22/04/2016 às 16h49min - Atualizada em 22/04/2016 às 16h49min

Adoniran Barbosa desembarca no trem das onze

Hoje reservamos o espaço desta coluna para uma viagem com o SAMBA PAULISTA embarcados no TREM DAS ONZE , cujo maquinista é um compositor-símbolo de São Paulo chamado JOÃO RUBINATO , mais conhecido artisticamente como ADONIRAN BARBOSA , retirado ADONIRAN  do nome de um amigo de copo  e  BARBOSA veio do sambista Luiz BARBOSA, ídolo de João Rubinato . Nasceu em Valinhos , interior do estado , onde exerceu várias tarefas  que rendessem algum trocado. Quando a família se mudou para Santo André, continuou com outras tarefas, sendo tecelão , serralheiro , garçom , carregador.

       O artista surgiria em um programa de calouros na Rádio Cruzeiro do  Sul . Não se contentando em  ser cantor , tornou-se o compositor mais expressivo do samba paulista nos legando uma verdadeira coleção musical . Cantou a cidade de  São Paulo , seus tipos , sua gente , seus amores . Consagrou nomes , marcou o modo simples e errado de falar do homem do povo em um dialeto tipicamente caipira  . Para entender um pouco o que ele realmente  foi  e significou , é necessário mais que simplesmente perceber suas qualidades artísticas de marco da Música Popular Brasileira . Também  é  preciso notar sua principal característica : transparência .  Sua criação era  suficientemente transparente para que pudéssemos olhar através dele e enxergar as ruas da cidade , os cortiços  e o modo de vida do povo se processando nos silêncios , nos acordes e nos versos de seus sambas .

      A carreira de Adoniran como compositor só explodiria na década de 50 com a gravação de SAUDOSA MALOCA ,  firmando assim sua imagem de grande cronista musical . Em suas andanças pelas ruas da cidade em companhia de seu cãozinho , conheceu moradores de  rua e com eles participava das conversas e dos goles de aguardente. Foi quando estabeleceu amizade com Joca e Mato Grosso. Retornando de uma  viagem , viu que a maloca , onde os amigos dormiam , fora  demolida , daí a criação de “ SAUDOSA MALOCA “ [  “  Se o senhor não tá lembrado / Dá licença de contá / Que aqui onde agora está / Esse edifício arto / Era uma casa véia / Um palacete assobradado / Foi aqui , seu moço / Que eu , Mato Grosso e o Joca / Construimo nossa maloca / Mas , um dia / Nóis nem póde se alembrá / Veio os homes c’as ferramenta / O dono mando derrubá /  Peguemos todas nossas coisas / E fumos pro meio da rua / Apreciá a demolição / Que tristeza que nós sentia / Cada táuba que caía / Doía no coração / Mato Grosso quis gritá / Mas em cima eu falei: / Os homis tá cá razão / Nós arranja outro lugar / Só se conformemo quando o Joca falou: / "Deus dá o frio conforme o cobertor" / E hoje nós pega páia nas gramas do jardim / E prá esquecê, nós cantemos assim: / Saudosa maloca, maloca querida / Dim-dim donde nós passemos os dias feliz de nossa vida / Saudosa maloca, maloca querida / Dim-dim donde nós passemos os dias feliz de nossas vidas / . “  ]  “  .   


O motivo de SAUDOSA MALOCA  fez  Adoniran criar um samba que amparasse os sem-teto : “ ABRIGO DE VAGABUNDO “ .  [  “ Eu arranjei o meu dinheiro / Trabalhando o ano inteiro / Numa cerâmica / Fabricando potes / E lá no alto da Moóca / Eu comprei um lindo lote dez de frente , dez de fundo/ Construí minha maloca/ Me disseram que sem planta / Não se pode construir  / Mas quem trabalha tudo pode conseguir / João Saracura que é fiscal da  Prefeitura / Foi um grande amigo, arrumou tudo pra mim / Por onde andará Joca e Mato grosso / Aqueles dois amigos / Que não quis me acompanhar / Andarão jogados na avenida São João / Ou vendo o sol nascer quadrado na detenção / Minha maloca a mais linda que eu já vi / Hoje está legalizada ninguém pode demolir / Minha maloca a mais linda deste mundo / Ofereço aos vagabundos / Que não têm onde dormir  “  ]  . 




