07/02/2021 às 20h30min - Atualizada em 07/02/2021 às 20h30min

A música que a rádio tocava.

Maria José Baía Meneghite
Final da década de 60, anos de chumbo, tempos assustadores. Terror, toque de recolher, pessoas desaparecidas, sindicalistas perseguidos, relatos estranhos sobre tortura e morte. Tudo era proibido. Músicas censuradas, jovens reprimidos e revoltados.

Vivíamos assim. Nossa cidade embora sofresse os efeitos da ditadura tentava ser fiel à sua vocação de cidade ordeira obedecendo cegamente o protocolo militar imposto a todos. Lembro-me perfeitamente de ter um trabalho censurado no tempo de escola pelo fato de citar Karl Marx. Fui orientada a queimar o que escrevi. Segundo a direção do Ginásio o que escrevi era comprometedor e por isso eu corria perigo. A música de Geraldo Vandré, também censurada era a que mais gostávamos de ouvir e em 1968 ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção. Era proibida sua execução, pois fazia oposição à ditadura militar o que não impediu de tornar-se um hino da resistência do movimento civil e estudantil

Lembro-me também, que certa manhã quando passava com meu irmão em frente a uma papelaria na Rua Cotegipe, ele pediu para pegar uma caixa de papel que estava amontoada a outras maiores. Entretanto havia alguma coisa balançando dentro da caixa. Ele abriu e me entregou um pequeno disco (compacto). Era o disco do Geraldo Vandré que naturalmente foi descartado por não poder ser vendido. Todo mundo queria ter esse disco, mas os militares fizeram confisco geral de livros, discos que atentavam contra o regime militar. Pobre de quem ousasse sair por aí dizendo que tinha o compacto do Geraldo Vandré. Assustada, peguei meu irmão pela mão e fui direto para casa levando a caixa e dentro dela o disco.

Nesta época, tínhamos em casa um equipamento, na verdade uma geringonça que era chamada de rádio clandestina e pegava num raio de apenas 100 m. Foi criada por meu irmão e alguns amigos e eu participava da rádio entre 11 h. e meia noite colocando exatamente as músicas censuradas, entre elas,‘Prá não dizer que não falei das flores ’popularizada como ‘Caminhando’, de Geraldo Vandré. Corríamos perigo com tamanha coragem e sabíamos dos riscos.

Nossa sorte é que estávamos de certa forma protegidos pela ausência da tecnologia da época mas não estávamos livres da denúncia de pessoas. Essas pessoas existiam e sem nenhum escrúpulo entregavam aos militares seus próprios amigos. No entanto, nossa intenção era botar no ar nossa rádio maluca e nossas músicas. Na verdade, Quando se tem 18 ou 20 anos há uma certa facilidade em encarar questões sérias com uma tranqüilidade absurda e às vezes desafiadora. Fico até hoje pensando no que fazíamos e me pergunto se éramos apenas inconseqüentes, revoltados ou corajosos mesmo? Ou seriamos os três?
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