11/02/2016 às 10h56min - Atualizada em 11/02/2016 às 10h56min

CANTINHO POÉTICO: Cecília Meireles

Hoje o  CANTINHO  POÉTICO  , em homenagem às obras poéticas de  CECÍLIA MEIRELES , inicia as postagens de suas poesias , durante toda esta semana . Integrada na sensibilidade  brasileira , Cecília busca suas inspirações em suas intuições líricas , nas bases do sentimento das almas populares , lidando com igual maestria , nas raízes de nosso folclore . Da galeria poética de Cecília  Meireles , selecionamos alguns poemas que , em série , postaremos nesta semana .

" MOTIVO "

Eu canto porque o instante existe 
e a minha vida  está  completa  .
Não sou alegre nem triste :
sou poeta .

Irmão das coisas  fugidias , 
não sinto gozo nem tormento .
Atravesso noites e dias 
no vento .

Se desmorono ou se  edifico  ,
se permaneço ou me desfaço ,
__ não sei , não sei . Não sei se fico
ou  passo  .

Sei que  canto . E a canção é  tudo .
Tem  sangue eterno a asa  ritmada .
E um dia sei que estarei mudo : 
__ mais nada .

O CANTINHO   POÉTICO  publica , neste espaço , para deleite dos apreciam a boa poesia , duas maravilhas de CECÍLIA MEIRELES que , certamente , através de uma  CANTIGUINHA e de uma   IMAGEM , expressam , metaforicamente , a angústia e o amor . Estes dois poemas marcam o segundo dia de homenagem a essa POETA ( termo com que ela gostava de ser rotulada ) como verdadeiros adereços , enfeitando e completando o cenário de nossa literatura .
    
"   CANTIGUINHA  "

Brota esta lágrima e  cai .
Vem de mim , mas não é minha .
Percebe-se que caminha ,
sem que se saiba aonde vai .

Parece angústia espremida 
de  meu  negro  coração ,
__ pelos meus olhos fugida 
e quebrada em minha mão .
Mas  é  rio , mais profundo , 
sem nascimento e sem fim ,
que , atravessando este mundo , 
passou por dentro de mim .

"IMAGEM  "

Meu coração tombou na vida 
tal qual ima estrela ferida 
pela flecha de um  caçador .

Meu  coração , feito de chama , 
em lugar de sangue , derrama 
um longo rio de esplendor .

Os caminhos do  mundo , agora , 
ficam semeados de aurora ,
não sei o que germinarão .

Não sei que dias singulares 
cobrirão as terras e os mares ,
nascidos do meu coração .
 

COLECIONADOS NA SEÇÃO DA GALERIA DE SUAS CRIAÇÕES COM O NOME DE " OU ISTO OU AQUILO POEMAS INFANTIS " . CECÍLIA ERA UMA PROFESSORA  PRIMÁRIA , ( COMO GOSTAVA DE SE ROTULAR ) E PREOCUPADA COM MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO DAS CRIANÇAS , ENTÃO CRIOU ESTE ESPAÇO POÉTICO PARA , COM MÉTODOS DIDÁTICOS , ENSINAR A SEUS ALUNOS , ATRAVÉS DE UMA LINGUAGEM LÍRICA , OS SONS DE NOSSO ALFABETO FONÉTICO E AS LETRAS DE NOSSO CONJUNTO DE GRAFIAS . EM CADA  POESIA , CECÍLIA , ESTILISTICAMENTE , REALÇA UM DETERMINADO FONEMA DE NOSSA LÍNGUA OU UMA LETRA REPRESENTATIVA DO SOM . INICIAREMOS COM DUAS  POESIAS : UMA QUE DEU O NOME PARA COLETÂNEA ; E OUTRA , ENSINANDO AS LETRAS DE NOSSO ALFABETO ATRAVÉS DA PALAVRA " MOSQUITO " . VAMOS ÀS  POESIAS :

 
 "OU  ISTO OU  AQUILO "

Ou se tem chuva e não se tem sol 
ou se tem sol e não se tem  chuva !
Ou se calça a luva e não se põe o  anel ,
ou se põe o anel e não se calça a luva  !
Quem sobe nos ares não fica no  chão , 
quem fica no chão não sobe nos ares .

