06/10/2020 às 08h30min - Atualizada em 06/10/2020 às 08h30min

OS CÃES E NÓS

Nunca, durante a maior parte da minha vida, imaginei que um dia eu choraria por causa de uma doença e/ou morte de um cão.

Quando criança eu tinha um terrível medo de cães, os evitava temendo agressões, até porque nunca tivemos animais de estimação na casa dos meus pais, fator que, certamente, contribuiu para minha total falta de empatia com cães, gatos & cia.

Já adulto, não mais temia cães, porém respeitava seus espaços e suas individualidades; não houve “aproximação” e a falta de empatia ainda continuava presente no meu viver.

Há pessoas tão “apaixonadas” pelos seus pets que entendem que todas as demais pessoas devem amá-los, afagá-los e curti-los da mesma forma que elas... sem restrições e/ou limites.

Certa feita, lá pelos anos de 1970, no Bar do Onalde, lá em Leopoldina, estava a Turma da Galomba a papear e bebericar umas “brahmas”; Serginho do Rock ao violão animando o encontro; e dentre outros presentes, estava o Clóvis com seu inseparável cãozinho no colo.

Tão logo assentei numa cadeira, Clóvis, do outro lado da mesa e sabendo da minha não “empatia canina”, levanta-se e chega com seu amiguinho próximo do meu rosto e o induz a lamber-me a face; afasto meu rosto e, brincando, digo para o Clóvis:

- Clóvis, você sabe que de cachorro, eu só gosto mesmo é de um bom cachorro quente.

Em resposta à minha recusa, Clóvis descarrega:

- Você é um merda!  Sempre foi babaca!  Não gosta de cachorro!  Etc., etc., etc...

Sim, Clóvis era um “daqueles”!

Tempo passa; caso-me; crio filhos; aos 8 anos de idade, minha filha Juliana expressa desejo de ter um cãozinho; não me opus; alertei-a sobre as responsabilidades e cuidados inerentes à criação e trato; ela ponderou... creio; e só veio a assumir guarda e responsabilidade “canina” já adulta, em Ribeirão Preto.

2002 – Juliana trouxe para nossa convivência a adorável DRICA, cocker, pelagem preta, amorosa, dócil, curiosa, dengosa, aconchegava-se num colo como se um bebê fosse – principalmente se fosse o colo da Juliana - Drica conseguiu, fácil e docemente cativar-me, trazendo-me um novo, diferente e intenso sentimento: O SINCERO AFETO CANINO.

Drica gostava das caminhadas diárias; quando via um pássaro pousado no chão, caçadora por instinto, agachava-se e, pé ante pé, ia se aproximando da ave para tentar uma captura; pulava e algumas vezes conseguiria se não fosse limitada pela coleira; “esnobe” como ela só, não dava confiança para outros cães e cadelas; passava por eles de “orelhas em pé”; tenho quase certeza de que ela se imaginava uma verdadeira princesinha canina... E, PARA NÓS, ERA!
 
2004 – Quem chega para compor nossa família?...  Yago! Cocker caramelo, sempre com fome, agitado, foi matriculado numa escolinha para cães e o adestramento durante alguns meses foi uma excelente “formatura”, com respostas a diversos comandos; menos agito; mais vivacidade; amoroso, porém “limitado”, não ficava no colo mais do que 40 segundos; não era “caçador”; e seu leve e gracioso caminhar era como se caminhasse sobre nuvens.

Passam-se os anos; os cães enriquecendo nossas vidas afetivas; nós a eles retribuindo todo o afeto e alegria que trouxeram paras nossas vidas, até que...

21/09/2017 – Nossa princesinha partiu naquele dia, levando consigo como sua bagagem o nosso “amor humano”, deixando-nos seu “afeto canino”, além de intensa saudade... e CHORAMOS.

Dois dias depois da morte da Drica mudamo-nos de residência; a ausência dela “mexeu” com todos nós; e o Yago, sentindo a ausência, ficou meio arredio por algum tempo.

Readaptado ao novo lar, sempre que Yago passava ou chegava perto de algum objeto em que tivesse o cheiro dela, ele, de imediato, começava a cheirar e, com o focinho, começava a empurrá-lo como que se quisesse reservá-lo ou guardá-lo para si.

2020 – Em junho último Yago completou 16 anos de vida... junto conosco, sendo que tal idade, para cães, representa para o ser humano uma idade superior aos 90 anos;claro que com todos os “ônus e bônus” que a longevidade proporciona, e com ele, não foi nem seria diferente.

06/julho/2020 – Hoje e agora estou a escrever este texto no sentido de extravasar a perspectiva do sentimento de perda que surgiu após nosso companheirinho, com sérios sintomas de debilidade renal, ter que ser internado numa clínica veterinária para tratamento.

Claro que pela sua idade os riscos de morte são maiores; nós, seus familiares, temos ciência de tal situação, a qual deságua no afloramento do sentimento de perda... e CHORAMOS.

Toda e qualquer separação – amigável ou não – deixa “resíduos”e para com o Yago, em ele partindo, não será diferente e a ele irradiaremos nosso AFETO HUMANO, pois dele recebemos durante todo o tempo de nossas vidas “em família”o seu AFETO CANINO.