Contam que , em um de seus namoricos em uma cidade distante da sua em que o último transporte férreo saía às onze horas da noite ,  inspirou o criador para a composição de um dos sambas bastante famosos. Cada vez mais respeitado como compositor , Adoniran volta a caminhar  pelos trilhos do sucesso : é a vez de “ TREM DAS ONZE “, música  lançada pelos Demônios da Garoa , chegando forte ao Carnaval e tomando conta do povo na rua , cantada com muito entusiasmo.   [  “  Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito, amor , mas não pode ser / Moro em Jaçanã / Se eu perder esse trem / Que sai agora às onze horas / Só amanhã de manhã / Além disso mulher / Tem outra coisa , / Minha mãe não dorme / Enquanto eu não chegar / Sou filho único/ Tenho minha casa para olhar / E eu não posso ficar. “  ] .  




Adoniran recolhe uma história retirada de uma notícia de jornal que transcorreu em um cenário cruel e expressa , em uma canção ,  um lirismo na manifestação sofrida do amado , lamentando a perda de sua querida  , por ignorar suas recomendações de alerta para atravessar a rua ,  retratando musicalmente o drama de IRACEMA .[  “  Iracema , eu nunca mais eu te vi / Iracema meu grande amor foi embora / Chorei, eu chorei de dor porque / Iracema meu grande amor foi você / Iracema , eu sempre dizia / Cuidado ao travessar essas ruas / Eu falava e você não me escutava não / Iracema você travessou contra mão / E hoje ela vive lá no céu / Ela vive bem pertinho de nosso Senhor / De lembrança guardo apenas suas meias e seus sapatos /  Iracema, eu perdi o seu retrato / .  “  ]   .   Controvérsia na história musical sobre um possível convite para ida à casa de Ernesto Paulelli , amigo de Adoniran ,  fazer um samba. 



Segundo  o compositor , Arnesto , como ele o chamava ,  foi um furão , dando “ bolo “ na turma , e , posteriormente , desmentida a história por Ernesto , pivô da controvérsia , em  “ SAMBA DO   ARNESTO “. [  Arnesto nos convidou pro samba ele mora no Brás / Nós fumos não encontremos ninguém “/ Nós vortemos com uma baita de uma reiva/ Da outra vez  nós num vai mais / Nós num semos tatu /  No outro dia encontremo com Arnesto / Que pediu desculpas mais nós num aceitemo / Isso não se faz , Arnesto , nós não se importa / Mas você devia ter punhado um recado na porta /....”.... ( breque falado )  anssim : oia turma , num deu pra esperá . Aduvido que isso num faz mar, e num tem importança . De otra veis nóis te carça a cara  “  ]  . Em seu depoimento “ falar errado é uma arte senão vira deboche “ . O jeito coloquial de falar dos paulistanos , usado em suas canções , foi pretexto para a censura tentar vetar , em um álbum lançado por Adoniran com canções já gravadas , algumas músicas , dentre elas : “ SAMBA DO ARNESTO “ e “ TIRO AO ÁLVARO “ , esta em parceria com Oswaldo Moles . Para que as referidas músicas pudessem ser  liberadas ,  deveriam virar : SAMBA DO ERNESTO e TIRO AO ALVO , e ainda modificando algumas  palavras no interior dos versos como : revorve , tauba , artomove  e outras . Adoniran não modificou sua obra, deixando para gravar depois que a ignorância passasse.  


