16/11/2020 às 17h06min - Atualizada em 16/11/2020 às 17h06min

Educar é levar as crianças para conhecer o mar

Dora Stephan (*)
Seria redundância dizer que vivemos tempos difíceis e desafiantes, especialmente para a Educação, devido à pandemia do Coronavírus. Em que pese sobre isso, para além de vivermos em tempos pandêmicos, vivemos em tempos de um governo pouco -ou nada- auspicioso para com a Educação e com a Ciência. Apenas para situar o leitor, basta dizer que na semana que antecedeu as eleições  assistimos e/ou lemos via mídias e redes sociais nada mais nada menos do que o nosso mandante-mor tramar, em sua “Pátria Amada”,  contra a vacina para conter essa doença que tanto nos assusta e nos imobiliza. Para quem não “pescou” do que estamos tratando, sugiro que retomem os noticiários da referida semana.

Professores e gestores escolares, desde o início da pandemia – iniciada mais precisamente em março deste ano – passaram a defrontar-se em seus cotidianos com uma série de novidades. O quadro negro, objeto tão familiar no ambiente escolar, passou a ser substituído, literalmente, pela tela do computador, instrumento nem tão familiar assim para parte expressiva dos educadores. O Ensino Remoto afetou tudo, tudo mesmo, até nosso vocabulário: atividades síncronas, atividades assíncronas, lives, plataforma Teams, Google Meet, Google Forms, Zoom etc. etc. etc.

Nossos alunos, os quais são nossa principal motivação, passaram a ser vistos em pequenas fotos – ou, às vezes, nem isso. Com muita sorte, de vez em quando, um deles abre sua câmera, nos brindando com sua participação. Mas, via de regra, temos a impressão de estarmos falando para as paredes. Uma fala sem eco, sem retorno, sem feed-back. O aspecto interativo do processo ensino-aprendizagem deixa muito a desejar.

Diante desse novo cenário, quase sempre frívolo, diuturnamente somos instados a refletir sobre o nosso papel e sobre os resultados de nosso trabalho. Isso, com certeza, gera em nós uma certa angústia, uma sensação de desolamento. Não raro, ouvimos falar de professores que ficam ansiosos, deprimidos ou mesmo desgostosos com a profissão. Nos momentos de maior dificuldade, falam até em larga-la e fazer outra coisa da vida.

Soma-se a isso tudo a baixa remuneração, o parcelamento de salários, os atrasos salariais, a retração nos planos de carreira, dentre outras questões que nos abalam frequentemente e que independem de nós, atingindo tanto a rede pública quanto a particular de ensino.  Então é de se perguntar como resistir a tantas adversidades e, mesmo assim, persistir?

O alento pode vir de uma bela história contada pela professora Sonia Miranda, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, que durante um evento realizado pela Universidade do Estado de Minas Gerais, referiu-se a um educador espanhol, Antoni Benaiges, o qual ensinava alunos de  uma pequena aldeia no interior da região de Burgos. Ele propunha um método de ensino revolucionário para a época, a Pedagogia Frenet, que consistia em promover uma maior participação dos alunos.

O sonho de seus alunos era conhecer o mar. E ele alimentava esse sonho, incentivando-os a persegui-lo. A história não teve final feliz, posto que Benaiges foi professor no contexto da guerra civil espanhola, em que o fascismo via na educação um inimigo a ser extirpado. E assim foi feito no final da década de 1930 naquele país, época em que o mundo estava mergulhado na Segunda Guerra Mundial. O sonho do educador de fazer com que os alunos conhecessem o mar foi ceifado de forma brutal. Mas seu legado permaneceu na mente de seus alunos e, mais tarde, deu origem ao livro Antonio Benaiges: el maestro que proemétioel mar, de autoria de Francesc Escribano, publicado em 2016.

Com raríssimas exceções em nosso país, a Educação e a Ciência vêm sendo alvo de ataques por parte dos governos federal e estaduais, os quais promovem cortes, contingenciamentos nas verbas para estas áreas. Teimosos que somos, em vez de desistirmos, resistimos. Mesmo com o mar revolto, não desistimos de levar nossas crianças para conhecerem o mar. E como timoneiros comprometidos, não deixamos o barco afundar!

(*) Jornalista e Professora da UEMG/Unidade Leopoldina
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