29/03/2016 às 10h03min - Atualizada em 29/03/2016 às 10h03min

Etelvina disse que Geraldo Pereira é “um escurinho direitinho”

Falar de  bambas  da Música Popular Brasileira é algo fascinante e maravilhoso ! Geraldo Pereira  é o compositor da vez  em nosso  Cantinho Musical . Como a arte se fixa eternamente na sociedade, Geraldo deixou  perpetuado,     em nossa galeria musical , um cancioneiro  constituído de  sambas de primeira linha  com a  autenticidade brasileira.
              
Geraldo Theodoro Pereira, mineiro de Juiz de Fora, Minas Gerais , chegou ao Rio de Janeiro  no ano de 1930 para morar com o irmão no Morro de Mangueira , onde aprendeu amar  a  ESCOLA DE SAMBA ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA, espaço frequentado por Cartola, Carlos Cachaça, Nélson Cavaquinho, Nélson Sargento e outros bambas.

      A partir do ano de 1938, Geraldo começa a  movimentar-se  dentro do universo dos sambistas, ocasião em que foi  compondo  seus sambas. Privilegiado pelo magnífico ouvido musical, não demorou muito iniciar sua trajetória na Música Popular Brasileira. Inspirado no movimento denominado “ samba do telecoteco “ , depois de ter sua música , “ FAREI TUDO ” , censurada , começou  a compor  seus primeiros trabalhos musicais. Em 1939, conseguiu gravar, pela Odeon,  sua primeira canção , o samba  “ SE VOCÊ SAIR CHORANDO “ , finalista no Concurso de Música Carnavalesca .

     Geraldo  acostumava organizar teatrinho para a turma do Morro de Mangueira . Em uma dessas  encenações , brotou, em sua memória ,o samba de breque  “ NA SUBIDA DO MORRO “  , verdadeira crônica musical , onde o malandro vai tomar satisfação com outro indivíduo  que  , sem saber a quem pertencia a cabrocha , deu uma surra na mulher do malandro.  [ “ /  “ Na subida do morro me contaram  /  Que você bateu na  minha nega,/  Isso não é direito  / Bater  numa mulher  que não é sua  /  Deixando a nega quase crua  no meio da rua ...... /  E nega quase que virou presunto / Eu não gostei daquele assunto  / Hoje venho resolvido / Vou lhe mandar para a cidade de pé junto  / Vou lhe tornar em um  defunto  / Você mesmo sabe / Que eu já fui um malandro malvado / Somente estou regenerado / Cheio de malícia  / Dei trabalho a polícia / Pra cachorro / Dei até no dono do morro / Mas nunca abusei / De uma mulher que fosse de um amigo / Agora me zanguei contigo / Hoje venho animado / A lhe deixar todo cortado / Vou dar-lhe um castigo / Meto-lhe o aço no abdômen  / Tiro fora seu umbigo ...  / ...“ ] .  


Geraldo estabeleceu um laço de amizade com o compositor Ciro de Souza  de quem recebeu um aprendizado musical , sendo orientado na direção  do ritmo e da melodia. Dessa grande amizade, nasceu mais tarde o samba      “ CONVERSA  FIADA  “, gravado em 1945.  [  “ Chegou ao meu conhecimento /  Que você anda dizendo  /  Que vai me deixar / Por isso muito lamento  / Você sabe muito bem  / Que eu sempre soube amar  / Vá ver que foi algum  veneno  / Dessas línguas de tesoura  /Que querem me ver sozinho  / Muito triste e desprezado  / Incompatibilizado  /  Sem o seu carinho  / Já temos intimidade / Não há necessidade de você fazer assim / Eu confesso que lhe adoro / Minha nega eu choro, choro / Se esse amor chegar ao fim / Se fizer questão de jura / Essa nuvem escura vai se desfazer / Eu juro minha nega, eu não fiz nada / É conversa fiada / Pra você se aborrecer/. ]   .   



