17/11/2020 às 07h24min - Atualizada em 17/11/2020 às 06h23min

Agora é com você Pedro!

Paulo Lúcio Carteirinho
 Pedro Augusto foi eleito prefeito de Leopoldina com 8.926 votos (31,30%). Numa virada histórica. Pedro saiu da última posição, como mostravam todas as pesquisas que tive acesso, passando para o primeiro lugar nas urnas.  Antes de dar mais detalhes sobre a vitória de Pedro,  falo sobre o desempenho dos outros candidatos.

Como está na bíblia, “os  últimos serão os primeiros” (Matheus 20:16), dessa forma, começo a falar da campanha da Kélvia, que ficou na última colocação. Kélvia teve 1.950 votos (6,84%).

Desde o começo eu sabia que Kélvia não teria um bom desempenho, mas não achava que ficaria em último. Pra mim ficaria entre penúltimo ou na quarta colocação. Tendo em vista que era a candidata forte, mas  com muita  rejeição. Sendo rejeição tripla:  1- por ser vereadora por dois mandatos  e o cargo de vereador  gera muito desgaste político;  2- por ser  candidata  pelo governo, que chega no final de mandato muito desgastado;  3 – por ser mulher - lembrando que  a política de Leopoldina é  machista e conservadora.
 
Fora outros problemas que Kélvia teve. Como citei em textos anteriores, ela sequer tinha partido. Filiou-se no Partido Progressista (PP) as vésperas do prazo final. Com isso não conseguiu montar um grupo forte. O PP saiu só com 15 candidatos a vereador.  Até fiquei surpreso de ter conseguido feito  um vereador. Eu achava que não conseguiria. Isso só foi possível devido a excelente votação que  Ivan Nogueira teve: 672 votos -  sendo o segundo mais bem votado. É bom ressaltar que as novas regras eleitorais ajudaram. Hoje, um partido que não atinge  o cociente eleitoral consegue disputar as vagas das sobras. Antigamente não. Os partidos eram obrigados atingir o cociente.  Com isso, o PP da Kélvia mesmo não atingindo o cociente eleitoral disputou as vagas das sobras. 

Falando em PP, a escolha pela chapa puro sangue, tendo como vice Thiago Toledo foi outro erro estratégico. Se não bastasse o fato do vice ser  desconhecido  na cidade,  a concentração da chapa  no PP  fez com que os partidos que compunham a coligação ficassem de lado. Com isso, pouco a pouco, as lideranças políticas e candidatos a vereador foram deixando a campanha da Kélvia. Passando a apoiar outros candidatos. Kélvia ficou isolada no seu próprio grupo.

Saindo da Kélvia e indo para o Paixão, esse me surpreendeu. Teve uma votação razoável, 2.239 votos (7,85%). É bom lembrar que os candidatos que ficaram nas últimas posições, não tiveram uma votação melhor devido ao voto útil. Os eleitores perceberam    quem estava  na frente, quem tinha mais chance de ganhar e  com isso deixaram  de votar em  quem estava lá atrás. Dessa forma,  Kelvia, Paixão e Cláudia teriam uma votação muito maior se não fosse o voto útil. 

Além da questão do voto útil,  que atrapalhou muito o Paixão, ele teve diversos problemas na  pré-campanha. Teve que  deixar o partido Solidariedade depois que forças ocultas começaram agir para impedir sua campanha.  Foi para o REDE e não conseguiu montar um grupo forte. Tanto que nem vereador fez. Nem o REDE, nem o PCdoB, partido do seu vice. Falando em vice, a escolha de Ronilson do Ônibus também não foi boa. Ronilson entrou agora na política e já queria sentar na janela.   PCdoB tentou pegar  carona na imagem de Paixão, indo na contramão da esquerda, acabou ficando a pé.

Deixando de lado Paixão, agora é a vez da professora. Cláudia Conte fez uma linda campanha. Pé no chão. Indo nos bairros e conversando com a população. Uma marca do PT. Outra marca do PT é o discurso político. Sempre muito forte. Cláudia foi  destaque nos debates e entrevistas. Mas isso não foi   suficiente para garantir uma votação melhor. Apesar da boa votação, 3.144 votos (11,02%), não  chegou nem perto da  marca de Iolanda Cangussu em 2004, que obteve 3.835 votos. Sendo  até hoje o melhor desempenho do PT nas eleições.

Conforme disse anteriormente, Claúdia teria sido melhor se não fosse o voto útil. Ela perdeu muitos votos para Ricardo da Paf Pax. O qual representava a chapa de centro esquerda. Inclusive com vários ex-petistas. A começar pelo vice, Marco Antônio, que por duas vezes concorreu a vice-prefeito pelo PT.  Em 2008 fazendo dobradinha com Zé Newton e em 2012 com  Marcinho Pimentel. Além de Marco Antônio, Ricardo tinha com ele os ex-vereadores  do PT:  Paulo Celestino e Dr. Almeida. Além de um militante histórico do PT, o Procede, que concorreu a vereador na chapa de Ricardo.  Além de várias outras lideranças da esquerda.  Os votos da esquerda foram  divididos  entre Cláudia, Ricardo e Paixão -  que tinha com ele o PCdoB.

