26/09/2020 às 14h03min - Atualizada em 26/09/2020 às 13h42min

Extremismo em Leopoldina!?

Paulo Lucio Carteirinho
 Um outdoor contra o presidente Bolsonaro tá dando o que falar em Leopoldina. É o assunto mais comentando nas redes sociais. Com direito a campanha de boicote e até mesmo ameaças. Isso mesmo, ameaças.  Para que o leitor possa entender melhor essa polêmica, é preciso contextualizar.

Tudo começou quando defensores de Bolsonaro  resolveram fazer um outdoor a favor do presidente. Contendo a frase de campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. “Democracia começa respeitando o resultado das urnas”. “Supremo é o povo”. “#Fechado com Bolsonaro”.

A colocação desse outdoor em pleno período eleitoral foi visto por alguns como estratégia política. Talvez quem o colocou não tinha essa intenção, mas em período de eleição tudo é interpretado de forma política. Talvez se tivese colocado fora do período eleitoral não causaria tanta polêmica. Mas em período eleitoral foi interpretado como nacionalização da campanha municipal. Usando  o presidente Bolsonaro  como cabo eleitoral.
 
O PT fez e faz muito disso. Sempre nas campanhas municipais utiliza a imagem do Lula. É comum encontrar no material de campanha do PT fotos, camisas, faixas, bandeiras algo relacionado ao Lula.  Pelo visto vão copiar esse ideia e irão fazer o mesmo com Bolsonaro. 

Interpretando o outdoor como manobra política, opositores ao governo Bolsonaro, de forma democrática, resolveram também fazer um outdoor. Sendo um contra o presidente. O qual foi colocado na Avenida Acácio Serpa, no terreno do posto de gasolina.
 
Esse outdoor era uma resposta ao outdoor dos defensores de Bolsonaro. Enquanto o outdoor pró-bolsonaro destacava a vitória a nível nacional, o outdoor contra Bolsonaro  destaca o resultado da eleição presidencial em Leopoldina.  Onde Bolsonaro perdeu para Haddad em Leopoldina.  Haddad obteve 14.278 (52,78%) enquanto Bolsonaro  12.774 (47,22%). De forma irônica deram o recado a quem acha que usar a imagem do presidente no período eleitoral uma boa ideia. Talvez seja em outros lugares,  em Leopoldina não.

Além do resultado da eleição, o outdoor trazia outros números. Esses mais polêmicos ainda.  Como os R$ 89 mil que Michele  Bolsonaro, esposa de Bolsonaro, recebeu do ex-assessor de Bolsonaro, Fabrício Queiroz. Citava também o número de 130 mil mortes pelo Covid no Brasil.  Além dos números tinha a frase : “Essa culpa eu não carrego”. Além do: “Fora Bolsonaro”.

Tal outdoor irritou os bolsonaristas, que imediatamente foram às redes sociais, onde os debates começaram. Mas o assunto não ficou só nas redes sociais. Alguns defensores do presidente foram além, chegaram a fazer uma campanha de boicote ao posto de gasolina onde o outdoor foi colocado. Como se o dono do estabelecimento tivesse alguma culpa. O mesmo só aluga o outdoor. Não compete a ele definir o que pode ou não colocar.  A lei do consumidor é muito clara nesse ponto. Garantindo ao consumidor a garantia do serviço. A não realização do serviço pode trazer problemas para o comerciante que se recusar a prestar serviço por questões políticas, religiosas... .
 
Sobre o boicote, é  uma incoerência. Afinal, Bolsonaro foi eleito com  a agenda pró-mercado. Defesa da liberdade econômica. Do livre comércio. Da iniciativa privada. Ao propor o boicote, bolsonaristas  foram contra tudo aquilo que pregam. No outdoor deles está escrito: “Democracia começa respeitando o resultado das urnas”. Nesse ponto eu concordo com eles, mas  vou além: democracia vai além do resultado das urnas, ela começa quando um respeita a opinião  do outro. Não precisa concordar, mas respeitar. 
 
Tem uma frase que eu gosto muito: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Se não bastasse o boicote,  parece que teve também ameças.  Tanto de processos, quanto até mesmo atentando.  Isso é o que comentam na cidade. Sobre essas ameaças não sei se de fato ocorreram, mas eu não duvido. Até porque, venho notando que ameaças estão acontecendo com freqüência em Leopoldina.