Em uma interpretação  genial , Elis Regina gravou  “ TIRO AO ÁLVARO .   [   “  De tanto levar / Frechada do teu olhar /Meu peito até / Parece sabe o que / Tauba / de tiro ao Álvaro / Não tem mais / Onde furar , não tem mais / Teu olhar mata mais / Que bala de carabina / Que veneno estricnina / Que peixeira de baiano / Teu olhar mata / Mais que atropelamento / de artomove / Mata mais / Que bala de revorve . “   ] . A nobre parceria com Vinícius de Morais , embora nunca chegaram a se conhecer , deu-se , quando Araci de Almeida recebeu uma carta com um poema de Vinícius , dizendo para fazer o que bem entendesse.






Sendo amiga de Adoniran , entregou para musicar “  BOM  DIA  TRISTEZA  “  [    / “  Bom dia tristeza / Que tarde tristeza / Você veio hoje me ver / Já estava ficando até meio triste / De estar tanto tempo longe de você / Se chegue tristeza / Se sente comigo / Aqui nesta mesa de bar / Beba do meu copo / Me dê o seu ombro / Que é para eu chorar / Chorar de tristeza / Tristeza de amar / “  ]  .








Matilde , a segunda esposa de Adoniran , com quem viveu a vida toda , certa madrugada ,despertou-a com gritos estridentes de “ Joga a chave “. O compositor vivia para a boêmia e numa de suas noitadas , de fogo, perde a chave de casa e não há outro jeito senão acordá-la . Foi repleta a discussão no dia seguinte , mas ele deu por encerrado o episódio , compondo “ JOGA A CHAVE “      [     “  Joga a chave , meu bem / Aqui fora ta ruim demais / Cheguei tarde perturbei teu sono / Amanhã eu não perturbo mais / Faço um furo na porta / Amarro um cordão no trinco / Pra abrir pro lado de fora / Não perturbo mais o teu sono / Chego à meia-noite e cinco / Ou então a qualquer hora .. “  ] . 





Sentado em uma mesa de bar , sem motivação para compor , de repente invade o recinto um inseto que o motivou e fez luzir um pré-texto ( inspiração antes da construção da música , motivo do hífen ) na mente do compositor . Em uma alusão comparativa e presunçosa , compôs “  AS   MARIPOSAS “.  [   “ As mariposa quando chega o frio / Fica dando vorta  em vorta da lâmpida pra se esquentar/ Elas roda , roda , roda e dispois se senta/ Em cima do prato da lâmpida para descansar / Eu sou a lâmpida / E as muié é as mariposa / Que fica dando vorta em vorta de mim / Toda noite só pra me beijar  “.   ] . 






Adoniran sempre foi solidário aos amigos em todos problemas . João e Cibide , dois companheiros , perderam os barracos com seus pertences , resultante de um grande temporal. O compositor, sensibilizado com a situação dos dois , deu seu apoio  em formato de poesia harmoniosa , compondo a música   “   AGUENTA  A  MÃO  ,  JOÃO ! “ [ “ Não reclama / Contra o temporal / Que derrubou teu barracão / Não reclama / Guenta a mão , João / com Cibide / Aconteceu coisa pior / Não reclama / pois a chuva / Só levou a tua cama / Não reclama / Guenta a mão , João / Que amanhã tu levanta / Um barracão muito melhor ..... “  ] . 






Em parceria com Carlinho Vergueiro , Adoniran construiu uma cena viva do trabalhador braçal , retratando o momento de repouso para refeição dos pedreiros da construção. Em um relato minucioso , a música faz-nos visualizar e imaginar um  cenário através dos versos de “ TORRESMO À MILANESA “ .   [   “  O enxadão da obra bateu onze horas / Vam s’embora , João / Vam s’embora , João  (  bis  ) / Que é que você troxe na marmita , Dito ? / Truxe ovo frito , truxe ovo frito  /  E você beleza , o que é que você troxe / Arroz com feijão e torresma à milanesa / Da minha Teresa ! / Vamos armoçar / Sentados na calçada / Conversar sobre isso e aquilo / Coisas que nóis não entende nada / Depois, puxá uma paia / Andar um pouco / Pra fazer o quilo / É dureza João! / É dureza João! / É dureza João! / É dureza João! / O mestre falou / Que hoje não tem vale não / Ele se esqueceu / Que lá em casa não sou só eu / . “  ] . 