Estava  Geraldo Pereira  inserido no rol dos grandes sambistas, para bem do gênero musical. A série de grandes sucessos motiva o poeta lançar   uma composição inspirada em Zinha ,  paixão  que o abandonou trazendo uma inspiração para a criação do samba  “  VOCÊ  ESTÁ  SUMINDO  “      [   “ /    Nega vem cá , vem ver só  /  Como é que seu nego ficou  / Depois do tal dia , neguinha  / Que você me deixou / Quem me conhece / Passa por mim jogando piada, sorrindo / Você está ficando acabado / Xii você está sumindo /  Você foi embora , criança / Minh'alma ficou quase louca/ Não tiro você da lembrança / Nem tiro o seu nome da boca / Sinto-me tão acabado... / Estou que nem posso de dor nem queira saber... / Ê de tanto pensar no seu amor / . “  ]  .     




Em 1940, em parceria com Wilson Batista , compuseram  “  ACERTEI NO MILHAR  “ , sucesso gravado por Jorge Veiga  e  Moreira  da  Silva.  [ / “  Etelvina , (minha nega ),  / Acertei no milhar / Ganhei 500 contos , não vou mais trabalhar /  E me dê toda roupa velha aos pobres / E a mobília podemos quebrar / Isso é pra já / Passe pra cá / Etelvina , / Vai ter outra lua-de-mel / Você vai ser madame / Vai morar num grande hotel / Eu vou comprar um nome não sei onde / De marquês, Dom Jorge Veiga, de Visconde / Um professor de francês, mon amour / Eu vou trocar seu nome / Pra madame Pompadour / Até que enfim agora eu sou feliz / Vou percorrer Europa toda até Paris / E nossos filhos, hein? / - Oh, que inferno! / Eu vou pô-los num colégio interno / Telefone-me pro Mané do armazém / Porque não quero ficar / Devendo nada a ninguém / E vou comprar um avião azul / Pra percorrer a América do Sul / Aí de repente, mas de repente / Etelvina me chamou / Está na hora do batente  / Etelvina me acordou / Foi um sonho, minha gente / . “ ]   .  


Em 1944 , Ciro Monteiro grava o samba que é a constatação do talento criador de Geraldo “ FALSA BAIANA  “ . Inspirado na mulher do compositor e amigo pessoal , Roberto Martins ,que ,em companhia da esposa deste , havia combinado com Geraldo ir a um baile , mas saíram os dois para beber.  Então, quando se lembraram do compromisso, já era tarde, encontraram  a  mulher de Roberto  vestida de baiana, em total desânimo, na porta do baile. Ao vê-la , o amigo de Geraldo  , ironicamente,  comentou : o que é isso ? Parece uma falsa baiana. A cena foi motivo para inspiração de nosso grande compositor   na criação deste  maravilhoso samba .  [  “ /    Baiana que entra na roda / Só fica parada / Não canta , não samba / Não bole nem nada/ Não sabe deixar a mocidade louca / Baiana é aquela / Que entra no samba / De qualquer maneira/ Que mexe remexe/ Dá nó nas cadeiras / E deixa a moçada com água na boca /  A falsa baiana quando entra no samba / Ninguém se incomoda, ninguém bate palma / Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba / Salve a Bahia, senhor / Mas a gente gosta quando uma baiana / Samba direitinho, de cima embaixo / Revira os olhinhos dizendo / Eu sou filha de São Salvador/ “  

Em 1945 , aparece  “  BOLINHA DE PAPEL “ ganhando , mais tarde , a simpatia dos admiradores do movimento “  bossa-nova  “. [ / “ Só tenho medo da falseta / Mas adoro a Julieta / Como adoro a papai do céu / Quero seu amor , minha santinha,/ Mas  só não quero que me faça  /  De bolinha de papel  / Tiro você do emprego / Dou-lhe amor e sossego / Vou ao banco e tiro tudo pra você gastar / Posso oh Julieta lhe mostrar a caderneta /Se você duvidar / . “  ]  .  