A esquerda de Leopoldina perdeu a melhor oportunidade de ganhar a eleição. Tendo em vista que a direita estava toda  dividida. Com 4 candidatos: Pedro, Brenio, Kélvia e Paixão. Bastava a esquerda se unir:   PT, PCdoB, PSB, PTB, PV e Republicanos; criando o bloco progressista de Leopoldina. Teria muita chance de ganhar. Mas por questão de ego isso não foi possível.  O   que facilitou para a direita. Dificilmente a esquerda terá uma chance como essa. Na próxima o homem (Zé Roberto) ou o filho dele volta. Aí pode juntar esquerda, centro esquerda, centro direita e até mesmo parte da direita que fica difícil ganhar. Até hoje nunca perdeu uma eleição a qual encabeçou.

Falando em chances de vitória, Ricardo foi outro que perdeu a chance de ser prefeito. A campanha desse ano não tinha muito mistério. A tática era simples, polarizar com Brenio, o qual todos sabiam que era o mais forte, fazendo com ele  o confronto:   Nova Política X Velha Política - onde a nova política sempre leva vantagem. Povo quer coisa nova. Renovação. Está cansado da mesmice.

Ricardo e Paixão vinham fazendo muito bem o  papel da nova política, apresentando-se como novidades dessa eleição. Claúdia não conseguia isso devido o PT, que já disputou várias eleições, com isso, passava a imagem que pertencia a velha política. A mesma coisa acontecia com Pedro Augusto, devido o sobrenome Junqueira, que por décadas governou a cidade. Inclusive, não gostava de ser chamado de Pedro Junqueira. Era Pedro Augusto. Dentro do cenário de novidade  Ricardo levava vantagem contra Paixão, devido ser empresário e o discurso empresarial está em alta ultimamente. O que o favorecia, pois o mostrava como uma pessoa bem sucedida. Que sabe administrar seus negócios e que seria capaz de administrar a cidade.  Levando a experiência do setor privado para o setor público.

Tudo isso foi por água abaixo quando Ricardo deixou de ir às entrevistas, encontros e debates. Caindo por terra a imagem de alguém preparado.  Passando a imagem de alguém despreparado. Ele até tentou explicar  sua ausência, mas cada vez que falava piorava a situação. Como por exemplo,  quando tentou  desqualificar os debates dizendo que não foi devido ser palco de  brigas pessoais e ofensas. O que todo mundo sabe que não são. Os debates são fundamentais para a política. Principalmente para os políticos, tendo em vista que permite a eles passar confiança para o povo. Ao desqualificar o debate, Ricardo se desqualificou. Pegou tão mal que ele tentou corrigir, arrumando outra desculpa pelas ausências, dizendo que tinha problemas com exposição em público, com câmeras. Uma espécie de fobia. Essa desculpa não colou. Era melhor não ter falado nada. Ter ficado calado.  Fingindo de morto.

Falando em morto, Ricardo chegou na reta final praticamente morto politicamente. Sua campanha ganhou uma  sobrevida devido uma  pesquisa oficial que foi publicada no site do TSE, a qual mostrava ele em primeiro, seguido de Brenio e Pedro em terceiro.  Essa pesquisa ressuscitou sua campanha, dando a ele um pouco de esperança. Mas já era tarde. Pedro já havia conseguido fazer a polarização com Brenio.

A dúvida que fica nessa eleição é: se  Ricardo tivesse ido nos debates ele teria mais chance de ganhar? Talvez não. Afinal, foram os debates que ajudaram derrotar Brenio, que foi muito mal. Tendo em vista que não apresentava nada de concreto. Evitava  fazer promessas, o que é algo bom, porém  não demonstrava seus planos e ideias. Era  o candidato da dúvida. Sempre falando em dificuldades: leis, orçamento, aprovação pela Câmara, prestação de contas, dependência de  emendas de deputados, devolução de dinheiro por parte da Câmara. Não passou confiança para o eleitor.

Além do mau desempenho nos debates, a não utilização  das redes sociais também ajudaram a derrotá-lo. Brenio não tem facebook e instagran. A turma do marketing até criou uma página da campanha. Mas o fato do candidato não ter um perfil próprio, o qual permitisse dialogar com as pessoas, atrapalhou muito na campanha. Em pleno século 21, um político não usar as redes sociais está pedindo para perder. Ainda mais em plena pandemia, com tudo sendo feito pela internet. Brenio perde uma eleição praticamente ganha.  Perdeu para ele mesmo.  Inclusive, também errou na escolha do vice, fato que falarei mais pra frente.

Falando em redes sociais, a campanha de Pedro deu show nesse quesito. A dele e de Marcos Paixão, comandada pelo Cristiano Fófano. A do Pedro muito mais devido ser o candidato com mais  recursos financeiros, contando com marketing profissional. Com uso de drones e equipamentos de última geração. Com isso,  pouco a pouco Pedro  foi dominando as redes sociais. Fundamentais  na campanha desse ano, devido a pandemia. Uma forma de furar o isolamento causado pelo coronavírus e chegar ao povo. Para ter idéia do desempenho  de  Pedro nas redes sociais, ele  que começou a campanha com cerca de 600 seguidores, terminou com 6.294, ou seja, 10 x mais.

