22/04/2016 às 19h37min - Atualizada em 22/04/2016 às 19h37min

Semana dos poemas de Olavo Bilac

OLAVO  BRÁS MARTINS  DOS  GUIMARÃES  BILAC  ,  depois de desistir  dos  cursos de  Medicina  e  Direito ,  dedicou-se às letras como jornalista , escrevendo crônicas e artigos diários para diversos jornais .  Tal atividade impulsionou-o  ao mundo poético , tornando-se o mais popular poeta parnasiano do Brasil . Escritor cuja vida não pode ser separada de sua obra.  Sua vida e sua  obra , entre 1865  e  1918 ,  datas de seu nascimento e de sua morte ,  se acham de total maneira entrelaçadas que é muito difícil considerá-las em separado . Suas poesias  versam , principalmente , pela paixão da beleza ideal , da beleza helênica , da busca incessante de uma perfeição de formas imutáveis e absolutas .  Há na alma de Bilac uma inspiração romântica tão consoante com nossa índole literária  , que não extinguiu totalmente ao influxo da poética parnasiana .  Desfilaremos  , a  partir de agora ,  neste espaço  do  “ CANTINHO  POÉTICO  “ ,  algumas relíquias  desse poeta que , além de todas características  expostas  , soube abraçar também , em seus poemas , o orgulho de uma brasilidade .

Este   poema faz  uma abordagem sobre o histórico da Língua  Portuguesa  . Em uma magistral visão semântica do texto  literário ,  observa-se  , metaforicamente , que  “ Última  flor  do  Lácio , inculta e bela “  refere-se ao fato de que a língua portuguesa ter sido a última língua neolatina formada  a  partir do  latim  vulgar . O Poeta enfatiza a beleza do idioma português  em suas diversas expressões poéticas  como : “ canções de ninar “ , “ emoções “ , “ oratórias “ , “ orações “  e  “ louvores “ . Há na poesia um fechamento de  ouro  ao cabo do soneto , em uma referência a  CAMÕES  que consolidou a língua portuguesa em sua epopéia ,  “  OS  LUSÍADAS “ .

 “  LÍNGUA  PORTUGUESA  “

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...


Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!


Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,


em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
 
Bilac  ,   neste soneto , exterioriza  , liricamente , as formas de se ter sem sofrimento uma paixão . A sua abordagem poética direciona para a perfeição de uma carga amorosa   equilibrada , vivendo sempre uma paixão   desprovida de exagero que consome o relacionamento entre os amantes  . Expressa também que uma relação de amor deve sempre pautar em estima e  respeito , evitando a profunda mágoa que desperta , às vezes , na convivência entre pessoas envolvidas na paixão  .

INCONTENTADO

Paixão sem grita, amor sem agonia, 
Que não oprime nem magoa o peito, 
Que nada mais do que possui queria, 
E com tão pouco vive satisfeito. 

Amor, que os exageros repudia, 
Misturado de estima e de respeito, 
E, tirando das mágoas alegria, 
Fica farto, ficando sem proveito. 

Viva sempre a paixão que me consome, 
Sem uma queixa, sem um só lamento! 
Arda sempre este amor que desanimas! 

E eu tenha sempre, ao murmurar teu nome, 
O coração, malgrado o sofrimento, 
Como um rosal desabrochado em rimas. 
 
Há neste poema um recurso literário  cujo fenômeno é centrar o tema sobre poesia em um poema e que , tecnicamente ,  denomina-se  METAPOEMA  . Começa o soneto abordando o grande ofício de tecer uma obra poética  em  local ideal onde as ideias  fluem , mesmo com dor e teimosia . Nos  versos   finais , demonstra o resultado na feitura de um poema , realçando a beleza identificada com os princípios clássicos  : riqueza  e sobriedade . E fecha a poesia comparando a arte literária a uma beleza  , afirmando que é na simplicidade que a poesia se torna bela .
 
A um Poeta                                                           
                                                             
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

 
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica  mas  sóbria, como um templo grego.

 
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

 
Porque a beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimigo do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
 
 
No  poema  “ Última Página “ , Bilac  entrelaça  três  eixos semânticos  basicamente comparativos : a natureza , as estações do ano , e suas amadas .  Associando com  base conceptual cada eixo com os fenômenos que identificam  cada passagem no tempo através de um lirismo que mais se aproxima das caracterizações do Romantismo . Ao final da  poesia , expressa a efemeridade  dos sentimentos amorosos , desconhecendo o verdadeiro sentido do amor  e a brevidade das estações do ano  , deixando transparecer ,  na omissão de um dos eixos , que a natureza permanece com verdadeiro cenário ,  esperando por outros novos eixos .

 

Última Página

Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos
Numa palpitação de flores e de ninhos.
Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos
(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.

Verão. (Lembras-te, Dulce?) À beira-mar, sozinhos.
Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;
E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,
Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...

Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,
Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,
(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...

Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?
Passam as estações e passam as mulheres...
E eu tenho amado tanto! E não conheço o Amor!
 
O  título do poema abaixo retoma o verso de abertura do livro Inferno , que é a primeira parte d’A Divina  Comédia  , obra do poeta italiano Dante  Alighieri . No poema de  Dante , há evidenciado, metaforicamente , um caminho a ser percorrido pelo protagonista em busca de sua amada. No poema de Bilac , motivado pelo conteúdo poético de Dante , percebe-se que é um eu-lírico masculino que lamenta a dor de separar-se de sua amada após anos juntos . O soneto segue todo rito formal de uma  composição parnasiana .
 
“  NEL  MEZZO  DEL  CAMIN ...  “
 
Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo .

Como  fechamento desta pequena demonstração , optamos por apresentar o “ Hino  à  Bandeira  do  Brasil “ , obra vitalícia de Olavo Bilac , onde demonstra seu imenso patriotismo e destaca as peculiaridades históricas e literárias , objetivando transmitir conhecimentos sobre os símbolos que caracterizam o Brasil  República , através da construção poética da obra , com finalidade de suscitar um maior senso patriótico em cada brasileiro . 

                           HINO  À  BANDEIRA 
 
Salve  ,  lindo pendão da esperança,
Salve, símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
Contemplando o teu vulto      sagrado,
Compreendemos o nosso dever;
E o Brasil, por seus filhos amado,
Poderoso e feliz há de ser.

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor ,
Paira sempre, sagrada bandeira,
Pavilhão da Justiça e do Amor!

Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
   
 
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