18/04/2014 às 13h08min - Atualizada em 18/04/2014 às 13h08min

Ginásio Leopoldinense Constante presença nas vidas de João e Maria

Ginásio Leopoldinense Constante presença nas vidas de João e Maria

Transcrito do "Almanack d'O Arrebol" Edição Comemorativa dos 80 Anos do Gymnásio Leopoldinense – 3-6-1986
Existem certos aconteci­mentos que se transformam em constante presença nas vidas das pessoas. Alguns se repetem, ou, às vezes, dão origem a outros, quase sempre com determinado traço ou característica co­mum ao acontecimento inicial, tornando-se assim, pro­fundamente marcantes.
Sob este prisma, encon­tramos, no "Gymnásio Leopoldinense", dois personagens que, há longos anos, a ele permanecem ligados por várias razões, quer profissio­nais, afetivas ou ocasionais. São eles: João e Maria.
João nasceu na Fazenda Pirineus, na Serra homôni­ma, localizada nas proximidades de Paraíso do Tobias, município de Miracema-RJ. Era o quarto dos onze filhos de um casal de cafeicultores - Plínio e Minervina - que, além dos seus, criaram mais três, adotivqs. Parte de sua infância foi vivida na fazenda, tendo sido, nos seus próprios dizeres, "criado com luz de lamparina e pó-de-fumo no umbigo". Outra parte, passou-a em Miracema, na casa que seu pai fizera construir, bem defronte ao "Gymnásio Mlracemense", o que, talvez, tenha lhe despertado a voca­ção para o magistério, que vem exercendo há cinquenta e dois anos. Naquela época, uma de suas brincadeiras fa­voritas era descer a ladeira do "Gymnásio Miracemen-se" - morro-da-poeira - mon­tado em um carrinho de ma­deira, desafiando charretes, cavaleiros e "Fordinhos" que por ali trafegavam.
Zizinho - como era cha­mado por familiares e amigos - aprendeu as primeiras le­tras em Miracema, nos Colé­gios Sta Inez e N. Sra. da Vitó­ria. Dos treze aos dezessete anos, estudou no Seminário de Campos, em regime de in­ternato.
Recém saído do Seminá­rio, João empregou-se, como Regente de Alunos, no Col. N. Srª do Perpétuo Socorro, também campista, no qual, além de seu cargo, exerceu, eventualmente, a função de professor substituto. Depois, professor contratado, no mesmo colégio.
Mais tarde, cursou a Es­cola de Formação de Profes­sores do Estado do Rio, já extinta. Em 1937, transferiu-se para a cidade de Guaçuí-ES, onde lecionou até o final daquela década.
Antes de chegar a Além Paraíba, em 1943, João foi professor em alguns colégios pertencentes ao Prof. Plínio Leite - Três Rios, Petrópolis e Niterói. Por três anos exer­ceu o magistério no "Ginásio Além Paraíba", em compa­nhia de seu irmão, Dr. Gutemberg.
Em março de 1946, João chega a Leopoldina e come­ça a trabalhar no então "Co­légio Leopoldinense", antigo "Gymnásio". Nessa ocasião, reencontra uma jovem pro­fessora - Maria - que ali lecionava e que a ele fora apre­sentada, um pouco antes, em casa de uma família de amigos comuns.
Maria nasceu na Faz. do Recanto - que, juntamente com as fazendas Rochedo, Barra, Oriente e Bom Jardim, integrava a sociedade consti­tuída por seu pai e por seu avô materno. O "Recanto" pertencia ao Distrito de Angustura, município de Além Paraíba.
Maria é a segunda filha de um casal de ex-alunos do "Gymnásio", Dudu, "pharmacêutico" em 1917 e Ducarmo, normalista em 1919. Aqui, tem início a presença do Ginásio nas vidas de Ma­ria e de João.
Com alguns meses de idade, Maria mudou-se para a Faz. da Torre, adquirida por seu pai. Lá, foi alfabetizada por suas tia-avós e, aos seis anos, já via despertar em si a vocação para o magis­tério, ensinando o "bê-a-bá" à sua irmã caçula, de então. O primário Maria cursou-o em Além Paraíba, em colé­gios particulares. O Curso Ginasial foi feito no "Ginásio Além Paraíba", que, anos an­tes, fora salvo da falência por seu avô - Mingote. Termina­do o ginásio, Maria inicia o Curso de Perito Contador no mesmo estabelecimento.
Em 1943, Maria transfe­re-se para o "Colégio Leopol­dinense" em companhia de sua irmã, Marisa. Àqueles tempos, aqui lecionava o fu­turo cunhado de ambas, Prof. Hernane - outra presen­ça do "Ginásio" nas vidas de Maria e João. As duas irmãs concluíram o curso em 1944.
Em março de 1945, Ma­ria começa a lecionar Educa­ção Física no Colégio Imacu­lada Conceição, de Leopol­dina e, ainda hoje, ministra esta mesma disciplina na Es­cola Estadual de 1° e 2° graus, Prof. Botelho Reis, que se chamava "Colégio Leopoldinense", quando, em julho daquele ano, sua diretoria contratou-a para ser professora de "Merciologia".
 
