26/11/2015 às 17h12min - Atualizada em 26/11/2015 às 17h12min

Um poeta com lenço e documento abaixo do equador: Caetano Veloso

    O  CANTINHO  MUSICAL  ocupará  este espaço para desfilar algumas pérolas  musicais  de um grande  poeta  de vanguarda  de nossa literatura :  “  CAETANO  VELOSO  “ . Credenciado pela crítica como   músico  , arranjador , cantor e escritor de primeira grandeza , sua produção intelectual é marcada por uma releitura musical com grande manejo poético. Baiano  de Santo Amaro da Purificação ,  líder de um movimento chamado Tropicalismo , figura importante de Música  Popular  Brasileira , é citado , internacionalmente ,como  um dos melhores compositores do século XX . Ao longo de sua carreira foi considerado uma das personalidades   mais polêmicas e autêntico  formador de opinião . Fez parte do grupo de resistência musical ao   Regime Militar , opressor  e ditatorial .  Nos anos  60 , num ambiente de efervescência social e política , caracterizado pela emancipação de um livre pensamento  da juventude que se opunha a valores tradicionais , sociais e econômicos , que CAETANO  VELOSO começa a repensar a MÚSICA  POPULAR BRASILEIRA .

    Desfilaremos uma exposição de músicas selecionadas mais conhecidas do autor . Na ótica de uma liberdade, marco inicial do movimento tropicalista ,  Caetano Veloso  compõe uma canção revolucionária que reflete a repressão do período militar no Brasil , usando expressões metafóricas para burlar o regime autoritário e  , de uma inteligente ironia ,  para salientar que a cultura importada era alienante. Nas  entrelinhas , uma crítica à esquerda intelectualizada , a negação de qualquer forma de censura e denúncia de sedução dos meios de comunicação de massa . Embora não haja caracteres de ambiente  alegre , tudo  é manifestado com    “  ALEGRIA  ,  ALEGRIA  “  .  

  [ “ / Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento / No sol de quase dezembro / Eu vou . / O sol se reparte em crimes  / Espaço naves , guerrilhas / Em cardinales bonitas / Eu vou. / Em caras de presidente , / Em grandes beijos de amor , / Em dentes , pernas , bandeiras , / Bombas e Brigitte Bardot . / O sol nas bancas de revista / Me enche de alegria e preguiça . / Quem lê tanta notícia ? / Eu vou . / Por entre fotos e nomes / Os olhos cheios de cores / O peito cheio de amores vãos . /

 Eu vou / Por que não ? / Por que não ? /Ela pensa em casamento / E eu nunca mais fui à escola / Sem lenço e sem documento / Eu vou / Eu tomo uma coca-cola / Ela pensa em casamento / Uma canção me consola / Eu vou . / Por entre fotos e nomes / Sem livros e sem fuzil / Sem fome , sem telefone / No coração do Brasil . / Ela nem sabe até pensei / Em cantar na televisão / O sol é tão bonito ./ Eu vou / Sem lenço , sem documento / Nada no bolso ou nas mãos / Eu quero seguir vivendo amor.  / Eu vou / Por que não ? / Por que não ? / . “  ] .   

A  imagem de um verdadeiro Eldorado  que os imigrantes nordestinos tiveram antes de sair de sua terra natal , não se coaduna com a realidade visualizada da cidade de São Paulo .  Caetano , em sua bela e dura poesia , usando de todos os recursos metafóricos  , relata o triste panorama  visto pelos imigrantes , causando uma certa decepção na relação entre o real e o imaginário. A canção é uma descrição dos problemas de um metrópole  chamada    “   SAMPA “

  [ “ / Alguma acontece /  No meu coração / Que só quando eu cruzo a Ipiranga / E a Avenida São João ... / É que quando eu cheguei por aqui / Eu nada entendi / Da dura poesia / Concreta de tuas esquinas / Da deselegância discreta / De tuas meninas / Ainda não havia para mim Rita Lee / A tua mais completa tradução / Alguma coisa acontece no meu coração / Que só quando eu cruzo a Ipiranga / E a Avenida são João ... / Quando eu te encarei / Frente  a  frente / Não vi o meu rosto / Chamei de mau gosto o que vi /

 De mau gosto , mau gosto / É que Narciso acha feio / O que não é espelho / E a mente apavora / O que ainda não é mesmo velho / Nada do que não era antes / Quando não somos mutantes .../ E foste um difícil começo / Afasto o que não conheço / E quem vem de outro sonho / Feliz de cidade /  Aprende depressa a chamar-te / De realidade / Porque és o avesso / Do avesso , do avesso , do avesso / O povo oprimido nas filas / Nas vilas , favelas / Da força da grana que ergue / E destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobe / Apagando as estrelas / Eu vejo surgir teus poetas / De campos e espaços / Tuas oficinas de florestas / Teus deuses da chuva / Panaméricas / De Áfricas utópicas / Túmulo do samba / Mais possível novo / Quilombo de Zumbi / E os novos baianos / Passeiam na tua garoa / E novos baianos /Te podem curtir numa boa / . “  ] .     

