06/07/2024 às 09h23min - Atualizada em 06/07/2024 às 09h23min

Tempo e Amizade (Parte II)

Helenice Fonseca
Precisei de um tempo para refletir e transbordar em palavras o meu pesar pela perda de um amigo querido. O tempo é o grande responsável por abrandar e nos distanciar da tristeza e desconsolo que passamos no momento da despedida quando perdemos alguém próximo.  Neste caso, não houve oportunidade de despedida definitiva, eu falei apenas um “tchau” no último contato.... um “tchau” comum, como todos os outros de tantos anos de convívio quase diário. Jamais me passou pela cabeça que aquele seria o último que haveria a resposta!

O amigo Adilson Velasco (foto) gozava de muita saúde e disposição, apesar dos 85 anos incompletos. Vez ou outra chegava no escritório com o braço esfolado por arame farpado e mostrava com certo orgulho os percalços do trabalho no campo. Ele parecia ser meio ranzinza para os menos atentos. Sua maneira de demonstrar afeto era peculiar e fazia parecer que estava brigando conosco o tempo todo. Zangava, ralhava, implicava, dava de ombros e por vezes nos ignorava para nos cobrar alguma atenção. Outras vezes enviava bilhetinhos reclamatórios e malcriados usando palavras e expressões tão formais que era preciso ler 2 ou 3 vezes para tentar decifrar o real motivo do bilhete. Sem contar nos “pitos” que nos passava exigindo “juízo” como fazem os pais, tios, avós...

Mas bastava chegar com um sorriso acanhado que ele baixava o tom, convidava para se sentar ao lado de sua mesa e iniciar a conversa mais cordial do mundo. Uma pessoa incrível que muito me incentivou e me estendeu as mãos em tantos momentos difíceis ou não. Havia nele um coração tão grande e generoso que hoje só tenho gratidão por tudo que ele foi e pela oportunidade de ter convivido com ele por quase 30 anos. Era um amigo de todas as horas, porém muito exigente.

O tempo (pouco mais de 3 meses)  ainda não foi suficiente para eu desligar o reflexo automático de, ao passar em frente ao Cartório,  esquecer por uma fração de segundo que ele se foi e me pego olhando para ver se ele está lá. E se distraio um pouco, me vejo incluindo na rota do dia “uma passadinha no Cartório para dar um oi, antes que ele se estranhe com meu sumiço”. Enfim, estes cuidados que a amizade nos exige e tanto nos faz falta!

Precisei de tempo, tanto para escrever quanto para me recompor em cada parágrafo...Desta vez, escrevi em etapas para contornar as emoções trazidas pelas lembranças. Adilson deixa saudades e ensinamentos. Deixa também um sentimento de profunda gratidão que não haverá tempo capaz de apagar de minha memória afetiva.

A vida é assim, nos exige tempo para consolidar amizades verdadeiras e tempo para apaziguar o coração quando os amigos cumprem a jornada antes de nós! Benditos sejam os amigos.

Helenice Fonseca
01-07-2024
 
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