30/04/2014 às 09h14min - Atualizada em 30/04/2014 às 09h14min

27 de abril de 1854

Data em que era promulgada a Lei do Império, número 666, que te criava, Leopoldina...

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160 anos depois, aqui estou eu, pensando se devo te dar parabéns. Desde que tomaste o caminho do retrocesso, resolvi cuidar mais da minha história e deixar a tua nas mãos de quem se afina mais contigo.
Entretanto, como filho teu, seria no mínimo deselegante manter o silêncio em data tão significativa. E, já que meu umbigo aqui se encontra enterrado e me sinto responsável por ti, preciso te desejar um futuro, mesmo não mais acreditando, diante dos rumos que tomaste, que ele será brilhante.
Eu é que estava enganado quando te idealizava. Coisa de filho! Já nasceste torta: surgiste nas terras dos Puris, dizimados pelos brancos, e cresceste pelo trabalho escravo. Funchal Garcia já havia percebido e retratou nos azulejos da Praça Félix Martins a devastação ambiental que te deu origem – da Zona da Mata, só restou a Zona.
Ficaste preconceituosa, e o Cutubas é um marco desse teu jeito segregador. Mas não só os negros sofrem em tuas mãos. Separas por etnia, classe social, gênero, orientação sexual, idade... Tudo que foge ao modelinho de capítulo final da novela da Globo está fora, pra ti.
Foste rica e poderosa, herdando nome de princesa (filha de D. Pedro II) e o emprestando a uma das primeiras ferrovias brasileiras. Fizeste deputado, senador, governador, ministro, presidente... Abrigaste escritores importantes e recebeste o Imperador. Mas, hoje, decadente, continuar com essa empáfia que faz teus filhos quererem deixar-te, como que estrangeiros em teu seio! Pudera!
Apesar de tudo, te quero muito bem e desejo, sinceramente, tua felicidade. Quero que voltes a ser verde, repleta da Mata Atlântica. Que sejas cada vez mais arborizada para amenizar esse teu clima infernal e conservar tuas dadivosas nascentes. Que teus habitantes troquem o carro pela bicicleta, sempre que possível, ficando teu ar e trânsito mais limpos. Aliás, um pouco de regra e pouco dinheiro já resolveria bastante a tua caótica mobilidade urbana (já inventaram mão única, estacionamento de um só lado da via, sinalização etc. etc.). Ah! E falando em rua, vê se para de homenagear golpistas! Sei que és conservadora, mas os tempos são de democracia.
Também desejo que teus belos filhos, que tanto valor dão à aparência física (haja vista o número de salões de beleza e academias de ginástica), passem a valorizar também o conhecimento, a cultura e a beleza da cidade (cadê a arquitetura original da Cotegipe, nossa Biblioteca, nosso Arquivo Público, o Feijão Cru limpo, recebendo esgoto tratado?...).
Que sonho seria ver teus jovens empreendendo em teu seio, não precisando ir a outras paragens, porque tu lhes destes o protagonismo, os acolhestes na diversidade, os educastes na autonomia e na qualidade. Certamente eles te devolveriam em dobro, cuidando de ti, diversificando e fortalecendo tua economia combalida.
Perdão pelos meus rancores! Isso não é hora. Estarei sempre pronto a te ajudar a ser uma pérola da economia criativa, uma cidade sustentável, uma cidade educadora. Criaticidade! Felizcidade! A Atenas mineira! Desde que queiras. Mas, não contribuirei para que sejas a madrasta que querem. Feliz aniversário, minha terra, e que todos os teus filhos mereçam tua felicidade!
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