08/05/2016 às 15h40min - Atualizada em 08/05/2016 às 15h40min

Semana dos poemas de Ferreira Gullar

WALDEMAR PEDRO ANTONIO
    JOSÉ  RIBAMAR  FERREIRA , com pseudônimo  FERREIRA  GULLAR  , mesclou “ Gullar “ do sobrenome da mãe e “ Ferreira “ , sobrenome da família . Além de ser um eminente Poeta ,  sempre teve convicção política como militante do Partido Comunista Brasileiro , o que  lhe custou um exílio durante a ditadura militar , e  é ocupante ,  com enorme merecimento , da cadeira  37   da ABL , Academia Brasileira de Letras . Ferreira Gullar centraliza as temáticas de suas poesias na questão  social , denunciando os problemas relacionados aos  fatos da sociedade como um todo , dentre eles a desigualdade existente . Testemunha de uma realidade contraditória e injusta , Gullar recriou em seus versos a lucidez e a revolta frente a um tempo vazio de sentido . A diversificada produção do Poeta origina-se de um múltiplo escritor que tem sua ótica poética aguçada no descompasso social diante da transparência do mundo .

        No metapoema   abaixo , Gullar expressa , em seu discurso poético , uma forma de protesto contra a desumanização e a subvida brasileira em uma realidade sofrida do cotidiano e nas desgraças de nosso tempo . As descrições dos problemas sociais negadas em cada estrofe da poesia afastam-no de qualquer estímulo para se compor uma criação poética. 

Não há vagas
 
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.
 
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
 
– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
 
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

     O Poeta demonstra uma enorme vontade de viver , apesar dos grandes problemas que maculam a tranqüilidade ,  como : a falta de liberdade , o custo de vida , o baixo salário .  Mesmo diante de obstáculos  proibitivos , Gullar   constrói  , com muita  liberdade ,  sua criação poética   sempre fazendo referência à opressão militar ,  certamente com bastante  convicção  de que  a vida vale a pena . 

"Dois e Dois são Quatro"

Como dois e dois são quatro 
Sei que a vida vale a pena 
Embora o pão seja caro 
E a liberdade pequena 
Como teus olhos são claros 
E a tua pele, morena 
como é azul o oceano 
E a lagoa, serena 

Como um tempo de alegria 
Por trás do terror me acena 
E a noite carrega o dia 
No seu colo de açucena 

- sei que dois e dois são quatro 
sei que a vida vale a pena 
mesmo que o pão seja caro 
e a liberdade pequena.

        
       Fazer poesia cujo tema é a própria poesia , denomina-se  METAPOESIA . Nas duas  criações  abaixo , Gullar , no poema FALAR , extrapola sua mensagem poética na determinação do silêncio na fala do poeta  por ocasião de se criar a obra literária . Gullar paradoxalmente desfila , através de uma bela linguagem figurada , uma contradição entre o falar e o se calar diante de uma inspiração artística . No  poema “ NÃO-COISA “ ,  há um demonstrativo perfeito de uma visão enigmática das palavras poéticas , em relação às suas  formas e aos seus  conteúdos , quando o poeta tenta ,  no poema , dizer o indizível e com isso expondo o vazio da obra poética  .


Falar

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.

Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Não-coisa

O que o poeta quer dizer
no discurso não cabe
e se o diz é pra saber
o que ainda não sabe.

Uma fruta uma flor
um odor que relume...
Como dizer o sabor,
seu clarão seu perfume?

Como enfim traduzir
na lógica do ouvido
o que na coisa é coisa
e que não tem sentido?

A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes

só o sabes no corpo
o sabor que assimilas
e que na boca é festa
de saliva e papilas

invadindo-te inteiro
tal do mar o marulho
e que a fala submerge
e reduz a um barulho,

um tumulto de vozes
de gozos, de espasmos,
vertiginoso e pleno
como são os orgasmos

No entanto, o poeta
desafia o impossível
e tenta no poema
dizer o indizível:

subverte a sintaxe
implode a fala, ousa
incutir na linguagem
densidade de coisa

sem permitir, porém,
que perca a transparência
já que a coisa ë fechada
à humana consciência.

O que o poeta faz
mais do que mencioná-la
é torná-la aparência
pura — e iluminá-la.

Toda coisa tem peso:
uma noite em seu centro.
O poema é uma coisa
que não tem nada dentro,

a não ser o ressoar
de uma imprecisa voz
que não quer se apagar
— essa voz somos nós .
  
     Maravilhoso poema que versa sobre a IDA e o REGRESSO  das coisas , incluindo , principalmente , as relações amorosas . Como tema central , Gullar deixa que cada leitor descubra , através dos versos , as intenções subliminar contidas na poesia   ( o  que o texto induz sem estar expresso  ) , na referência  mítica que o poema proporciona .


O QUE SE FOI

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?
 
 
     A  expressão “ cantiga “ remete-nos a um sentimento lírico-amoroso onde o tema “ amor “ é cantado de uma forma sublime . O poema abaixo é o canto da paixão em que o amado usa de uma vassalagem amorosa  para que  , mesmo diante da morte , sua amada perpetue-o em  um espaço junto a ela para embarcar  seus sentimentos .

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve. 

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração. 

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar. 

E se aí também não possa
por  tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
 
        Em uma visão aguçadamente  política , Gullar  evoca , em sua poesia, uma denúncia sobre a realidade do Nordeste Brasileiro  com o poder dos coronéis que mandam  e desmandam  no povo subordinado a eles , tratando a todos com muita desumanidade , demonstrando , assim ,   seu poder e  sua força , e o  Poeta denuncia  no poema a realidade dos fatos .

João Boa Morte - Cabra Marcado para Morrer

 
Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho, 
só mata cabra da peste, 
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.

Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.

João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa, 
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais, 
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro.

Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram, 
o coronel respondeu:
Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer, 
vai tomar chá de sumiço.



 
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