01/04/2016 às 18h00min - Atualizada em 01/04/2016 às 18h00min

Dois lobos mansos, criativos e harmoniosos: Haroldo e Edu

Haroldo e Edu
  O  CANTINHO  MUSICAL  dedica este espaço  para apresentar  dois compositores que pertencem ao mesmo clã onde a música os conduz para o eixo da criatividade  : HAROLDO e EDU LOBO .  Pai  e  filho que nasceram com uma brilhante estrela para luzir o quadro da MÚSICA  POPULAR  BRASILEIRA .  Pergunto  : quando Haroldo passa , o povo diz:_  lá vai o pai de Edu  ou quando Edu passa , o povo diz:_ lá vai o filho do Haroldo ? A popularidade desses compositores é tão idolatrada no mundo musical , que cabe ao questionamento detectar o mesmo  grau de valor a um e a outro . Ambos têm igual  nível de aceitação e conhecimento de suas  imagens .   Dentro de uma hierarquia   familiar ,  pedimos permissão para iniciarmos com o pai : HAROLDO LOBO .  Com toda certeza , HAROLDO e BRAGUINHA  contribuíram  com um enorme acervo de músicas  carnavalescas  para o reinado  de Momo. . Considerados exponenciais do carnaval brasileiro , ornamentaram e sustentaram durante muito tempo a  Festa momesca  , criando marchas e sambas  que alucinavam os foliões nas batalhas de confetes   .
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Haroldo Lobo ,  junto com vários parceiros  , contribuiu com verdadeiras  pérolas musicais . Desfilaremos   a  partir de agora  algumas  maravilhosas  canções que  abrilhantaram o cenário carnavalesco . Um  indígena  desdenha ,  inocentemente , as  intencionalidades no assédio da mulher branca querendo lhe dar um especial presente, e ele opta por “  ÍNDIO  QUER  APITO  “ .  [ “ / Ê, ê, ê, ê, ê / Índio quer apito / Se não der / Pau vai comer / Lá no banal mulher de branco / Levou pra índio colar esquisito / Índio viu presente mais bonito / Mim não quer colar / Índio quer apito / . “ ]  .






Haroldo e Wilson Batista compuseram um samba que foi grande sucesso na voz de Roberto Silva  , versando sobre um conquista  ardente  de  uma mulher modelo , comparando com uma que já demonstrou com seus predicados  muita afinidade com o que ele procura :  “  EMÍLIA “ . [ “ /  Eu quero uma mulher, que saiba lavar e cozinhar / Que de manhã cedo, me acorde na hora de trabalhar  /  Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz  /  Emília, Emília, Emília, eu não posso mais  /  Ninguém sabe igual a ela /  Preparar o meu café /  Não desfazendo das outras /  Emília é mulher /  Papai do céu é quem sabe /  A falta que ela me faz  /  Emília, Emília, Emília, eu não posso mais.. / . “  ]  .





Para a retomada de grande alegria  de outrora  , Haroldo , tendo o parceiro  Niltinho  na composição , manifesta , numa simples canção , o desejo ardente de expulsar de seu coração a  “  TRISTEZA  “ .  [ “ /  Por favor vai embora /  Minha alma que chora /  Está vendo o meu fim /  Fez do meu coração a sua moradia /  Já é demais o meu penar /  Quero voltar aquela vida de alegria /  Quero de novo cantar /  Lá, rá, lá, rá / Lá, rá, lá, rá, lá, rá, rá / Lá, rá, lá, rá, lá, rá, rá / Quero de novo cantar / ] . 






Tema muito comum nas músicas carnavalescas é bastante explorado em varias canções no período de Momo :  Depois de uma separação entre casais  a parte  infiel arrepende-se pedindo para voltar e , imediatamente , é negado o pedido , alegando que já há um novo amor em seu lugar  .  Este samba simples retrata justamente este tema onde uma parte usa de uma expressão totalmente de  descarte :   “  PRA  SEU  GOVERNO  “ .  [ “ /   Você não é mais meu amor /  Porque vive a chorar /  Prá seu governo /  Já tenho outra em seu lugar /  ( bis ) /  Pedi para voltar /  Porém você não me atendeu /  Agora o nosso amor /  Prá seu governo já morreu / . “ ]  .   


Triste surpresa aguarda Oscar que chega do trabalho e recebe um  bilhete , dizendo que sua amada partiu ,  porque a vida que ela quer levar é de liberdade pois gosta de viver na orgia . O impacto da notícia teve  início ,  quando a vizinha chamou : “  O  SEU  OSCAR  “   [ “ /  Cheguei cansado do trabalho /Logo a vizinha me chamou: /  Ò Seu Oscar  /  Tá fazendo meia hora /  Que a sua mulher foi embora / E um bilhete deixou  /  (Meu Deus que horror!) /  O bilhete assim dizia: /  Não posso mais. eu quero é viver na orgia! /  Fiz tudo para ver seu bem-estar /  Até no cais do porto eu fui parar /  Martirizando o meu corpo noite e dia /  Mas tudo em vão: ela é da orgia. (Parei!) / . “  ]  .  