Em 1947,  demonstrando seu interesse  místico pelo espiritismo , é a vez  de “  PISEI  NUM DESPACHO “  .  [ / “  Desde o dia em que passei / Numa esquina e pisei num despacho/ Entro no samba meu corpo está duro/ Bem que procuro a cadência e não acho/ Meu samba e meus versos / Não fazem sucesso / Há sempre um porém/ Vou à gafieira/ Fico a noite inteira /  No fim não dou sorte com ninguém / Mas eu vou num canto, vou num pai de santo pedir / Qualquer dia / Que me dê um despacho, um banho de erva e uma guia / Tenho aqui um endereço um senhor que eu conheço me deu / Há 3 dias /  O mais velho é batata diz tudo na exata, é uma casa em / Caxias / . “ ]  . 




Blecaute grava , em 1949, mais um sucesso de Geraldo  “  QUE SAMBA BOM “ .  [ / “ Ô, que samba bom / Ô, que coisa louca/ Eu também tô aí, tô  ai / Que  é  que  há /  Também to nessa boca / (  BIS ) /  Muita bebida / Mulher sobrando / Tem até trouxa / Nesse samba se arrumando / Eu nesse samba / Vou me acabar / Num samba desses / Vale a pena a gente entrar / . “ ]  .








Em 1951, Geraldo demonstra sua veia política, elogiando ironicamente a criação  do “   MINISTÉRIO DA ECONOMIA “ iniciativa do Presidente Getúlio Vargas  . A letra descreve as agruras  de um habitante do morro .    [ “ /   Seu Presidente,/ Sua Excelência mostrou que é de fato/ Agora tudo vai ficar barato/ Agora o pobre já pode comer./  Seu Presidente,/ Pois era isso que o povo queria/ O Ministério da Economia/ Parece que vai resolver./ Seu Presidente,/  Graças a Deus não vou comer mais gato/ Carne de vaca no açougue é mato/ Com meu amor já posso viver / Eu vou buscar/ A minha nega pra morar comigo / Porque já vi que não há mais perigo/ Ela de fome já não vai morrer / A vida estava tão difícil / Que eu mandei a minha nega bacana / Meter os peitos na cozinha da madame / Em Copacabana / Agora vou buscar a nega / Porque gosto dela pra cachorro / E os gatos é que vão dar gargalhada de alegria Lá no morro /” ] .  



Apaixonado por uma cabrocha que abandonara o morro para trabalhar na Zona Sul, Geraldo criou  “ ESCURINHA “.           [  “ /   Escurinha, tu tens que ser minha de qualquer maneira / Te dou meu boteco, te dou meu barraco/ Que tenho no morro de Mangueira/ Comigo não há embaraço/ Vem que eu te faço , meu amor / A rainha da escola de samba /Que seu nego é diretor / Quatro paredes de barro, telhado de zinco / Assoalho no chão, só tu escurinha / É quem está faltando no meu barracão / Deixa disso bobinha, só nessa vidinha levando a pior / Lá no morro eu te ponho no samba / Te ensino a ser bamba, te faço a maior / Escurinha, vem cá! / . “ ]   .   





Em 1955, viu seu último sucesso gravado, o samba “ ESCURINHO  “,  o tema  conta a trajetória de um escurinho pacato que muda seu  comportamento e sai pelos morros comprando brigas e arrumando confusão .  [ “ / O escurinho era um escuro direitinho /  Agora está com a mania de brigão/ Parece praga de madrinha/ Ou macumba de alguma escurinha/ Que lhe fez ingratidão/ Saiu de “cana” ainda não faz uma semana/ Já a mulher do Zé Pretinho carregou/ Botou abaixo o tabuleiro da baiana/ Porque pediu fiado e  ela não fiou.  /Já foi no Morro da Formiga/ Procurar intriga/ Já foi no Morro do Macaco/ Já bateu num bamba/ Já foi no Morro dos Cabritos/Provocar conflitos /Já foi no Morro do Pinto/ Acabar com o samba.” /// . ] . 