É uma grande pena que não se possa 
estar ao mesmo tempo nos dois lugares  !
Ou guardo o dinheiro e não compro o  doce , 
ou compro o doce e gasto o dinheiro .

Ou isto ou aquilo  : ou isto ou aquilo ...
e vivo escolhendo o dia inteiro !
Não sei se brinco  , não sei se estudo ,
se saio correndo ou fico tranquilo .

Mas não consegui entender ainda 
qual é  melhor : se é isto ou aquilo .

"O MOSQUITO ESCREVE "

O mosquito pernilongo
tranças as pernas  , faz um  " M " ,
depois , treme ,treme , treme 
faz um   " O " bastante oblongo , 
faz um   " S " .

O mosquito sobe e desce  .
Com artes que ninguém vê , 
faz  um  " Q " ,
faz um  " U "  e faz  um   " I  “ .
Esse mosquito 
esquisito
cruza as  patas , faz  um   " T " .
E aí ,

se  arredonda e  faz  outro  " O " , 
mais bonito .
Oh ! 
Já não é analfabeto 
esse  inseto  ,
pois sabe escrever seu nome .
Mas depois vai procurar 
alguém que possa  picar  , 
pois escrever cansa , 
não é , criança ?
E ele está com muita  fome  . 
 
Dois poemas maravilhosos em que um expressa , estilisticamente, o som " /K/ " representado graficamente pela letra " C " que , por coincidência , tem a forma de um " COLAR " aberto . O outro tem o eixo semântico despertado pelo preconceito nos jogos que são próprios para meninas e meninos , neutralizando , em uma linda forma poética , essa separação e para realçar a questão de privilegiar as letra e os sons da língua , o enfoque está na expressão da letra " O " , usando e abusando sua presença no poema , até por que a palavra BOLA tem a forma de um " O " . Vamos às poesias ;
 
" COLAR DE CAROLINA "
 
Com seu colar de  coral ,
Carolina 
corre por entre as colunas 
da colina .
O calor de Carolina 
colore o colo de  cal ,
torna corada a menina .
E o  sol , vendo aquela cor 
do colar de Carolina ,
põe coroas de coral
nas colunas da colina .
 
 
" JOGO DE BOLA "

A BELA bola
rola  :
a bela bola do Raul .
Bola  amarela  , 
a da Arabela .
A  do Raul , 
azul .
Rola a amarela 
e pula a  azul .
A bola é  mole , 
é mole e rola .
A bola é  bela , 
é bela e pula .
É  bela , rola e pula , 
é mole , amarela azul .
A de Raul é de Arabela  , 
e a de Arabela é de Raul .
Parte superior do formulário
 
 
O CANTINHO  POÉTICO , enfocando as " POESIAS INFANTIS " , criadas por CECÍLIA MEIRELES , postaremos duas joias com bastante lirismo . A primeira expressa o maravilhoso SONHO de criança ,quando manifesta durante a poesia uma técnica estilística , usando mais um fonema da língua representado pelo dígrafo  " NH " . O segundo versa sobre uma transformação de comportamento em  uma MENINA entre a infância e a adolescência , realçando em toda poesia a letra " M" como técnica do projeto de alfabetização através dos poemas . Exporemos agora estas duas pérolas de CECÍLIA  MEIRELES :

" SONHOS DA MENINA "

A flor com que a menina sonha 
está  no sonho  ?
ou na fronha ?
Sonho
risonho   :
O vento sozinho 
no  seu  carrinho  .
De que tamanho
seria  o  rebanho  ?
A vizinha 
apanha 
a sombrinha 
de  teia de  aranha  ...
Na lua há um ninho
de  passarinho  .
A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho 
ou a  lua da fronha  ?
 