Ainda alegrando  o carnaval ,  porque criava com  simplicidade  marchinhas  que pegavam logo , Haroldo Lobo  descreve  a resposta de uma mulher que fora  enganada , abandonando o amado , o que motivou nele muito pranto , sabendo ela do fato ocorrido teve uma reação dizendo :  “  ACHO-TE  UMA  GRAÇA  “ . [ “ /  Chora palhaço /  Chora que passa /  Pimenta nos olhos dos outros, é refresco /  Acho-te uma graça (bis) /  Querias fazer eu sofrer /  E até ver a minha desgraça /  Mas é que eu não durmo com os olhos dos outros /  Acho-te uma graça / . “ ]  . 






Haroldo sempre contribuiu com suas criações carnavalescas dando aos foliões marchas simples e com temas conhecidos e  variados . Nesta canção  ,  utiliza , como motivo criador ,  uma passagem da bíblia com a história de Adão e Eva , deixando transparecer , como de costume nas marchinhas  carnavalescas  , uma mensagem subliminar erótica  na  “  HISTÓRIA  DA  MAÇà “ . [ “ / A história da maçã /  É pura fantasia /  Maçã igual aquela /  O Papai também comia /  Eu li num almanaque /  Que num dia, de manhã /  Adão estava com fome /  E comeu a tal maçã /  Comeu com casca e tudo /  Não deixando nem semente /  Depois botou a culpa /  Na pobre da serpente / . “ ]  .





Haroldo compôs uma   marchinhas que fez muito sucesso no carnaval carioca  versando  sobre uma adoração política por Getúlio Vargas , quando voltou à Presidência da República , havendo um apelo para que todos novamente colocassem a fotografia do velhinho  em suas paredes  :  “   RETRATO  DO  VELHO  “ . [ “ /  Bota o retrato do velho outra vez /  Bota no mesmo lugar / ( bis ) /  O sorriso do velhinho /  Faz a gente trabalhar / (bis) /  Eu já botei o meu /  E tu, não vais  botar? /  Já enfeitei o meu /  E tu vais enfeitar ? /  O sorriso do velhinho /  Faz a gente trabalhar / (BIS) / . “ ]  .






Encerramos  com as obras do  PAI  LOBO  como a verdadeira marca da folia . Sabendo que no carnaval a temperatura é quente  , Haroldo  Lobo utiliza o motivo para compor uma marchinha que , com certeza , fora a mais cantada pelos foliões , ficando inesquecível nos bailes carnavalescos :   “  ALLAH-LA-Ô  “ . [ “ /  Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô /  Mas que calor, ô ô ô ô ô/ Atravessamos o deserto do Saara /  O Sol estava quente, queimou a nossa cara /  Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô  /  Mas que calor, ô ô ô ô ô ô... /  Viemos do Egito /  E muitas vezes nós tivemos que rezar /  Allah, Allah, Allah, meu bom Allah /  Mande água pro ioiô /  Mande água pra Iaiá /  Allah, meu bom Allah / . “ ]  .
 
 
  



Agora o  CANTINHO  MUSICAL  fará um panorama de algumas pérolas musicais do  FILHO  LOBO . Vinícius de Morais   compôs uma linda poesia e cedeu-a  a  Edu Lobo para que desse a ela uma bela ilustração  musical , o que se concretizou , a ponto de alguns críticos  e jornalistas considerarem como o marco inaugural de um novo estilo da Música Popular Brasileira .  Apresentada  , em 1965 , no 1º. Festival da MPB  e  consagrada em uma explosão vocal maravilhosa de Elis Regina , exteriorizando um misticismo  simbólico e uma fé diante de um verdadeiro milagre , demonstrado em um  “ ARRASTÃO “.     [ “ /  Eh! tem jangada no mar /Hei! hei! hei! / Hoje tem arrastão /Eh! todo mundo pescar / Chega de sombra João... / Jovi, olha o arrastão /  Entrando no mar sem fim /  Eh! meu irmão me traz /  Yemanjá prá mim...(2x) /  Minha Santa Bárbara /  Me abençoai /  Quero me casar /  Com Janaína.. /  Eh! puxa bem devagar /  Hei! hei! hei! /  Já vem vindo o arrastão /  Eh! é a Rainha do Mar /  Vem! /  Vem na rede João /  Prá mim!... /  Valha-me Deus /  Nosso Senhor do Bonfim /  Nunca jamais se viu /  Tanto peixe assim...(2x) /  Minha Santa Bárbara /  Me abençoai /  Quero me casar /  Com Janaína.. /  Eh! puxa bem devagar /  Hei! hei! hei! /  Já vem vindo o arrastão /  Eh! é a Rainha do Mar /  Vem! /  Vem na rede João /  Prá mim!... /  Valha-me Deus /  Nosso Senhor do Bonfim /  Nunca jamais se viu /  Tanto peixe assim...(3x) / . “ ]  .  