Enfim, tudo no plano físico tem seu ciclo que, tão logo cumprido, inicia-se algo novo, um novo ciclo, porém alicerçado nos resultados positivos e/ou negativos daqueles que findaram e nos proporcionaram – ou não - novas, proveitosas e importantes vivências.

Em resumo, reconheço que as convivências com a Drica e com o Yago foram extremamente benéficas para TODOS NÓS, FAMILIARES... CÃES e HUMANOS.

Após as vivências com os companheirinhos entendi, ainda que tardiamente, que o assédio dos cães, que eu tanto temia, nem sempre visariam ataque e, sim,talvez, até um “convite” para uma “troca” de AFETOS CANINO e HUMANO com os seres que eles conseguem cheirar como capazes de tal ato recíproco.

Assim foi.  É o que vivenciamos. A eles, agradecemos... INTENSAS SAUDADES, deles teremos.

Edson, Julina, Eduardo e Juliana, em 06/07/2020

Diário do Yago:

08/07/2020 – Yago internado apresentou melhora, porém a debilidade renal passou a afetar as habilidades motora e fisiológica, por isso a médica recomendou que o trouxéssemos para casa a fim de, JUNTOS, vivenciarmos nossos derradeiros momentos em família.

09/07/2020 – Após uma noite insone acompanhando Yago na insistente vontade dele em levantar-se, caminhar – ainda tropegamente – pelos cômodos da sua casa, beber água, alimentar-se, abanar o rabo, buscar contato conosco, neste dia ele apresenta um comportamento 60% caninamente melhor, apesar de termos ciência de que seu “turno” terrestre se encerrará muito em breve.

10/07/2020 – O estado do Yago se agravou entre ontem à noite e hoje; olhar “distante”; deitado; medicado e alimentado, o organismo não aceitou e “devolveu”; a insuficiência renal agravou; continua prostrado; sem ação; está sendo derrotado pela falência renal; a partir de agora intensificaremos nossas irradiações de AMOR para com ele e torcer para que seus sofrimento e “passagem” sejam curtos, breves e indolores.

11/07/2020 – Hoje, às 5 horas da manhã, Juliana chegou aqui em casa vindo visitar Yago, e, tão logo se aproximou dele, iniciando os costumeiros afagos, o companheirinho a reconheceu e retribuiu os afagos com latidos, pequenos uivos, além de um abanar da cauda, que, se com um pouco mais de intensidade, ele teria se transformado num heliCÃOptero... e voaria de tanta alegria e felicidade que o reencontro lhe proporcionou.

O dia correu normal; as atenções e cuidados continuaram a ser prestados com todo o AFETO que ele bem merece; e, apesar de semiconsciente, temos a certeza de que ele percebia, recebia e agradecia tais manifestações de CARINHO, RESPEITO e AFETO HUMANO, e nós, temos a certeza de que ele nos retribuía com o seu AFETO CANINO.

À noite Eduardo preparou e estávamos saboreando uma “vaca atolada”, deliciosa, quando Yago, comilão – ou gourmet canino? - como sempre foi e sentindo o perfume da iguaria no ar, começa a gemer como que pedindo para participar do “banquete”, ao que Juliana, percebendo, põe mandioca e carne num pratinho; amassa; faz uma papa; e, colherada a colherada, Yago comeu tudo; pediu mais, até se fartar... seria aquela a sua última refeição, claro que temperada com AMOR, RESPEITO, CARINHO, DEDICAÇÃO e FELICIDADE pelo tempo e a importância dele para conosco. 

12/07/2020 -  Diariamente Yago tomava seu banho de sol no quarto do Eduardo; hoje não foi diferente, tendo Juliana deslizado sua caminha para perto da janela. Durante todos esses dias eu destinava momentos para escovar sua pelagem e hoje, escovando-a à luz do sol, percebi o brilho que dela reluzia refletindo a luz solar... pelagem linda, luzidia, traduzindo saúde e bons tratos que, se não houvesse crise renal, certamente prolongaria a saudável vida dele.

Ah!... Sim, ao aproximar-me para iniciar a escovação, ganhei sinalizador de chegada, quando Yago abanou seu rabo num sinal de reconhecimento, alegria e BOAS VINDAS”.

Passa o dia, todos nós, Eduardo, Julina, Juliana e eu, cientes do agravamento do estado dele, dispensamos nossas atenções, cuidados e presenças durante todo o tempo, já sabendo que os momentos – físicos - dele conosco e nós com ele, estavam próximos do fim.

Em respeito ao animal e visando minimizar sofrimento na sua “passagem”, decidimos que  nosso amiguinho, Yago, deveria ser sacrificado... e, mais uma vez, CHORAMOS.

12/julho/2020 –

17:40 – CHORANDO, despedimo-nos do Yago; Juliana e Eduardo, carregando o Yago, dirigem-se à clínica veterinária para os procedimentos finais.

18:15 – Yago é sedado... e faz a sua “passagem” para o céu canino.

Ao Yago,

Vai-se o cão e ficam-nos seus amorosos 16 anos conosco.

A ele somos eternamente gratos pela sua companhia.

Com ele convivendo, RIMOS E BRINCAMOS.

Ele, partindo, TRISTES, CHORAMOS.

Sem ele, físico, falta SENTIMOS.

No futuro, em outros planos, nos REVEREMOS.

A D E U S ! ! !
Edson, Julina, Eduardo e Juliana, em 12/julho/2020.
 
 
 
 
 
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