Nesta música  ,  Adoniran conta que , com a corda “ mi “ do seu cavaquinho , fez uma aliança para Matilde , sua companheira de mais de 40 anos , como  “  PROVA  DE  CARINHO  “ . [ “ /  Com a corda mi / Do meu cavaquinho / Fiz uma aliança pra ela, / Prova de carinho. (bis) / Quantas serenatas / Eu tive que perder, / Pois o cavaquinho / Já não pode mais gemer. / Quanto sacrifício / Eu tive que fazer, / Para dar a prova pra ela / Do meu bem querer . / “ ]  .   







O italiano era a língua que os pais de Adoniran falavam com os filhos , uma  mescla de italiano com paulistano . Preservando a origem linguística dos pais e impulsionado pelo amor ao samba , surgiu o   “  SAMBA  ITALIANO “ . [ “ /  Falado: / "Gioconda, piccina mia,  ( Giovana , minha pequena ) / Va brincar en il mare en il fondo, ( vai brincar ali no mar , no fundo ) / Mas atencione per tubarone, ouvisto? ( Mas atenção com o tubarão ,ouviu ? ) / Hai capito, mio San Benedito?". ( Entendeu , meu São Benedito ? ) / Piove, piove, ( chove , chove ) / Fa tempo che piove qua, Gigi, (  Faz tempo que chove aqui , Gigi ) / E io, sempre io, ( E eu , sempre eu ) / Sotto la tua finestra ( Embaixo da sua janela ) / E voi senza me sentire ( E você sem me sentir ) /  / Ridere, ridere, ridere ( ri , ri , ri ) / Di questo infelice qui ( deste infeliz aqui ) / Ti ricordi, Gioconda, ( Se lembra , Gioconda , ) / Di quella sera en Guarujá ? ( Daquela tarde no Guarujá ? ) / Quando il mare te portava via ( Quando o mar te levava pra longe ) / E me chiamaste: "Aiuto, Marcello! ( E me chamaste : Ajuda , Marcelo ! ) / La tua Gioconda ha paura di quest'onda" ( A sua Gioconda está com medo dessa onda ) / . “  ]  .

       Adoniran despertou , através de suas canções e de seus personagens , a vida amargurada da classe humilde , com uma linguagem do povo que retrata as condições sociais das pessoas que atuaram como centro de suas crônicas musicais . Alguns dos componentes da vida e da música de Adoniran Barbosa eram  , inevitavelmente , elementos espalhados  pelas ruas e pelos lugares em que ele transitou , nos bairros e nas vilas paulistanas. Mas  , além disso , são termos e palavras que contam momentos da história do Brasil e do seu povo .

       Mais uma vez o CANTINHO MUSICAL se acanha por não ter conseguido calçar em seu sapato 34 , divulgador das belas canções da Música Popular Brasileira , um maravilhoso e imenso pé musical 45 de Adoniran Barbosa .  Diante de sua enorme galeria de belos sambas populares , o espaço limitado desta crônica reverencia , através de algumas de suas  pérolas musicais ,  O GRANDE POETA POPULAR , ADONIRAN BARBOSA.
 
     “  A  INTENSA PARTICIPAÇÃO DE  ADONIRAN BARBOSA , O ÍCONE QUE MELHOR TRADUZ A CULTURA MUSICAL DO POVO PAULISTANO ,  NO IMENSO CANCIONEIRO DA VIDA BOÊMIA DE SÃO PAULO , REFLETE HOJE NO INCONSCIENTE DAS PESSOAS UMA BELA MANEIRA DE APRECIAR UMA LINGUAGEM DIALETAL CAIPIRA QUE TRAZ CONSIGO A PUREZA E O AMOR DA MUSICALIDADE ! “
 
WALDEMAR  PEDRO  ANTONIO            E-mail  :   wpantonio@terra.com.br
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