21/03/2016 às 17h10min - Atualizada em 21/03/2016 às 17h10min

Seriam os fascistas loucos?

Tento evitar ao máximo o uso das palavras Fascismo, no singular, ou fascista para me referir aos grupos de agressores que aparecem na internet e nas ruas, nestes tempos tão intolerantes. Busco considerá-los como autoritários, ou seja, como sujeitos que movidos por uma cultura política autoritária, presente em nossa formação política, encontram ora mais espaço, ora menos, para agirem de forma truculenta no cenário. O conceito de Fascismo é muito caro às experiências de movimentos e regimes autoritário-corporativas do entreguerras e mesmo que haja estudiosos do tema que tratam os Fascismos, no plural, enquanto uma grade de análise que ultrapassa as experiências marcadas historicamente pelo nazi-fascismo – principalmente a partir do surgimento do chamado neofascismo na Europa do final do século XX –, não acho que ainda seja esse necessariamente o caso do Brasil agora; o que não me faz, de forma alguma, negar que possamos nos direcionar nestes mal fadados caminhos. Afinal, isso já aconteceu, com o Movimento Integralista na década de 1930, quando o flerte com o Fascismo europeu atingiu grau considerável em nossas terras.

Devo dizer, porém que, os Fascismos, ou o Fascismo não é uma prerrogativa dos “lunáticos”, dos “alienados”, como muitos atribuem algumas vezes. Pelas experiências que passamos, o que se viu nas construções destes movimentos, ou regimes, foram atitudes muito bem articuladas na elaboração de uma narrativa única de combate ao inimigo antinacional, da negação do outro, daquele que lhe é estranho, ao seu discurso ou à sua forma de ver o mundo. O livro "As origens do Totalitarismo", da filósofa e historiadora Hannah Arendt, detalha bem esses mecanismos,  a partir das experiências históricas europeias, apontando, entre outras formas de ação bastante sutis, o uso calculado dos meios de comunicação de massa no objetivo da construção, fortalecimento e ação dos movimentos e regimes.

Digo tudo isso porque pode haver problemas na tese dos “fascistas loucos/lunáticos” ou “loucos fascistas”, desde há muito aventada por aí, e bastante reforçada hoje em dia. Já que ao tentar perceber a ação destes setores por meio de estereótipos, podemos perder a sutileza de suas movimentações, que partem de grupos ou lideranças que pareceriam até então insuspeitos. Pois se, em um raciocínio simplista, o louco se apresenta para nós como aquele que nos é estranho, os fascistas não se fizeram parecer estranhos, e diferente disso, muitas vezes se banharam no senso comum ou se fizeram “ciência” para dizerem o que todo mundo queria ouvir, no seu tempo, e assim se misturaram às pessoas comuns, lhes deram um sentido e as fizeram sujeitos e objetos nas construções de seus ideais e práticas mais tenebrosos.

Cito aqui um trecho do texto “Os Fascismos”, de 2000, do professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Francisco Carlos Teixeira da Silva, que nos ajuda nesse raciocínio:

“No fascismo não há espaço para o outro, mesmo o outro hierarquizado e subordinado, tampouco para sua educação e conversão num homem novo, como o comprova o extermínio de judeus e gays. Um ideia força, raça ou nação, torna-se o único valor moral em torno do qual ergue-se um poderoso código de ação. Assim, armado com um sistema ideológico e mental adequado, o fascismo identifica em si mesmo valores absolutos e qualquer diferença tornar-se-á objeto de eliminação violenta. [...]

O antiliberalismo, o antimarxismo, o organicismo social, a liderança carismática e a negação da diferença, “[...] marcam a nosso ver, a possibilidade de identificação do fascismo enquanto regime ou forma de dominação específica. Neste sentido, insistimos em diferenciar o fascismo das diversas vertentes políticas possíveis existentes no interior da direita. Diferente do conservadorismo (parlamentar e tolerante), do reacionarismo (restaurador e autoritário), dos autoritarismos militares ou partidários, o fascismo distingue-se por seu caráter metapolítico, mobilizado para a incorporação da nação, dos seus corações e mentes, numa concepção de mundo única, excludente e terrorista.” 

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