09/09/2020 às 10h25min - Atualizada em 09/09/2020 às 10h25min

FLÁVIO MENDES MARTINS

Nelson Vieira Filho
Na Zona da Mata mineira, num pequeno imóvel rural entre o distrito miraiense de São Sebastião da Vargem Alegre e Guiricema, vivia Flávio Mendes Martins.

Desde o alvorecer e até quando a lua já estava alta, ali labutava como carvoeiro. Com o produto de seu suor diário, Flávio, a duras penas, sustentava a si mesmo, à dedicada esposa e à numerosa prole.

Aos sábados, após trabalhar bastante, banhava-se na generosa bica que lhe servia de chuveiro, aprontava-se e, depois de saber da esposa o que estava a faltar na dispensa, Flávio, que por ser analfabeto não tinha como anotar o que lhe havia sido dito, traçava mentalmente o que faria no comércio não muito distante de sua morada.

Honesto ao extremo, trabalhador incansável, vivia com a família e para a família. Nunca se animara sequer a experimentar bebida alcoólica, eis que era convictamente 100% abstêmio.

O único luxo a que se dava era fumar um cigarrinho de palha, feito por ele mesmo ou pela patroa, usando artesanal fumo de rolo confeccionado com folhas ali cultivadas na generosa e bem cuidada horta do imóvel, onde abundavam legumes e hortaliças, base da alimentação familiar.

Num sábado que se foi há décadas, Flávio arreou o Manolo, seu cavalo alazão, e foi às compras no local de sempre, onde se vendiam secos & molhados e também aonde chegavam para se deleitar com exageradas talagadas de pinga os cachaceiros locais.

Flávio fez suas compras, repassou mentalmente o rol confeccionado com a prestimosa ajuda da mulher e foi ao caixa fazer o pagamento.

Eis que um cidadão se achegou a ele e lhe ofereceu uma dose da “branquinha”. Flávio se limitou a agradecer educadamente e apresentou sua justificativa: “não bebo nada que contenha álcool”.

O cidadão, que possivelmente já ingerira mais álcool que seu organismo poderia absorver, foi extremamente grosseiro e, ao mesmo tempo em que jogava cachaça no rosto de Flávio, vociferava sempre saber que viado não toma “umas e outras”.

Flávio, baixinho e franzino, não reagiu fisicamente, optando por se retirar em sepulcral silêncio. Foi até sua casa, deixou as compras, pegou a modesta arma de fogo que adquirira para a eventual necessidade de defesa familiar e voltou celeremente de seu sítio.

Ciente e consciente de como realizaria seu intento, Flávio não adentrou o recinto. Pitando um cigarrinho, serenamente postou-se do lado de fora, ajeitando-se comodamente numa enorme pedra que servia de assento para muita gente.

Quando seu atrevido agressor verbal saiu do comércio, Flávio se levantou, chamou-o e, vendo-o de frente, nele desferiu um único tiro, matando-o na hora.

Flávio montou de novo no Manolo e, sem temor, achando que havia feito o que devia, retornou a sua casa.

Dizendo somente à mulher aonde iria para se esconder, ficou em local distante, tido e havido como refúgio preferencial de assassinos, conforme narrado por Guimarães Rosa em seu magistral romance Grande Sertão: Veredas.

Quando soube que seu ato de defesa moral, que juridicamente se classifica como legítima defesa da honra, já era arquivo na polícia, voltou ao lar.

Tudo indicava que Flávio teria vida tranquila, voltado apenas para a família e o trabalho, eis que surge um fato novo, gerador de atitude inusitada.

Quando se retirara do imóvel para tarefas que assim exigiam, soube que um audacioso vizinho se aproveitara de sua ausência e lhe roubara boa parte dos poucos pertences que havia em sua casa.

Como um galinho garnisé que vai sem temor ao encontro de qualquer opositor, Flávio não pensou duas vezes.

Ele era inculto, mas de soberana inteligência, capaz de arquitetar com rapidez supersônica uma estratégia para primeiro fazer sofrer o vizinho que se excedera em atrevimento, entrando sorrateiramente em sua casa e lhe desfalcado o modesto patrimônio.

Compulsória ou voluntariamente, um filho, comparsa indispensável para o sucesso do projeto vingativo, foi com ele à caça do gatuno.

Imobilizado, o gatuno, pouco a pouco, passou a pagar doloridamente seu ato de invasor de residência alheia, pois lhe foram arrancadas, uma a uma, pedacinhos por pedacinhos, as peles de seu corpo.

Só aí, sem perdão, Flávio desferiu no ladrãozinho uma mortal facada.

Com seu filho, retirou-se do local com pensamento de que dera à saga o mais conveniente final feliz.

Questionado por que não se limitara a pegar de volta o que lhe havia sido furtado e dado boas porradas no gatuno, Flávio resumiu que, como fizera, acabara o risco de ver novamente surrupiado o que comprara com tanto sacrifício.

Nada lhe ocorreu criminalmente, fato aparentemente corriqueiro à época.

Flávio faleceu com quase 90 (noventa) anos, engrandecido por haver feito com as mãos o que a Justiça comum não faria diante de tais ocorrências.

E lá se foi desse mundo cruel mais um homem inquestionavelmente macho, para quem ver-lhe jogada injustamente a pecha de viado era intolerável ofensa e justíssimo motivo para a eliminação do falastrão.

Flávio foi exemplo de trabalho e dignidade, qualidades que transmitiu à sua numerosa prole.

Se se colherem informações sobre possíveis outras aventuras suas, Flávio Mendes Martins, franzino e baixinho, poderia ser protagonista de um laureado romance a ser escrito e que poderia receber, na capa a ser ornada com uma foto sua, o identificador título de                            
FLAVINHO, o grandioso justiceiro.

Em  08.09.20

Nelsinho
 
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