Em uma visão comparativa ,  Caetano motiva-se no devastador furacão que , nos anos 90 , destruiu o Haiti , chamando atenção para a excessiva ajuda dada àquele país , perante a miséria que se vive no Brasil.  O tema apresenta um tom de  “ hip-hop “ , caracterizando  um protesto musical  na canção-poema  “  HAITI  “  

  [  “ / Quando você for convidado para subir no adro da / Fundação Casa de Jorge Amado / Pra ver do alto a fila de soldados , quase todos pretos / Dando porrada na nuca de malandros preto / De ladrões mulatos / E ouros quase brancos / Tratados como pretos / Só para mostrar aos outros quase pretos / ( E são quase todos pretos ) / E ao quase brancos pobres como pretos / Como é que pretos , pobres e mulatos / E quase branco  quase pretos de tão pobres são tratados / E não importa se olhos do mundo inteiro possam /

 Estar por um momento voltados para o largo /  Onde os escravos eram castigados / E hoje um batuque , um batuque com a pureza de / Meninos uniformizados / De escola secundária em dia de parada / E a grandeza épica de um povo em formação / Nos atrai , nos deslumbra e  estimula  / Não importa nada / Nem o traço do sobrado , nem a lente do Fantástico / Nem o disco de Paul Simon / Ninguém / Ninguém  é cidadão / Se você for ver a festa do Pelô / E se você não for / Pense no Haiti / Reze pelo Haiti / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui / E na TV se você vir um deputado em pânico / Mal dissimulado / Diante de qualquer , mas de qualquer mesmo /  Qualquer qualquer / Plano de Educação / Que pareça fácil / Que pareça  fácil e rápido / E vá representar uma ameaça de democratização / Do ensino de primeiro  grau /  E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital / E o venerável cardial disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal / E se , ao furar o sinal , o velho sinal vermelho habitual / Notar um homem mijando nas esquina da rua / Sobre um saco brilhante de lixo do Leblon / E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina  / 111 presos indefesos / Mas presos quase todos pretos / Ou quase pretos /Ou quase brancos , quase pretos de tão  pobres / E pobres são como podres / E todos sabem como se tratam os pretos / E quando você for dar uma volta no Caribe / E quando for trepar sem camisinha / E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba / Pense no Haiti / Reze pelo Haiti / O Haiti é aqui / O Haiti não é aqui / . “ ]  . 

Caetano  Veloso , nesta bela e inteligente canção , exalta , estilisticamente , o paradoxismo , em temas volitivos de alta complexidade , usando uma figura de linguagem  cujo nome é OXIMORO que consiste em reunir palavras aparentemente contraditórias ,  manifestação poética presente na composição   “  O  QUERERES  “ .       

  [ “ /  Onde queres revólver , sou coqueiro / Onde queres dinheiro , sou paixão / Onde queres descanso , sou desejo / E onde sou só desejo , queres não / E onde não queres nada , nada falta / E onde voas bem alto , eu sou o chão / E onde pisas o chão , minha alma salta / E ganha liberdade na amplidão / Onde queres família , sou maluco / E onde queres romântico , burguês / Onde queres Leblon , sou Pernambuco / E onde queres eunuco , garanhão / Onde queres o sim e o não , talvez / E onde vês , eu não vislumbro razão /

 Onde o queres o lobo , eu sou o irmão / E onde queres cowboy , eu sou chinês / Ah ! bruta flor do querer / Ah ! bruta flor , bruta flor /  Onde queres o ato , eu sou o espírito / E onde queres ternura , eu sou tesão / Onde queres o livre , decassílabo / E onde buscas o anjo , sou mulher / Onde queres prazer , sou o que dói / E onde queres tortura , mansidão / Onde queres um lar , revolução / E onde queres bandido , sou herói / Eu queria querer-te amar o amor / Construir-nos dulcíssima prisão / Encontrar a mais justa adequação / Tudo métrica e rima e nunca dor / Mas  a vida é real e de viés / E vê só que cilada o amor me armou / Eu te quero ( e não queres ) como sou / Não te quero ( e não queres ) como és / Ah! Bruta flor do querer / Ah ! bruta flor , bruta flor / Onde queres comício , flipper-vídeo / Onde queres romance , rock’n roll / Onde queres a lua , eu sou o sol / E onde a pura natura ,inseticídio / Onde queres mistério , eu sou a luz /E onde queres um canto , o mundo inteiro / E onde queres quaresma , fevereiro / E onde queres coqueiro , eu sou obus / o quereres e o estares sempre a fim / Do que em mim e de mim tão desigual / Faz-me querer-te bem , querer-te mal / Bem a ti , mal ao quereres assim / Infinitamente pessoal / E eu querendo querer-te sem ter fim / E, querendo-te , aprender o total / Do querer que há e do que não há em mim / . “  ]  . 

