03/06/2016 às 12h56min - Atualizada em 03/06/2016 às 12h56min

Trinca de rei da poesia brasileira: Oswald e Mário de Andrade e Cassiano Ricardo

Oswald e Mário de Andrade e Cassiano Ricardo
      A  homenagem que  o  CANTINHO  POÉTICO  presta neste espaço  tem uma bela dimensão tripartida de  um universo  que representa a modernidade  de nossa literatura . As amostras que forem aqui representadas  constituirão  , com toda  certeza , as  essências líricas  nas galerias poéticas  da trinca de rei  composta por  OSWALD  DE  ANDRADE ,  MÁRIO  DE  ANDRADE  E  CASSIANO  RICARDO .

        Iniciaremos  com um poeta  de alma nacionalista  que preservou em seus versos as  mensagens  de  um  Brasil bem  brasileiro :  OSWALD  DE  ANDRADE . Foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, com  autoria dos dois mais importantes manifestos modernistas, o  Manifesto  da  Poesia  Pau-Brasil  e o Manifesto Antropófago, bem como do primeiro livro de poemas do modernismo brasileiro afastado de toda a eloquência romântica . Foi , também ,  um dos interventores na Semana de Arte Moderna de 1922. Esse evento teve uma função simbólica importante na identidade cultural brasileira. Por um lado celebrava-se um século da independência política do país colonizador Portugal, e por outro , consequentemente , havia uma necessidade de se definir o que era a cultura brasileira, o que era o sentir brasileiro, quais os seus modos próprios  de expressão : a  alma  nacional . Demonstraremos , a  partir  de  agora , as  manifestações  de Oswald  de  Andrade cujos  temas  expressam a alma nacionalista. Esta pequena , porém enorme poesia , versa  , em visões subliminares das palavras ,  sobre a imposição dos portugueses  a respeito de sua própria cultura , neutralizando os hábitos de nossos nativos .

ERRO  DE  PORTUGUÊS
 
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
 
      Nesta poesia, o  Poeta  manifesta uma ruptura com “moldes” antes sacramentados por outras estéticas. O verso livre, a linguagem coloquial e irônica e o predomínio de um “português” genuinamente brasileiro tiveram seu momento subliminar. 
 
Pronominais

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco 
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.

     Neste  poema , o Poeta parodia , por meio de um tom irreverente ,  outro texto de Gonçalves Dias, também com o objetivo de repugnar os moldes românticos. Quando ele ressalta que: Minha terra tem mais rosas e quase que mais amores, o vocábulo “quase”, justifica o desmascarar da realidade social.
Canto de regresso à pátria 

Minha terra tem palmares

Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo. 

       Oswald  de  Andrade   expressa  nesta  poesia  a  trajetória  da Descoberta  do  Brasil e  o  impacto nos primeiros contatos com o povo nativo sobre hábitos distintos e grande desconfiança sobre aceitar outra cultura .

A descoberta

Seguimos  nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.
 

         O  espaço  agora  é  dedicado  a  MÁRIO  DE  ANDRADE  com suas  poesias ,   peça chave do modernismo brasileiro. Sua obra literária é dedicada à construção de uma literatura genuinamente brasileira e à investigação de nossa cultura. De família aristocrática, Mário Raul de Morais Andrade nasceu em São Paulo, no dia 09 de outubro de 1893.  Publicou sua maior realização literária, aquela que perpetuaria seu nome na história da moderna literatura brasileira: Macunaíma. Por intermédio da figura do herói sem nenhum caráter, portanto, um anti-herói, Mário abordou temas folclóricos e mitológicos próprios do Brasil, utilizando uma linguagem inovadora por aproximar-se da oralidade.  Apresentaremos agora algumas pérolas poéticas pertencentes ao acervo deste maravilhoso  Poeta . Nesta  poesia , faz uma descrição poética e crítica sobre uma desigualdade  social , transparecendo em cada verso a preparação para o despertar de uma situação presente na sociedade brasileira .


Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! 
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.
 
     No  poema  seguinte  ,  Mário  de  Andrade  , apesar de pertencente ao Movimento Moderno ,  expressa  características  que eram comuns no período romântico ,  deixando  transparecer , através  de uma  visão imagística , um sentimento lírico-amoroso .

 
Eterna Presença
 
Este feliz desejo de abraçar-te,
Pois que tão longe tu de mim estás,
Faz com que te imagine em toda a parte
Visão, trazendo-me ventura e paz.
 
Vejo-te em sonho, sonho de beijar-te;
Vejo-te sombra, vou correndo atrás;
Vejo-te nua, oh branco lírio de arte,
Corando-me a existência de rapaz…
 
E com ver-te e sonhar-te, esta lembrança
Geratriz, esta mágica saudade,
Dá-me a ilusão de que chegaste enfim;
 
Sinto alegrias de quem pede e alcança
E a enganadora força de, em verdade,
Ter-te, longe de mim, juntinho a mim.
 