João e Maria ainda estão no "Ginásio"
Final de 1946. Um jovem casal de professores inicia um romance no Ginásio. Enganam-se aqueles que pen­sam que é, apenas, mais um das centenas de casais que se formaram no, hoje, octo­genário estabelecimento.
A partir daí, o Ginásio es­tará, constantemente, pre­sente em suas vidas. Mesmo antes, o tempo já começara a trançar os elos entre o "Gi­násio" e a vida do casal.
Primeiro foram os pais e uma das irmãs de Maria - alu­nos. Depois, o cunhado, pro­fessor. Mais tarde, o namoro e o casamento de João e Ma­ria, professores. Em seguida, Murilo, irmão de Maria - alu­no.
1986. Chegamos ao "Gi­násio" e nele encontramos, ainda trabalhando, o já não tão jovem casal - João e Ma­ria, depois de 40 anos, ele, e 41 anos, ela.
Neste longo espaço de tempo, muita coisa aconte­ceu. Vieram os filhos, cinco, e todos nestes bancos se sen­taram e foram alunos de seus pais, em casa e no "Ginásio". O genro também aqui estu­dou. Hoje, um de seus netos está estudando, represen­tando a quarta geração de sua família que passa pelo colégio, e dando, pois, conti­nuidade a constante presen­ça do "Ginásio" nas vidas de João e Maria.
João, que também foi chefe de gabinete do Prefeito de Leopoldina, de 1959 a 1962, e Maria, que só esteve afastada do Ginásio em 1961, quando fez um curso preparatório de professores de Educação Física, na UFRJ (então Universidade do Brasil), permanecem, ainda, ligados ao "Ginásio", tam­bém por outras razões. Resi­dem há 36 anos na antiga Rua 3 de junho (aniversário do ginásio), atualmente chamada R. Prof. Joaquim Ma­chado (que foi professor do Ginásio), que fica ao lado do "Ginásio". Tem por vizinhos, e amigos, um ex-diretor, Monsenhor Guilherme (que ocupou por mais tempo a diretoria do colégio), um ex-secretário, Paulo; além de fun­cionários, professores, alu­nos e ex-alunos.
Quis, ainda, o destino que, dos filhos de João e Ma­ria, dois seguissem a carreira do magistério e, por coinci­dência, eles também se chamam João* (Júnior) e Maria* (Inez) - esta, professora do Conservatório Estadual "Lia Salgado" (instalado no pré­dio do "Ginásio") e, o filho João, residente em Teresópolis, professor de Educação Física, como sua mãe.
Obrigado, "Ginásio" por ter acolhido, em seu seio, por tanto tempo, estes dois dig­nos representantes de uma categoria profissional - misto de sacerdócio - tão, absurda­mente, desprestigiada em solo brasileiro!
Obrigado, "Ginásio", por ter embalado, no aconchego de sua colunata dórica, o amor de João e Maria, que escolheram Leopoldina para ser o berço das vidas por eles geradas, entre as quais a mi­nha!
Plinio
 
Protagonistas: João Batista de Castro Alvim - professor de História, Latim, Espanhol, Português (Desculpa, meu pai, eu não aprendi direito!), OSPB, Moral e Cívica, Geografia, Inglês, etc, etc, etc... — Maria Guilhermina ViIlela Fajardo Alvim - profes­sora de Educação Física, Merciologia, entre outras. Participação especial: "Gymnásio Leopoldinense", "Co­légio Leopoldinense", Colégio Estadual Prof. Botelho Reis.
 
Junho de 2012 -  O texto acima foi escrito e publicado em 1986, como homenagem ao 'nosso' querido Ginásio e também a meus pais, avós, irmãos, tios, sobrinhos, amigos, diretores, funcionários, professores, colegas e vizinhos que têm ou tiveram, assim como nós, algum vínculo com o 'nosso' Ginásio.
O Professor João Batista Alvim (Magíster, Batista, Fessô, Batistão), meu pai, faleceu no dia 21 de janeiro de 1987, pouco antes de se aposentar.  Por iniciativa do então vereador Ely Rodrigues Neto, seu nome foi dado a uma rua no Bairro Joaquim Guimarães. Se  vivo estivesse, ele completaria 95 anos no dia 23 de junho.
Minha mãe, Maria Guilhermina, a Dona Guilhermina, continuou em sua atividade docente, no mesmo Ginásio, até o ano de 1993. Foram, portanto,  quase 48 anos de magistério, ali vividos. No dia 22 de junho, quando serão inauguradas as obras de reforma do Ginásio, ela é uma das pessoas homenageadas na Praça de Esportes do Ginásio, ao lado de outros eminentes educadores que também se dedicaram ao ensino de Educação Física. Ela ficou muito honrada e gratificada com a lembrança de seu nome. E na sua simplicidade, mas com sua autoridade de mãe, me pediu: "Meu filho, não diga nem escreva nada. Eu não mereço a homenagem e estou muito emocionada. Eu apenas cumpri com o meu dever". Claro que eu desobedeci; mas só transcrevi o que já havia feito há 26 anos. Como esta história é muito mais rica e teria muitos outros capítulos, sei que ela vai me perdoar só por mostrar este resumo.
Vale lembrar mais algumas coincidências: neste ano de 2012, meu avô materno, Manoel Fajardo Soares (Dudu), estaria completando 95 anos como 'Pharmacêutico', diplomado pelo Ginásio em 1917. Ele era irmão do Dr. Joaquim Honório Fajardo, avô do Prof. Iran Fajardo que também lecionou Educação Física no Ginásio e é um dos homenageados na Praça de Esportes.
Finalizando, agradeço ao Prof. Fernando Miranda Vargas - atual diretor do Ginásio – pela feliz lembrança, materializada nesse sigelo gesto de reconhecimento do trabalho de todos os homenageados. E vejam vocês mais uma coincidência: o Fernando foi meu colega de turma aí no Ginásio e há muitos anos não nos encontramos. Fica, portanto, mais uma vez, justificado o título que dei ao texto.
Obrigado.
 
Plinio Fajardo Alvim – Filho do João e da Maria. Ex-aluno do Ginásio.
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