01/09/2020 às 15h21min - Atualizada em 01/09/2020 às 15h21min

BAILE DE DEBUTANTES NO FLUMINENSE

O Fluminense Futebol Clube,conhecido até internacionalmente por causa de seu time de futebol, tinha, como ainda tem, um clube social de muito respeito, com critérios excessivamente rigorosos para a admissão de sócios.
 
Hoje nada sei sobre quem é aceito por sócio, mas, com certeza, à minha época de “carioca”, não se aceitavam negros no seu quadro de associados, qualquer fosse sua condição econômico-financeira. Na “proposta para sócio”era exigida fotografia, para se verificar, prioritariamente, a aparência física, conforme fiquei sabendo posteriormente. 
 
Na faculdade onde eu cursava direito e na agência bancária em que trabalhava, eu sempre ouvia falar de quantos foram “barrados” em suas pretensões de frequentar um dos clubes preferidos damais alta elite carioca. E as razões da recusa, muitas vezes, causavam indignação em quem era recusado e em quem tentava apadrinhá-lo para ingresso.
 
Distraidamente, comentei com um colega de agência, de nome David, que iria fazer, por oferecimento do pai de minha namorada, uma proposta, e o David, no mesmo momento, pediu que eu conseguisse mais um formulário, pois também queria frequentar o clube. Constrangido, consegui o que ele me pediu e as propostas, aminha e a do David, foram protocoladas no mesmo dia e horário.
 
Tenho consciência de que, apesar de universitário de direito e chefe da carteira de descontos da agência Catete do Banco Nacional de Minas Gerais, só fui aceito como sócio no elitista clube do Fluminense, com sede em Laranjeiras, por influência do Sr. Guilherme, inspetor do Banco do Brasil e pai da Guilma Feijoó Soares, então minha namoradinha “firme”e colega de faculdade.
 
O David, cuja figura de nordestino amulatado, com cabelo e bigode malcuidados, foi recusado, certamente porque sua proposta tramitou sem Q.I.,sem uma indicação interessada e eficaz como foi a minha.
 
O David ficou revoltado, queria ir lá perguntar em que eu era melhor do que ele, mas acabou desistindo da empreitada em que, provavelmente, ele iria se aborrecer mais ainda. E, àquela época, não havia ações judiciais como hoje, em que, pelo menos na teoria, tudo se discute aprofundadamente, ainda que sem resultados.
 
De princípio, eu só ia ao Fluminense em fins de semana, quando a Guilma me pegava em casa no seu carrinho esportivo Karmann-ghia, todo cheio de frescuras, e nós íamos juntos. Pouco a pouco, fui perdendo o temor de me enfiar no meio daquele pessoal apavonado e, vez ou outra, lá aparecia sozinho, mas ficava só nisto, nunca tentando levar alguém comigo ou apresentar candidato.
 
De uma feita, e nem sei o porquê, fui sem a Guilma a um baile de debutantes, sabidamente um dos mais chiques que à época ocorriam no Rio de Janeiro.
 
A cada contradança eu tirava damas diferentes, vez que ali estava para dançar. Não me passava, porém, despercebido que, em mesa de frente para a pista, uma linda mocinha, muito bem trajada, de sorriso simpático e aparentemente puro, me olhava vigorosamente. Resolvi ir chamá-la para dançar. Quando cheguei, ela, ao invés de se levantar, convidou-me para assentar. Meio sem graça, já que ela estava acompanhada de um casal mais idoso, aceitei-lhe o convite. Apresentamo-nos e, quando eu a convidei para dançar, ela me disse “não posso, sou paraplégica de nascença”.
 
O inicial choque durou fração de segundos, pois eu lhe disse: “tudo bem, concorda de ficarmos aqui conversando durante o baile”?
 
E assim fiquei com ela, esquecendo-me de que salão de baile para mim sempre foi local para se dançar. 
 
Nunca mais nos vimos.
 
Em 20.05.2014.
Nelsinho
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