06/02/2015 às 15h15min - Atualizada em 06/02/2015 às 15h15min

Sobre Arte

Muitas vezes, em conversas com amigos também interessados na questão, refletimos e questionamos a arte. Dentro deste mundo tão diversificado, controverso, procurei, entre as muitas coisas que poderiam ser ditas, formular algumas que seriam básicas para a compreensão do fenômeno artístico - fundamental para a expressão humana, desde os primórdios da civilização, como demonstram as pinturas pré-históricas em diversas partes do mundo, e, com muita sensibilidade, nas cavernas de Lascaux na França e Altamira na Espanha.

A tarefa do artista é encontrar uma forma pessoal de juntar os conteúdos - o que seu olho viu e foi associado a outros conteúdos, criando novas configurações - de maneira expressiva, original. A maneira que encontra se apoia em uma técnica, suporte na transmissão de suas emoções, de sua maneira particular de ver o mundo.

O artista, ser inteiro, não tem dentro de si categorias separadas: a gaveta poética, a gaveta filosófica, a gaveta família, amores... Como todos, ele configura de jeito próprio todos os conteúdos. Como esta configuração é pessoal, também pessoal é sua manifestação.

Sua obra contém esses elementos e será carregada de agressividade ou serenidade, caótica- dentro do caos, encontra uma linha que dá coerência ao todo - ou harmônica, colorida ou sóbria. Uma explosão de emoção em Iberê Camargo, lírica em Matisse, preocupada com o social em Portinari, rude, impregnada de solidão nas xilogravuras de Goeldi, de ouro e virtuosismo nos retratos de Klimt, poética nas gravuras de Lisboa e assim vai A técnica nunca se sobrepõe aos valores da expressão: é veículo que a facilita, ferramenta que a possibilita. Acaba por tornar-se indissociável dela. Corpo que carrega o espírito.

Daí as constantes mudanças - como na vida - que a arte apresenta.

O artista não procura uma escola, um estilo, -“quero ser impressionista” - ele o cria na procura de uma expressão mais adequada. Se não chega a criar uma maneira quase inteiramente nova - como é próprio dos gênios -, é, no entanto, sempre nova sua percepção e sua forma de expressá-la.

Se assim não for, se não acrescenta sua maneira pessoal, repete fórmulas - até escolhidas em um “book” com os modelos, em que o comprador escolhe o seu preferido ou impõe o que quer combinando com o sofá ou o “agora está na moda”- e assim ele perde sua característica essencial, a que faz dele um artista. Sem LIBERDADE não há CRIAÇÃO.

Então, pela História da arte, vemos o desprender da moldura, da tela, o uso de recursos de outras áreas artísticas ou não, o uso de materiais inusitados. Rompem-se as regras, o que é essencial ao trabalho criador, em movimento de dentro pra fora; o objeto é visto, sentido, assimilado, transformado e concretizado na sua obra. Daí o Movimento Antropofágico de 1922. Se não houver essa atitude de dentro pra fora, sua “técnica” passará a se incorporar ao repertório vigente. Num “museu de grandes novidades”.

Esse constante desprender de fórmulas, esse “deixar fluir”, olhar com olhos novos, como em caleidoscópio, é uma atitude que passa para quem olha a obra, que, em vez de procurar em qual departamento pessoal ela deve se encaixar, numa atitude resistente ao novo, desfaz-se dos conceitos arraigados e se deixa levar pelo novo caminho - ou caminhos - que se abre a sua frente, sem perguntar “o que quer dizer?”.

Na vida, como na arte, o estar apegado a conceitos, fatos passados onde não há uma circulação que energiza, é cortar as possibilidades de uma vida criadora, uma vida mais vivida. A atitude criadora não é própria só daquele que faz arte, mas comum a todas as pessoas que não se deixam absorver pela rotina, que estão presentes em tudo que fazem, sentindo, refletindo, questionando. E tudo é sempre novo. Não vivemos nunca a mesma coisa. E, de repente, diante do que nos cerca, acontece o “espanto”, como diz Ferreira Gullar, a obra acontece.

Piaget: “A verdade, como a beleza, só é válida quando recriada por aquele que a conquista”.

 

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