Edu  Lobo  foi  um compositor engajado no movimento estudantil de resistência musical durante a Ditadura Militar , expressando sempre o desagrado à situação política da época .  Esta canção foi vencedora do Terceiro Festival de Música da Record , em 1967 , tendo como tema a composição  instrumental , baseada na maneira de pontear instrumentos de corda , camuflando , metaforicamente , através de seus versos , toda opressão do regime da época , criando com Capinam a bela canção : “  PONTEIO  “ .  [ “  /Era um, era dois, era cem  / Era o mundo chegando  / E ninguém que soubesse que eu sou violeiro  / Que me desse amor ou dinheiro  / Era um, era dois, era cem  / Vieram pra me perguntar  / E você: - de onde vai, de onde vem?  / Diga logo o que tem pra contar  / Parado no meio do mundo  / Senti chegar meu momento  / Olhei pro mundo e nem via  / Nem sombra, nem sol, nem vento  / Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar / Era um dia, era claro, quase meio / Era um canto calado, sem ponteio / Violência, viola, violeiro / Era a morte ao redor, mundo inteiro / Era um dia, era claro, quase meio / Tinha um que jurou me quebrar / Mas não lembro de dor nem receio / Só sabia das ondas do mar / Jogaram a viola no mundo / Mas fui lá no fundo buscar / Se tomo a viola, ponteio / Meu canto não posso parar, não / Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar / Era um, era dois, era cem / Era um dia, era claro, quase meio / Encerrar meu cantar, já convém / Prometendo um novo ponteio / Certo dia que sei por inteiro / Eu espero não vá demorar / Esse dia estou certo que vem / Digo logo que vem pra buscar / Correndo no meio do mundo / Não deixo a viola de lado / Vou ver o tempo mudado / E um novo lugar pra cantar / Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar /.” ] .

Nesta  canção , há uma manifestação poética , versando sobre o ato de um adeus , expressada em  uma linda e romântica declaração amorosa de quem  parte  .  Edu Lobo  externa  na composição o seu maravilhoso lado lírico-amoroso  em “  PRA  DIZER  ADEUS  “ .  [ “ / Adeus / Vou pra não voltar / E onde quer que eu vá / Sei que vou sozinho / Tão sozinho amor / Nem é bom pensar / Que eu não volto mais / Desse meu caminho / Ah, pena eu não saber / Como te contar /
 
Que o amor foi tanto / E no entanto eu queria dizer / Vem / Eu só sei dizer / Vem / Nem que seja só / Pra dizer adeus / “ ]  .  Esta composição é o verdadeiro retrato de uma trajetória humana que denuncia  a falta de liberdade do homem .



Edu Lobo  descreve,  no roteiro poético da personagem , os ensinamentos ao neguinho sobre folclore ,  reza curadora e coragem  , entretanto recusa o aprendizado da liberdade , motivado  pela opressão política da época . A canção  simboliza , através de suas metáforas , um canto de alerta , cristalizado na maravilhosa voz de Elis Regina  :  “  UPA  NEGUINHO “ .  [ “ / Upa neguinho na estrada / Upa pra lá e pra cá / Vixi, que coisa mais linda / Upa neguinho começando a andar / Upa neguinho na estrada / Upa pra lá e pra cá / Vixi, que coisa mais linda / Upa neguinho começando a andar/  Começando a andar, começando a andar / E já começa a apanhar / Cresce neguinho me abraça / Cresce me ensina a cantar / Eu vim de tanta desgraça mas muito eu te posso ensinar / Capoeira, posso ensinar / Ziquizira, posso tirar / Valentia, posso emprestar / Liberdade só posso esperar / . “  ]  . 
           EDU  LOBO  é um artista com muitas versatilidades dentro do mundo musical . Além de emérito  compositor , contribuindo pelo o enriquecimento da Música Popular brasileira  com suas belas canções , edificou , para os grandes sucessos do teatro e do cinema ,  um número incalculável  de inteligentes trilhas sonoras . O CANTINHO MUSICAL  encerra esta pequena amostra , achando que foi suficiente para se ter uma  noção do que PAI e FILHO  LOBO  são capazes de criar e recriar lindas composições que se eternizam no cenário da MÚSICA  POPULAR  BRASILEIRA .

   O  ENDEUSAMENTO  DE ARTISTAS QUE  ESCREVEM  SEUS NOMES  NOS  ANAIS  PERPÉTUOS  DA MÚSICA  POPULAR  BRASILEIRA , ATRAVÉS  DE SUAS  CRIAÇÕES , É  BASICAMENTE  SUFICIENTE  PARA  A  ELES  DEDICAR  RESPEITO , RECONHECIMENTO  E  MUITO  AMOR .  O  QUE  ENTRISTECE  É  VER  NA  APRESENTAÇÃO  DE  BELAS  CANÇÕES  A CAMUFLAGEM  DOS  VERDADEIROS  CRIADORES  , FICANDO AUSENTES  DA LUMINOSIDADE  ADOTADA  PELOS  DIVULGADORES . O  CANTINHO  MUSICAL  ESPERA QUE TENHA SIDO  O  LUZEIRO  DAS OBRAS  DOS   DOIS  LOBOS   MANSOS  , CRIATIVOS  E HARMONIOSOS :      “    HAROLDO   e   EDU  “          

Waldemar  Pedro  Antonio            e-mail  :  [email protected]
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