Falo isso por experiência própria. Meses atrás eu fui ameaçado. Tudo por causa de uma publicação que fiz no facebook. Bolsonaristas não gostaram e vieram me atacar. Sendo um ataque virtual. Onde  vários bolsonaristas vieram na minha publicação e página ao mesmo tempo. De forma bem organizada.

Achei aquilo muito estranho. Afinal, os perfis que participaram desse ataque eram todos desconhecidos. Não faziam parte da minha lista de amigos ou eram amigos dos meus amigos.  Sequer eram de Leopoldina ou região. Tinha gente de tudo que é lado. De outros  estados. Principalmente, Rio de Janeiro.

Analisando alguns perfis,   percebi que muitos não tinham informações. Como por exemplo, fotos. Ou seja, eram perfis falsos. Fakes. Criados justamente para atacar pessoas  utilizando do anonimato. O que mais chamou minha atenção foi como eles chegaram até mim. Afinal, o facebook têm bilhões de contas mundo a fora. Como do nada várias pessoas vão na minha página ao mesmo tempo? 

A resposta é simples. Gente de Leopoldina, que defende o presidente, viu  a postagem e passou o link para outras pessoas.  Os quais  convocaram sua militância virtual para irem até a minha publicação me atacar.  Inclusive, vi isso  nos comentários de alguns deles, onde  marcavam outras pessoas, de modo que elas participassem do ataque. 
 
Como lido com política faz tempo, conheço esse tipo de tática. Assim que percebi o ataque, mudei a configuração do meu perfil, de modo permitir que somente amigos meus possam comentar. Dessa forma, cessei o ataque.

Mas até eu mudar a configuração eles foram comentando. Eram muitos comentários. Sem parar. Um ataque bem oquestrado. Quase todos comentários ofensivos:  petralha, esquerdopata,  imbecil, boiola, babaca... Alguns contendo ameaça.




 

Todos que participaram desse ataque fazem parte das Milícias Digitais. Grupos extremistas que atuam nas redes sociais. Eles têm como missão atacar pessoas. Utilizando   ofensas e ameaças. De forma intimidar. Fazendo com que a pessoa apague a publicação que fez ou até mesmo retirar sua página do ar.

As Milícias Digitais ganharam notoriedade após atos antidemocráticos contra STF e o Congresso. Atos que foram combatidos. Investigações da justiça e Polícia Federal  conseguiram identificar alguns desses grupos. Chegou prender alguns membros. Inclusive estão presos até hoje. O Congresso por sua vez   criou uma CPI a qual investiga quem financia esses grupos.  

Eu sempre soube da existência das Milícias  Digitais. Agora, jamais imaginei que teria gente de Leopoldina envolvido nelas. Só percebi  isso depois que fui vítima desses grupos.  Tem gente de Leopoldina infiltradas nas redes sociais, analisando  publicações e repassando para  grupos das Milícias Digitais. Cada dia que passa fica mais fácil perceber isso. Já que esses grupos estão atuando na cidade.

Não é novidade que tem pessoas desse nível em Leopoldina.  Esses perderam a vergonha. Fazem questão de mostrar seu ódio e intolerância. Tornando isso público.  Lembro de um comentário que uma pessoa fez no facebok após saber que durante um bloco de carnaval teve um um coro contra o presidente Bolsonaro. Essa  pessoa chegou a falar que seria capaz de fazer um  atentado. . “Pegar um trabuco” e fazer muito sangue rolar. 

Imagine a cena. Em pleno carnaval, um bloco cheio de crianças e familiares, uma pessoa chega com um "trabuco" e começa a atirar. Olha a que ponto chegamos! Leopoldina, uma cidade do interior, até então pacata, está se transformando em palco de guerra. Se continuar desse jeito, não demora muito essas  ameaças,  que até então estão sendo feitas   virtualmente, começarão se colocadas em prática. Como agressões físicas, atentados e até mesmo mortes.

Precisamos impedir que isso cresça na cidade. O ovo da serpente está sendo chocado. Se nada for feito, em breve veremos cenas lamentáveis. Pessoas sendo atacadas por pensarem diferente. Por serem negras, gays, de religiões afro. Porque fez uma publicação no facebook ou porque permitiu a colocação de um outdoor. Porque fizeram uma publicação no facebook e não agradou ou porque permitiu a colocação de um outdoor. 

O extremismo por aqui está mais visível que qualquer outdoor. 
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