10/05/2014 às 11h45min - Atualizada em 10/05/2014 às 11h45min

HISTÓRIA DE UM ORIUNDI

HISTÓRIA DE UM ORIUNDI

José Luiz Machado Rodrigues

Na barbearia ele contou que a história do personagem é antiga e agarrou na memória do contador desde os tempos da infância quando os dois, engraxates, frequentavam as calçadas da antiga Rio Bahia, hoje Avenida Getúlio Vargas, entre os inesquecíveis bares Gato Preto e Marabá. Local onde paravam os ônibus e os caminhões de migrantes do norte e nordeste do país.

Tanto um quanto o outro, meninos de famílias de trabalhadores, nascidos com a saúde suficiente para garantir o seguir da espécie. Que trilharam caminhos parecidos, nas brincadeiras no pátio da mesma escola e nas ruas e praças da cidade por onde circularam com suas caixas e escovas de limpar sapatos. Que cedo foram para a avenida onde conheceram o empoeirado viajante e os caminhões entulhados de gente.

Na vida adulta cada um seguiu o seu caminho, mas ficou a amizade que permite hoje, com alguma segurança, falar um pouco sobre a vida de um colega de infância a quem o contador da história e muitos amigos aprenderam a admirar pelo exemplo de vida que ele é.

Vida que, segundo diria a parteira e vizinha, desde o primeiro choro o fez mostrar-se uma criança boa nos agudos e melhor ainda nas estripulias. Estas, iniciadas ainda no caixote que lhe serviu de berço e observatório e de onde saltou para o mundo no primeiro descuido de quem dele cuidava. Saltou para conhecer a dureza das dependências dependentes de uma casa no sopé do morro dos Ventos Uivantes onde, a considerar o nome do lugar, em dia de vento forte até Santa Bárbara, protetora da ocasião, apiedava-se e implorava ajuda aos parceiros do céu para socorrer os viventes.

Protegido pelo seu atento anjo da guarda, único ser capaz de acompanhar um moleque daquele tempo nas aperturas dos seus deslizes e nas encrencas que ia arrumando no dia a dia, ele cresceu. Cresceu e o trabalho como tarefa diária o encontrou logo depois dos primeiros passos seguros, quando lhe foram delegadas as rotinas de levar recados e encomendas da mãe doceira e a cuidar das outras tantas missões comuns aos nascidos naquela casa.

Decidido a vencer, buscou com determinação o seu caminho. Aprendeu a comer o possível e trabalhar até o limite da própria resistência. Comida gostosa em prato de bom tamanho, embora a “sustância”, como se dizia, viesse mais do arroz, polenta, feijão, verdura e algum outro sabor italiano preservado na casa do oriundi. Trabalho sempre, a qualquer hora e lugar.

            Com o passar do tempo a roda incontrolável que leva a todos por caminhos que só ela conhece, acelerou e lhe apresentou o gatilho de acionar um torno mecânico e o macacão sujo de graxa. E nas voltas que o torno e o mundo davam, lhe ensinou a profissão e arte do bom mecânico, o acionar ligeiro os gatilhos das máquinas de solda e de tantas outras que precisavam seguir viagem. E ele aliou a tudo o que aprendeu às virtudes de se doar ao serviço e ao servir e, construiu seu espaço. Driblou, sem jogar, as dificuldades naturais. Lutou como poucos, contra intempéries e imprevistos e viu chegar a necessidade de reduzir a carga para desenvolver a arte do envelhecer.

Consciente, desacelerou a surrada máquina como convém aos da nossa idade.

Hoje, guarda entranhado nos cantos das unhas, nas veias e no pensamento, os resquícios do torno e mecânica. Guarda o umbigo enterrado nas proximidades da Colônia Agrícola da Constança e, do engraxate da calçada, a lembrança. Guarda a impossibilidade de voltar à infância e o contentar-se com a realidade dos netos à distância. Guarda a necessidade de ocupar parte das horas revertidas em relembrar amigos, figuras, casos e histórias divertidas. E acima de tudo, guarda o prazer de amparar a quem dele precisa, seja com um dedo de prosa ou, uma orientação preciosa. Seja com um pingo de solda ou, uma cadeira de rodas. Mas sempre, sem se entregar ao ócio, ainda que sentado num banco, na praça do seu negócio.

 

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