Depois de cantar com bastante precisão a beleza da mulher carioca , em homenagem ao Rio de Janeiro , Caetano , tendo como modelo de sua canção um surfista da praia de Ipanema , símbolo de uma geração de jovens , bronzeados , cabelos soltos , ar atlético  , descreve , poeticamente , caracteres corporais e atitudes de liberdade com o pensamento de viver a vida de um  “  MENINO  DO  RIO  “ .      ,

  [ “ /  Menino do Rio / Calor que provoca arrepio / Dragão tatuado no braço / Calção corpo aberto no espaço / Coração , de eterno flerte / Adoro ver-te... / Menino vadio / Tensão flutuante do Rio / Eu canto pra Deus / Proteger-te .../ O Hawai , seja aqui / Tudo o que sonhares / Todos os lugares / As ondas dos mares /  Pois quando eu te vejo / Eu desejo o teu desejo / Menino do Rio / Calor que provoca arrepio / Toma esta canção / Como um beijo ... / . “ ]

 .    A língua como sistema organizado e meio de comunicação  permite , de forma emotiva , que a linguagem mítica faça um jogo com suas palavras para expressar sua criatividade . Caetano  , em uma bela demonstração de conhecimento do idioma e da Literatura , constrói , poeticamente ,  uma linda canção onde manifesta todos os conceitos e preconceitos linguísticos , em um maravilhoso manejo com a conotação das palavras presente em  “   LÍNGUA  “ .    

  [ “ / Gosto de sentir a minha língua roçar  / A língua de Luís de Camões / Gosto de ser e estar / E quero me dedicar / A criar confusões de prosódias / Que encurtem dores / E furtem cores como camaleões / Gosto do Pessoa na pessoa / Da rosa no Rosa / E sei que a poesia está para prosa / Assim como o amor está para amizade / E quem há de negar que esta lhe é superior / E deixa os portugais morrem à míngua / “ Minha pátria é minha língua “ / Fala mangueira ! / Fala ! / Flor do Lácio Sambódromo /

 Lusamérica  latim em pó / O que quer / O que pode / Esta língua ? / Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas / E o falso inglês relax dos surfistas / Sejamos imperialistas / Vamos na velô da dicção choo , choo de / Carmem Miranda / E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate / E – xeque-mate – explique-nos Luanda / Ouçamos com atenção os deles e os delas da / TV Globo / Sejamos o lobo do lobo dos homem / Adoro nomes / Nomes em à / De coisas como romã e ímã / Nomes de nomes / Como Scarlet  Moon Chevalier / Glauco Matoso  e Arrigo Barnabé e Maria da / Fé e Arrigo Barnabé / Flor do Lácio ............Esta língua ? / Incrível / É melhor fazer uma canção / Esta provado que só é possível / Filosofar em alemão / Blitz quer dizer corisco / Hollyood quer dizer Azevedo / E o Recôncavo , e o Recôncavo / E o Recôncavo / Meu medo ! / A língua é minha pátria / E eu não tenho pátria : tenho mátria / E quero frátria / Poesia concreta e prosa caótica / Ótica futura / O samba-rap , chic – left com banana / Será que ela está no Pão de Açúcar ?  / Tá craude brô você e tu lhe amo / Qué queu te faço , nego / Bote ligeiro / Nós canto-falamos como que inveja negros /Que sofrem horrores no gueto do Harlem / Livros , discos , vídeos à mancheia / E deixe que digam , que pensem e que falem / . “  ]  . 

Em uma bela apologia poética ao samba  ,  Caetano , nesta linda canção , conceitua os efeitos benéficos causados por esse gênero musical  em relação à sua sobrevivência como receituário para transformação   de muitas melancolias em   “  DESDE  QUE O  SAMBA  É  SAMBA  “ .

  [ “ / A tristeza  é   senhora / Desde que o samba é samba é assim / A lágrima clara sobre a pele escura / A noite à chuva cai lá fora / Solidão apavora / Tudo demorando em ser tão ruim / Mas alguma coisa acontece no quando agora em mim / Cantando eu mando a tristeza embora / O samba ainda vai nascer / O samba ainda não chegou / O samba não vai morrer / Veja , o dia ainda não raiou / O samba é pai do prazer / O samba é filho da dor / O grande poder transformador / . “  ]   .

      Encerrando esta pequena amostra de uma imensa galeria de sucesso cultuada por esse gênio da MPB ,   O  CANTINHO  MUSICAL  , em respeito às composições magníficas de CAETANO  VELOSO  , sente-se plenamente orgulhoso de expor algumas joias musicais que fascinam os amantes da arte musical .

 

“  SE  O  SER  HUMANO  CONSEGUISSE  DIMINUIR  A  DISTÂNCIA  ENTRE  A  EMOÇÃO  E  O  CONHECIMENTO ,  CERTAMENTE ,  A  BOA  MÚSICA  DARIA  LENITIVO  POÉTICO  AOS  SENTIMENTOS AMOROSOS  E  À  COMPREENSÃO  CLARA  DAS MENSAGENS .  CONSEQUENTEMENTE , AS COMPOSIÇÕES  DE  CAETANO  VELOSO  SERIAM  RESPONSÁVEIS  PELO  ESTREITAMENTO  EM  RELAÇÃO  AO  EMOTIVO  E  AO  CONHECER  .  “

Waldemar  Pedro  Antonio          e-mail :     wpantonio@terra.com.br

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