10/10/2014 às 10h51min - Atualizada em 10/10/2014 às 10h51min

Bingo de três fuscas.

Por telefone, o Juiz de Direito Dr. Sérgio Augusto Fortes Braga me disse, sem meias palavras: “Nelsinho, favor me procurar, pois preciso que você me arranje com urgência bastante dinheiro”. No dia seguinte, lá fui eu maquinando no trajeto que quantia me pediria o Dr. Sérgio e como eu lhe dizer de minha incapacidade financeira para prover-lhe a necessidade de “bastante dinheiro” e ainda “com urgência”.

Cheio de dedos, me apresentei no gabinete do Juiz da Segunda Vara. Logo fiquei tranquilo, pois o Dr. Sérgio foi objetivo: “a cadeia pública de Leopoldina não tem cela para acolher mulheres e você vai fazer com o “seu” Lions Clube Omar Peres uma campanha para arrecadar dinheiro suficiente para a obra”. Ali mesmo o Dr. Sérgio autorizou o bingo de 3 fuscas zero km e o Lions Clube “Omar Peres” começou a agir.

 Quem não está dentro da atividade, não consegue imaginar a trabalheira que dá organizar um bingo. Os leões e domadoras do “Omar Peres” se esfalfaram e conseguiram vender as 4.368 cartelas do bingo preenchidas manualmente, uma a uma, usando listagem do matemático Oswald de Souza, então em franca evidência. 

O saldo financeiro foi suficiente para contratar toda a obra com o sempre eficiente Joaquim Pacheco e, como em tudo sob sua batuta, o serviço ficou perfeito. Como que premiando a penosa empreitada, que exigira nossas presenças de porta em porta, em noites seguidas, para vender as cartelas, à cerimônia de inauguração compareceram Juiz, Promotor, Delegado, padre católico, rotarianos, maçons, advogados.

Instantes antes da inauguração oficial, entrei na cela para mostrar salgadinhos e refrigerantes ao Dr. Sérgio e o sempre pândego Dr. José Corradini Gorrado nos trancou dentro dela. Nem imagino quantos minutos lá ficamos, mas o susto despertou-me e no dia seguinte soltei em meu sítio as dezenas de pássaros que eu mantinha aprisionados em um imenso viveiro. Contei minha atitude para o Dr. Sérgio, portador de fama de “Juiz mão pesada” ao julgar casos criminais, e ele me confidenciou: “sempre procurei condenar e doravante vou procurar absolver. Cadeia não é lugar para deter um ser humano”. E agiu assim, até que precocemente Deus o chamou para junto de si.

Usando novamente a mesma listagem e entusiasmados com o know-how adquirido, todos decidimos fazer novo bingo, com o que seria adquirido suporte financeiro para ampliar a tradicional e benemérita campanha da acuidade visual, “menina dos olhos” do Lions Clube Omar Peres.

            Tudo vendido, tudo organizado, surgiu dois dias antes da data uma portaria da Secretaria de Segurança, proibindo bingos e rifas em todo o território de Minas Gerais. Contatei o então vice-governador João Marques, ele me pediu uma semana de prazo para resolver o assunto, mas eu lhe disse que era impossível esperar, pois não havia como avisar os adquirentes das cartelas, muitos de fora de Leopoldina.

            Minutos antes do horário marcado para o início do bingo, ostensivo policiamento lá se postou. Um ou outro até comentava: “que perfeição para organizar um bingo, até policiamento foi providenciado”. Desesperado, inclusive temeroso com a reação das milhares de pessoas que lotavam toda a área do estádio do Ribeiro Junqueira, fui movido por meu anjo da guarda e procurei o Delegado Regional de Polícia, Dr. Ricardo Grimaldo Estides, homem durão, austero, de honestidade sem limites. Expus-lhe a situação e ele, não escondendo tristeza em seu olhar, foi taxativo: “não poderá haver bingo”. Com os olhos marejados, eu, dominado por adrenalina pura, corajosamente lhe disse: “vamos começar o bingo, o senhor chega lá com a polícia e me prende”. Quando fui saindo a passos revoltados, ele me chamou: “Dr. Nelsinho, pode fazer o bingo. Eu assumo os riscos de desobedecer a ordens superiores. Estou agindo assim porque o senhor é um homem de bem”.

            Contagiados pela viva emoção dos ganhadores e de seus familiares e amigos, os leões e domadoras do Lions Clube Leopoldina “Omar Peres” se sentiram premiados pelos sacrifícios despendidos, todos felizes como se cada um tivesse ganhado sozinho o que, à época, era a coqueluche nacional: o prêmio maior da loteria esportiva.

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