prontinho para ir em direção ao Colégio. Tomei café com leite e pão com manteiga, comi um belo naco de queijo e uma ou duas bananas e o Sr. Edmundo, carregando minha “bagagem”, foi me levar à presença do Monsenhor Guilherme de Oliveira, diretor.
 
A solidariedade da família do Sr. Edmundo Costa, sem dúvida, foi um cartão de visita do que é Leopoldina, onde as pessoas dificilmente se visitam, mas, nos infortúnios, nunca se negam a ajudar e, sentindo necessidade, até mesmo, sem limites, oferecem seus préstimos.
 
Quando, na primeira folga no internato, lhes fiz uma visita, fui obrigado a esperar o almoço. E, depois que agradeci a gentileza e elogiei a qualidade da comida, tive que assumir o compromisso de ir sempre para almoçar, o que fiz várias vezes.
 
Apesar da diferença de idade, nossa convivência sempre foi de fraternidade intensa, de confiança recíproca. Eu já advogava em Leopoldina, quando o Sr. Edmundo, sentindo-se envelhecido e doente, chamou-me, entregou-me seus documentos imobiliários e, dizendo me considerar seu filho, vez que era pai de cinco moças e de nenhum rapaz, me determinou que para as filhas dele eu distribuísse seus bens como eu achasse melhor. Providenciei avaliação justa de tudo, fiz esboço da partilha e entreguei para decisão familiar sem minha interferência.
 
Em algum aniversário meu, ganhei dele uma camisa de tecido, manga comprida, mas por algum motivo eu não a vestira ainda.  Era “Guararapes”, sinônimo de ótima qualidade, cuja representação comercial era exercida por seu “neto” Rodolfo Tavares Tomé. Num casual encontro nosso na esquina da Travessa Pedro II com a Rua Cotegipe, ele me falou, possivelmente depois de algumas pinguinhas que ele tanto apreciava em seus momentos de lazer "não vi você com a camisa!". Brincando, respondi "estou guardando para estrear no seu enterro". Deu-me, na rua, à vista de todos, um chute na bunda, xingou mamãe e se foi sorrindo feliz.
Dias depois, a Neves, uma das filhas, me ligou, dizendo que o Sr. Edmundo estava internado no Hospital (à época inexistia CTI). Fui para lá e, ao chegar, penso que ele, mesmo mal, percebeu quando lhe apertei a mão, beijei-o no rosto e pensei em absoluto silêncio “pelo amor de Deus, não morra agora não, desta vez não !”        
 
Quando ele teve alta e voltou para casa, fui quase que em seguida à casa dele, estreando a camisa. Antes de responder a meu “boa tarde”, ele deu uma gargalhada e disse "ah, seu fdp, pensou que eu ia morrer e agora vem aqui com a camisa”!
 
Fiquei em silêncio, meneando a cabeça negativamente, mas meu semblante desmentia o gesto. Ele, feliz e sorridente, sempre viciado em dizer palavrões, xingou-me docemente e nós rimos bastante !  Por algum tempo continuei a desfrutar abusadamente do prazer de sua amizade e somente eu sei o quanto senti sua morte.
        
Inegavelmente, o senhor Edmundo foi peça importante na montagem de minha vida, com o apoio enorme que aqui me deu juntamente com a esposa dona Amanda e as filhas.
 
Quando vereador tive oportunidade de ver aprovado projeto meu, dando o nome de Edmundo Dias da Costa a rua em Leopoldina, perpetuando, na história do torrão leopoldinense, a existência de um cidadão honestíssimo, trabalhador, progressista, bom amigo, excelente esposo e chefe de família
 
Em 05.02.2012
 
Nelson Vieira Filho -Nelsinho
 
 
 
 
 
 
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