Alcione , a Marrom , com seu potencial vocal e afinadíssima , interpreta , magistralmente , o sofrimento de uma mulher traída fruto da imaginação  de Geraldo Pereira  “ RESIGNAÇÃO “  [ “/ Quem é que lava roupa / Pra você dançar  ? / Quem é que não marca hora / Pra você chegar ? / Quem é que sofre com resignação / Quando você traz a gola do terno / Suja de batom / Mas ontem você faltou /Com respeito para mim / Trazendo o lenço manchado de carmim /. Não vá dizer que a dama / Dançou em seu bolso / Pois não é possível / Nem tampouco / O meu rosto você limpou / É preciso mudar de pensar / Porque a minha paciência / Pode se esgotar.../ . “ ]  .  






O que  torna o mundo do samba indignado é saber que Geraldo Pereira não fora cultuado como criador do samba sincopado. Suas canções abordavam temas ligados à paixão pelas mulheres  amadas , à vida dura e à realidade do morro ,e compunha  simplesmente suas obras , sambando e brincando com os conteúdos de suas canções , gesto tipicamente de um “malandro sambista “ , rótulo de sua própria imagem . Na galeria dos grandes compositores da ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA , está presente, entre eles , a imagem  de  GERALDO  PEREIRA . Não há espaço suficiente para desfilar aqui toda acervo musical de Geraldo Pereira :  “ , “CABRITADA MALSUCEDIDA “, / Bento fez anos/ E para almoçar me convidou / Me disse que ia matar um cabrito / Onde tem cabrito eu to, meu senhor , /E quando o come e bebe começou / No melhor da cabritada / A polícia e o dono do bicho chegou . /  Puseram a gente sem culpa, / No carro de Radio Patrulha e levaram, / Levaram também o cabrito,  / E toda a bebida que tinha, quebraram,  / Seu Comissário, zangado, / Não tava querendo ninguém dispensar, / O patrão da Sebastiana, / É que foi ao distrito, / E mandou me soltar / . “  ] .    
Em seguida  compôs a resposta para  “ Cabritada Malsucedida  cujo título é POLÍCIA NO MORRO    [ “ /   Polícia tá no morro / Atrás do cabrito do doutor  / Que o Bento matou e fez tambor  /  O comissário mandou dizer  /  Que a escola só sai  / Se o cabrito aparecer /  Fez ver a diretoria / Que toma a bateria / Encana o pessoal / Termina com a sujeira / Toma o apito e a bandeira / Acaba com o Carnaval / . “  ]  .   


“  SEM  COMPROMISSO  “  versa sobre  o comportamento de indignação do amado pela rejeição para dança  com sua companheira ,  alcançando ,  recentemente ,  grande sucesso na interpretação de Chico Buarque de Holanda   [ / “ Você só dança com ele/ E diz que é sem compromisso/ É bom acabar com isso/ Não sou nenhum pai João / Quem trouxe você fui eu / Não faça papel de louca / Pra não haver  bate-boca dentro do salão /  Quando toca um samba eu lhe tiro pra dançar / Você diz que não / Eu agora tenho par / E sai dançando com ele  / Alegre e feliz / Quando pára o samba / Bate palma, pede bis / . “ ]  .   Geraldo Pereira  foi enredo , com um samba  de Monarco  pela  Escola de Samba Unidos do Jacarezinho. Quem tiver interesse em conhecer profundamente vida e obra de Geraldo Pereira, recomendamos o livro :  “ UM ESCURINHO DIREITINHO “ , publicação de  Luís Fernando Vieira e Luís Pimentel Suetônio Valença , da editora, Relume Dumará.
    “   NOSSO  “ CANTINHO MUSICAL  “ , EM GRANDE HOMENAGEM  AO SAMBISTA DE FATO , AFIRMA  AOS AMANTES DO SAMBA QUE É SEMPRE PRAZEROSO ESTAR CONSTANTEMENTE COM O CANCIONEIRO DE   GERALDO PEREIRA  VIVIFICADO  EM NOSSA ALMA E EM NOSSA MEMÓRIA   “  !             --                                     
 
Waldemar Pedro Antonio
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