"MODA DA MENINA TROMBUDA "
 
É a moda 
da menina muda 
da menina trombuda 
que muda de modos 
e  da medo .
(  A menina mimada ! )
É a moda 
da menina muda 
que muda 
de modos 
e  já não é trombuda  .
(  A menina amada ! )
 
Neste espaço reservado à postagem de belas poesias , denominado CANTINHO POÉTICO , desfilaremos dois poemas de CECÍLIA  MEIRELES que abordam dois eixos significativos : a  INFÂNCIA e a VELHICE . Os discursos nas duas poesias representam , metaforicamente , uma melancolia em cada actante , atuando nas manifestações poéticas : o MENINO questiona  O ECO , personificado , sobre suas dúvidas diante do mundo e tendo como resposta a mesma forma da pergunta a ele dirigida , em crítica a uma atitude idêntica do adulto , quando questionado pela criança . O outro poema trata de uma nostalgia expressa no diálogo de poucos assuntos entre duas anciãs : MARINA e MARIANA . Vamos às poesias .

"O  ECO  "

O menino pergunta ao eco 
onde é que ele se  esconde ,
Mas o eco só responde : " Onde ? " " Onde ? "
O menino também lhe  pede :

" Eco vem passear comigo ! "
Mas não sabe se o eco é amigo 
ou  inimigo .

Pois só lhe ouve  dizer : 
" Migo ! "
  
"  AS DUAS VELHINHAS  "
Duas velhinhas muito  bonitas ,
Mariana e Marina ,
estão sentadas na varanda :
Marina e  Mariana .

Elas usam batas de fitas  ,
Mariana e  Marina ,
e penteados de tranças : 
Marina e  Mariana .

Tomam  chocolate , as velhinhas ,
Mariana e  Marina ,
em xícaras de porcelana :
Marina e Mariana .

Uma  diz : " Como a tarde é linda ,
não é , Marina ? "
A outra diz : " Como as ondas dançam ,
não é , Mariana ? "
" Ontem eu era pequenina " , 
diz Marina .

" Ontem , nós éramos crianças " ,
diz Mariana.
E  levam à boca as xicrinhas ,
Mariana e  Marina , 
as xicrinhas de porcelana :
Marina e  Mariana .

Tomam  chocolate , as velhinhas , 
Mariana e Marina .

E falam de suas lembranças , 
Marina e Mariana  .

Retornando dia 15 de fevereiro com a semana dedicada às poesias de VINÍCIUS DE MORAES . Para fechar com  chave de ouro , postaremos dois maravilhosos poemas . Um retrata o sonho da menina em tornar-se bailarina e flutuar na dança rodopiando  sem parar . O outro poema versa sobre as ações do despertar de três meninas na saudação de  um " bom dia " , quando a " POETA " ,saudosa de cenas vividas , expressa a preferência por um delas . Vamos às  poesias :
 
" A BAILARINA "
 
Esta menina
tão pequenina 
quer ser  bailarina .
Não conhece nem dó nem ré 
mas sabe ficar na ponta do pé .
Não conhece nem mi nem fá 
mas inclina o corpo para cá e para  lá .
Não conhece nem lá  nem  si ,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda  , roda , roda com os bracinhos no ar 
e não fica tonta nem sai do lugar .
Põe no cabelo uma estrela e um véu 
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina 
quer  ser  bailarina .
Mas depois esquece  todas as danças ,
e também quer dormir como as outras crianças .
 
"AS MENINAS "
 
Arabela
abria a janela .
Carolina 
erguia a cortina.
E Maria 
olhava e sorria :

 " Bom dia ! "
Arabela 
foi sempre a mais bela .
Carolina,
a  mais sábia menina .
E  Maria 
apenas sorria :

 " Bom dia ! "
Pensaremos em cada menina
que  vivia naquela janela ;

uma que se chamava Arabela ,
outra que se chamou Carolina .
Mas a nossa profunda saudade 
é  Maria , Maria , Maria ,
que dizia com voz de amizade :

                       " Bom dia ! "
 
" OBRIGADO , CECÍLIA MEIRELES ! "
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