Com exceção de Brenio, todos outros candidatos utilizaram bem as redes socais. Principalmente Kélvia. A mais atuante. Seguida de Paixão. Mas a equipe de Pedro sabia utilizar melhor as redes sociais. Mostrando o ator principal da eleição: o povo! Enquanto os concorrentes faziam publicações pessoais, mostrando a si, prédios e  lugares históricos,  clipes  que mais  pareciam voltados para festivais de música do que uma campanha política, alguns  mostrando  personagens de fora, como prefeito de Colatina ES, ex-presidente do Flamengo (RJ), empresários de Mirai, Pedro focava publicações mostrando pessoas da cidade:  empresários e populares. Pedro aparecia muito pouco.

Desde a pré-campanha Pedro vinha fazendo isso. Misturando-se com o povão. Enquanto seus concorrentes estavam preocupados com a burocracia política, tentando arrumar candidato a vereador, apoio de deputados e senadores visando obter mais partidos, apoio de lideranças políticas da cidade.   Pedro ia onde o povo estava.. Participando de cultos evangélicos, bares, partidas  de futebol, visita nos  bairros. Lembro da vez que ele foi no encontro “Saber com Sabor”,  o qual eu participo. Foi o único candidato a ir às nossas reuniões.
 
Pedro participava de tudo. Mesmo assim não conseguia chegar ao coração das pessoas. Por mais que ele misturasse com o povo, todo mundo sabia que ele era da Casa Grande. O que criava uma certa resistência ao nome dele. Foi então que começou a falar aquilo que o povo queria ouvir. Auxiliado pela sua esposa Márcia, assume um compromisso de campanha que pra mim lhe deu a vitória.

Os 22 compromissos assinados no cartório foram um trunfo de campanha. Em especial o de doar  os salários dos 4 anos como prefeito a  instituições. Pedro adotou a mesma tática que deu a Zema a vitória em Minas Gerais.

Inclusive, deixando de usar o polêmico fundo eleitoral,  muito criticado pela população. Pedro e Brenio foram os únicos candidatos a fazer campanha 100% privada, contanto com recursos próprios e doações privadas. Não teve um centavo de dinheiro público. Diferente dos demais candidatos, onde  alguns tiveram  100% da campanha financiada pelo fundo eleitoral.

Outro divisor de águas foi o compromisso em  fornecer plano de saúde aos funcionários da prefeitura. Com isso, Pedro passa a ser bem visto pelos funcionários. Funcionalismo público costuma ser decisivo nas eleições.

Como podem ver, Pedro saiu atirando para tudo que é lado. Acertando em cheio nos alvos.  Esses compromissos de campanha o fizeram sair de último para as primeiras colocações. A chegada de Pedro na disputa acabou com a campanha do Ricardo, que nesse momento já não polarizava mais com Brenio. Pedro passou a polarizar. Com isso passou a conseguir apoio do grupo do Zé Roberto.

Todo mundo sabe que Zé Roberto tem alguns desafetos na política. Um deles é Brenio, o qual está rompido desde o mandato de 2012. Para piorar, Brenio teve como vice Jacques Vilela, outro desafeto de Zé Roberto, com o qual na última eleição teve  uma briga feia, com direito a boletim de ocorrência na polícia. Por isso acho que Brenio errou na escolha do seu vice. Era para ter colocado um nome que permitisse um elo com o grupo do Zé Roberto, de forma atrair alguns votos.

Era nítido e notório que Zé Roberto não queria que Brenio e Jacques ganhassem.  Além deles, Zé Roberto também não queria que  Marco Antônio, vice do Ricardo,  outro desafeto político,  ganhasse. Dessa forma, acho que Ricardo também escolheu mal seu vice. Não analisou um possível apoio com Zé Roberto.  Os desafetos políticos  fizeram com que Zé Roberto entrasse na disputa. Não de forma direta, mas indireta. Sem precisar falar um “A”, acabou incentivando o voto útil em Pedro,  que estava no lugar  e na hora certa. Com o grupo do Zé Roberto adotando o voto útil, pouco a pouco a campanha da Kélvia foi esvaziando. O que explica a baixa votação que ela teve.

Esse  cenário garantiu a vitória de Pedro, que na campanha falou muito em sonho. Analisando a forma que ele fez campanha, com muita vontade em querer ganhar,   acho que o sonho de Pedro era ser prefeito  de Leopoldina um dia. Única coisa capaz de explicar o fato de uma pessoa gastar R$ 100 mil na campanha e querer trabalhar de graça por 4 anos.  

Pois bem, Pedro conseguiu realizar seu sonho. Espero que ele não se torne pesadelo para o povo. Torço para que ele consiga fazer um bom mandato. Não de sonhos, mas de realidade. Mas se for para sonhar, que sonhamos com uma  Leopoldina melhor. Como dizia Raul Seixas: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só,  mas sonho que se sonha junto é uma realidade”.

Agora, é com você Pedro! 



 

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