03/12/2014 às 17h16min - Atualizada em 03/12/2014 às 17h16min

A institucionalização da velhice no Brasil

  Até o final do século XIX, quando surgiram os asilos de velhos no Rio de Janeiro, os idosos brasileiros eram contados junto aos desprivilegiados da época, como é o caso dos mendigos e dos órfãos. Foi somente a partir da fundação dos lares para gerontes e por intermédio da mídia escrita do Rio de Janeiro que os velhos de nossa sociedade passaram a ser vistos de outra forma. As imagens de idosos carentes, tristes e ociosos divulgadas naquele tempo pelos jornais com o objetivo de conclamar os cariocas a darem esmolas especificamente para o Asilo São Luis para a velhice desamparada, o mais famoso na época, acabaram engendrando um falso paradigma da figura dos gerontes. Modelo este que impera até hoje e que descreve os nossos idosos como improdutivos, tristes e dependentes. Além disso, os idosos brasileiros passaram a ser vistos como pessoas que devem ser depositadas em lares de longa permanência como se fossem “máquinas que perderam a funcionalidade”. Irrisória realidade do selvagem capitalismo neoliberal que reina na sociedade brasileira e que vai ganhando força mundo afora. Ainda bem que, pelo menos para tentar frear a brutalidade deste sistema, foi estabelecido o mais democrático documento da história do Brasil: a Constituição Federal de 1988. Ela coloca a responsabilidade principal do cuidado com o idoso para a instituição que não pode desertar esta função: a família. E nisto temos que aclamar também o Estatuto do Idoso, que complementando a carta magna, penaliza aqueles que se acovardam abandonando seus idosos nos asilos como se fossem pesos a serem carregados.

   Mas ainda há muito que ser feito. As leis em defesa dos nossos idosos são lindas em seu conteúdo teórico. Mas nos atemoriza o abismo que existe entre a teoria e a prática. Como especialista em Geriatria e Gerontologia, confesso a minha indignação com o tratamento oferecido aos nossos idosos, principalmente nas repartições públicas de saúde. Como oferecer aos nossos velhos qualidade no atendimento à saúde se não há pessoal especializado o suficiente para atendê-los? Como oferecer acesso à educação aos nossos idosos se existe poucas universidades abertas da terceira idade em nosso país? Se alguém quiser ver se é possível oferecer dignidade e potencialidade aos nossos gerontes, basta ir à UNATI (Universidade Aberta da Terceira Idade) dentro da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e observar os idosos totalmente integrados à era da informática, fazendo aulas de dança e inclusive dando conselhos aos mais jovens, como eu pude receber e aproveitar muito bem para a minha vida.

   Chega de ver os idosos como um problema para a sociedade. Vamos aprender com eles, ampará-los e por eles ser amparados. Os japoneses têm o globo ocular menos exposto que os ocidentais, mas conseguem enxergar os idosos como aquilo que eles realmente são: pessoas que plantaram o bem e precisam colher o que foi plantado com dignidade. Falta colocar o “colírio da ética” nos olhos dos ocidentais para que possam enxergar os idosos como pessoas produtivas que de fato são, não acreditando na visão turva que os faz ver como se fossem escórias da sociedade.      

*Graduado em Fisioterapia; *Pós-graduado em Geriatria e Gerontologia;

*Pós-graduado em Ciências Políticas; *Mestrando em Ciências Políticas.

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