27/05/2016 às 15h39min - Atualizada em 27/05/2016 às 15h39min

Poemas de Álvares de Azevedo

        O  Romantismo  Brasileiro desenvolveu-se em  três gerações temáticas :  1ª. geração  : INDIANISMO  ;  2ª. geração:  MAL- DO- SÉCULO ;  terceira geração : CONDORISMO .   O CANTINHO POÉTICO  reserva  seu espaço  para a divulgação de algumas poesias de  Manuel Antônio  ÁLVARES  DE  AZEVEDO  .  Pertencente à  segunda geração do  Movimento  Romântico Brasileiro cujas  temáticas eram influenciadas  pelos  sentimentos  poéticos  de LORD  BYRON , geração denominada por   MAL-DO-SÉCULO . Nenhuma obra de poeta brasileiro teve  origem absolutamente literária  como desse adolescente de vida pacata e estudiosa , morto antes de completar 21 anos , autor de uma quantidade de escritos em verso e prosa quase inacreditável  para seu tempo de vida.  ÁLVARES  DE AZEVEDO ,  poeta ultrarromantista    ( expressão dada no Brasil aos seguidores  do byronismo europeu ) , manifesta suas temáticas em pleno sentimento pessoal  e apaixonado ,   além do pessimismo doentio , tédio pela vida , obsessão pela morte  , consciência da solidão e  saudosismo  exacerbado , impregnando nos textos  a desilusão e a tristeza . De  sua obra , selecionamos  comoventes e célebres poesias  que passamos  a desfilar .

               No  poema  seguinte ,  pode-se  perceber que  é uma clara reflexão à morte expressa pelo Poeta  e observa-se , também ,  que é uma alusão à família que é sua primeira preocupação , pois sabe que ela sofreria  com sua morte , desabafando  , por um lado , pelo sofrimento dela  por causa de sua ausência ; por outro , que seria um alívio para a alma .

Se eu morresse amanhã 

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva 
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

      Há no poema  , “ Lembranças  de  Morrer “ ,  um enorme sentimento de melancolia e uma cadência angustiada do poeta .  Diante da existência angustiante , somente a morte simbólica poderia ser a saída . Ainda em versos líricos destina pela virgem seus dias de vida , mas esse desejo não se concretiza  e por isso a morte é buscada como meio de libertação dos sofrimentos , numa linguagem que figura uma possibilidade  de encanto .

LEMBRANÇAS  DE  MORRER 

Eu deixo a vida como deixa o tédio 
Do deserto, o poento caminheiro, 
- Como as horas de um longo pesadelo 
Que se desfaz ao dobre de um sineiro; 

Como o desterro de minh’alma errante, 
Onde fogo insensato a consumia: 
Só levo uma saudade - é desses tempos 
Que amorosa ilusão embelecia. 

Só levo uma saudade - é dessas sombras 
Que eu sentia velar nas noites minhas. 
De ti, ó minha mãe, pobre coitada, 
Que por minha tristeza te definhas! 

Se uma lágrima as pálpebras me inunda, 
Se um suspiro nos seios treme ainda, 
É pela virgem que sonhei. que nunca 
Aos lábios me encostou a face linda! 

Só tu à mocidade sonhadora 
Do pálido poeta deste flores. 
Se viveu, foi por ti! e de esperança 
De na vida gozar de teus amores. 

Beijarei a verdade santa e nua, 
Verei cristalizar-se o sonho amigo. 
Ó minha virgem dos errantes sonhos, 
Filha do céu, eu vou amar contigo! 

Descansem o meu leito solitário 
Na floresta dos homens esquecida, 
À sombra de uma cruz, e escrevam nela: 
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

    Na poesia medieval “ morrer de amor “ ou  “ coita de amor “  era um imenso sofrimento , fruto pela idealização da mulher amada .  Com grandes influências literárias das “ Cantigas de Amor “ , poesia lírico-amorosa no período medieval , Álvares  de   Azevedo  demonstra todo sentimento “ dorido”  do amor nos desejos expressos em cada verso e o encantamento exacerbado  pela mulher amada com verdadeiras declarações  apaixonantes .

Amor

Amemos! Quero de amor 
Viver no teu coração! 
Sofrer e amar essa dor 
Que desmaia de paixão! 
Na tu’alma, em teus encantos 
E na tua palidez 
E nos teus ardentes prantos 
Suspirar de languidez! 

Quero em teus lábio beber 
Os teus amores do céu, 
Quero em teu seio morrer 
No enlevo do seio teu! 
Quero viver d’esperança, 
Quero tremer e sentir! 
Na tua cheirosa trança 
Quero sonhar e dormir! 

Vem, anjo, minha donzela, 
Minha’alma, meu coração! 
Que noite, que noite bela! 
Como é doce a viração! 
E entre os suspiros do vento 
Da noite ao mole frescor, 
Quero viver um momento, 
Morrer contigo de amor!
 
     No poema seguinte , Álvares de Azevedo  extrapola unindo , na temática da poesia , o imagístico com o real . A imagem da virgem , fruto do amor ideal , é simbolizada e projetada no corpo da  simples lavadeira. Nos momentos de sua ânsia lírica em transferir a imagem da mulher idealizada , o Poeta elege a lavadeira que estendia roupas no varal , dizendo É ela! É ela! É ela! É ela!  A figura da lavadeira no poema é a de uma mulher que não se pode possuir . Dessa maneira , o poema afasta a possibilidade de concretização do ato sexual , confirmando a idealização  da mulher  no período romântico .

É ela! É ela! É ela! É ela!

É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!

     O poema “SONETO “ caracteriza-se pela descrição que o poeta faz , expondo , detalhadamente , informações sobre o ambiente e a beleza da mulher amada , mesclando a imagem da musa e a natureza . O tema é o sofrimento pela perda do amor de uma mulher . Os hábitos românticos estão marcados no poema pelo desespero e desilusão : viver  perde o significado e a única ação sensata é a renúncia à vida .

SONETO

Pálida à luz da lâmpada sombria, 
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada, 
Entre as nuvens do amor ela dormia! 

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada! 
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia! 

Era a mais bela! Seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo! 
Por ti - as noites eu velei chorando, 
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!
     
      Neste poema o tema predominante é o pessimismo e a morte; o poeta parece que previa que teria uma vida curta, como realmente teve. Por isso despede-se dos sonhos não concretizados, lembrando-se de uma precoce mocidade, um amor não realizado e a ingenuidade vivida com os amores que teve. Sentindo-se ainda 'morto em vida' termina por afirmar que não via " Um punhado sequer de murchas flores! " Como se na verdade, o eu lírico em primeira pessoa fosse um espírito falando sobre a vida daquele corpo morto que observava.

Adeus, Meus Sonhos!
 
Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia 
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.
Que me resta, meu Deus?
Morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já não vejo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

 
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