    Há  nesta poesia  uma crítica com acentuada expressões irônica  sobre   dois  aspectos manifestados em seres humanos  que compõem  a estrutura social :  TER  e  SABER .
 
Moça Linda Bem Tratada

Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
Um coió.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
Paciência...

Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta do pobre arromba:
Uma bomba.

 
 
Hora  e  vez  de  CASSIANO  RICARDO  para  completar  a trinca  de  rei .  Cassiano Ricardo  Leite , jornalista, poeta e ensaísta, nasceu em São José dos Campos, SP, em 26 de julho de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 14 de janeiro de 1974 . Poeta de caráter lírico-sentimental em seu primeiro livro, ligado ao Parnasianismo/Simbolismo, em A flauta de Pã (1917) adota a posição nacionalista do movimento de 1922, revelando-se um modernista ortodoxo até o início da década de 40. Se a sua obra poética é tida como de importância na literatura brasileira contemporânea, a de prosador é também relevante. Passemos  a apresentação de alguns poema que marcam a importância deste grande Poeta que contribuiu , com seu acervo poético , para  o enriquecimento de nossa literatura .
     O primeiro poema apresentado  fala sobre a efemeridade  de nossa existência .  Com base em  uma filosofia de resignação , aconselha que devemos manter a tranquilidade diante do inexorável , lembrança constante em todo poema  de que a morte é inevitável .

O Relógio

"Diante de coisa tão doida
Conservemo-nos serenos

Cada minuto da vida
Nunca é mais, é sempre menos

Ser é apenas uma face
Do não ser, e não do ser

Desde o instante em que se nasce
Já se começa a morrer."

    O poema  seguinte é uma forma lírica conceptual sobre a poesia e o poeta , logo trata-se  de uma  metapoesia  (  poesia  que tem o tema falando sobre  a própria poesia ) , com base na comparação com uma ilha e esforço de um operário em sua labuta diária .

Poética
1
Que é a Poesia?
uma ilha 
cercada
de palavras
pro todos
os lados.
2
Que é o Poeta?
um homem
que trabalha
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
 
.     Neste  poema  , Cassiano  Ricardo  constrói uma trajetória  ligada ao momento da descoberta  do  Brasil , quando , por ignorar a terra achada , os descobridores  iniciam  os rótulos  nas várias identificações da nova terra  .
Os nomes dados a terra descoberta

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome 
de ilha de Vera-Cruz. 
      Ilha cheia de graça 
      Ilha cheia de pássaros 
      Ilha cheia de luz. 

      Ilha verde onde havia 
      mulheres morenas e nuas 
      anhangás a sonhar com histórias de luas 
      e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés. 

Depois mudaram-lhe o nome 
      pra terra de Santa Cruz. 
      Terra cheia de graça 
      Terra cheia de pássaros 
      Terra cheia de luz. 

A grande terra girassol onde havia guerreiros de tanga e 
onças ruivas deitadas à sombra das árvores 
mosqueadas de sol 

Mas como houvesse em abundância, 
certa madeira cor de sangue, cor de brasa 
e como o fogo da manhã selvagem 
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem, 
e como a Terra fosse de árvores vermelhas 
e se houvesse mostrado assaz gentil, 
       deram-lhe o nome de Brasil. 

       Brasil cheio de graça 
       Brasil cheio de pássaros 
       Brasil cheio de luz.

  Em uma maravilhosa composição poética , Cassiano Ricardo , nesta poesia , expressa a grande importância que se deva ter , diante dos acontecimentos , na esperança como um otimismo da própria vida.

A rua

Bem sei que, muitas vezes, 
O único remédio 
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem, 
A dívida, o divertimento, 
O pedido de emprego, ou a própria alegria. 
A esperança é também uma forma 
De continuo adiamento. 
Sei que é preciso prestigiar a esperança, 
Numa sala de espera. 
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas, 
Esperança sentada. 
Não abdicação diante da vida. 


A esperança 

Nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da espera. 
Nunca é figura de mulher 
Do quadro antigo. 
Sentada, dando milho aos pombos.
 
 
 O  CANTINHO  POÉTICO  objetiva  em suas publicações  um maior contato com a linguagem mítica expressa através das poesia manifestadas em língua portuguesa , tentando não só atingir aqueles que amam uma mensagem poética mas também  sugerir e alertar aqueles que não tiveram oportunidade de manusear compêndios de nossos poemas .
 
Waldemar  Pedro  Antonio           e-mail :  wpantonio@terra.com.br
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