18/06/2016 às 13h10min - Atualizada em 18/06/2016 às 13h10min

Apresentação temática do romance “Dom Casmurro” de Machado de Assis

CANTINHO  POÉTICO  dedicará  este  espaço  ao  mais  ilustre  romancista da Literatura Brasileira , reconhecido  universalmente  e respeitado  por toda sua obra :  “  MACHADO  DE  ASSIS  “ .  No intuito  de facilitar e dinamizar a leitura , objetivando  despertar o interesse  para  as  obras  fundamentais  da   literatura  em  língua  portuguesa  , motivou-nos  apresentar   prosas  narrativas de  alguns  autores  a  todos leitores  interessados  em  leituras  de  ficção .

       Agora  uma visão biográfica  do  escritor  que  é  a  mais  alta  expressão  e a mais  eminente  figura  de  nossa  literatura ,  JOAQUIM  MARIA  MACHADO  DE  ASSIS . Nasceu  no  bairro  popular , pobre  e excêntrico do Livramento ,  no  Rio  de  Janeiro  , no  dia  21  de  junho  de  1839 .  Nesta  mesma  cidade ,  donde nunca  saiu ,  faleceu  no dia no dia  29  de  setembro  de 1908.

      Selecionamos  como  apresentação a  mais  proeminente  e  discutível  obra  de  Machado  de  Assis , a  que nos  revela  a  sua  grande  capacidade  de  manter  o interesse  do  leitor  :  “  DOM  CASMURRO  “.  Narrado  em  primeira  pessoa , o enredo  se  prende  à  evocação  do  passado  do  “  solitário  “  Dom  Casmurro “ , que  conta  sua  história   da  infância  e  mocidade  à  velhice , dando  relevância  ao  episódio  amoroso  que  o  envolve  juntamente  com  Capitu.

         D.  Glória  ,  mãe  de  Bentinho , havia  prometido  mandá-lo  para  o  Seminário . Bentinho  obedece  à  promessa  da mãe , mas não  chega  a  ordenar-se  ,  pois  sua  vocação  não  era  outra  senão  Capitu , com  quem  se casa .  No  Seminário  ,  Bentinho  conhece  Ezequiel  de  S. Escobar  que  se torna  seu  amigo  por  muitos  anos  e  mais  tarde se  casa  com  a  amiga  de  Capitu , Sancha .  Os  dois  casais  convivem  intimamente , têm  filhos  e  progridem  .  Do  casamento  de Capitu e  Bentinho  nasce  um único  herdeiro  que  recebe  o  nome  de  Ezequiel , em  homenagem  ao  amigo.  A   vida  de ambos  corria  feliz  até  que  sobreveio  a tragédia  com  a  morte  de Escobar .  O  desespero  de  Capitu  diante  do  cadáver  do amigo  traz à  tona  a dúvida  que  já  se formara  no  espírito  de  Bentinho  ao  notar  a  semelhança  do  filho  com  o  falecido .  “   A  confusão  era  geral .  No meio  dela  Capitu  olhou  alguns  instantes  para  o  cadáver  tão  fixa  ,  tão  apaixonadamente  fixa  ,  que não  admira  lhe  saltassem  algumas  lágrimas  poucas  e  caladas ...  “ .  Surge , afinal , a  ideia  que  veladamente  vinha  se insinuando  no  enredo  :  a  infidelidade  de  Capitu .  O  aparecimento  de  Ezequiel  já  moço , nos  últimos  capítulos  do  livro  , vem  reforçar  a  ideia  do  adultério ,  ressuscitando  no  rapaz  a  figura  patética  de  Escobar.
     O  desfecho  é  a  conclusão  amarga  de  Dom  Casmurro  :  “  E  bem ,  qualquer  que  seja  a  solução , uma  coisa  fica  , e  é  a  suma  das  sumas  ou  o  resto  dos  restos  , a  saber , que a  minha  primeira  amiga e  o  meu  maior  amigo extremosos  ambos  tão  queridos  também ,  quis  o  destino  que  acabassem  juntando-se  e  enganado-me ...  A  terra lhes  seja  leve  ! “

      As  cenas  idílicas da  infância  e  da  adolescência , a surpresa  do  primeiro  beijo ,  o  amor  por  Capitu como que  desmoronam  e  o  que  avulta  é  o  desconsolo  de  haver  sido  traído .
      
Percebe-se  que  a  narrativa  se  desenvolve  num  “  crescendo  “  de  emoções  e  alegrias  da  infância  e  adolescência  de  Bentinho  até  chegar  ao  clímax  _  revelação  do  adultério _  que se  insinua  discretamente  ao longo  de  todo  o  enredo , para ,  de  súbito , explodir  nas  últimas  páginas .

      Analisando  as  personagens  de  “ Dom  Casmurro “ notamos  que  é  Capitu  quem  domina  na  determinação  de  toda  a  problemática  amorosa , dependendo  dela  qualquer  iniciativa ,  desde  a  declaração  de amor  no  muro  que  divisava  sua  casa  com  a  de  Bentinho , até  à  cena  final  do  juramento .

      Capitu  dos  “  olhos  de  ressaca  ,  de  cigana  oblíqua e  dissimulada “ _  apresentada  no  início  do  romance _  se  mostra  por inteiro  nos  momentos  culminantes  da  narrativa .  Versátil  , sagaz  nos  seus  passos rápidos   , Capitu  é  o  caráter  mais forte .  É  a  figura  decisiva  no  destino  das  demais .

     “  Seu   companheiro  é  inseguro  ,  mais  tímido e  inexperiente nos  assuntos  do  coração ,  sempre  que  é  necessário  deliberar  e  remover  algum obstáculo no  destino  de ambos  “ .

      Ao  lado  de  Capitu  e  Bentinho ,  Escobar  completa  o  triângulo  amoroso .  “  Era  um  rapaz  esbelto , olhos  claros , um pouco fugitivos , como  os  pés  com  tudo .  Não  fitava  de  rosto , não  falava  claro nem seguido ; as  mãos  não  apertavam  as  outras , nem  se  deixavam  apertar  delas , porque  os  dedos  sendo  delgados  e  curtos ,  quando  a  gente  cuidava  tê-los  entre  os  seus  ,  já  tinha  nada  “  (  Cap.  LVI ) . Tal  caracterização  dá  a  medida  exata  do  caráter  oscilante  e  falso  de  Escobar  ;  é  ele  o  cúmplice  ideal  de  que Capitu  necessitava  para  realizar seus  planos .

    Em  Dom  Casmurro  ,  a  movimentação  dos  fatos  e  das  personagens  é  condicionada  pelo tempo-memória, elemento importante  no andamento  da  narrativa  que  caminha  ao  ritmo  da evocação , através  da  qual  o  leitor  vai  lentamente  descobrindo  o  mistério  que  se  desterra  a  custo .

      A  grande  atração  do  livro  acaba  por  ser  extraordinária  capacidade  de engenho  para  imprimir  ao  móbil do  drama  _  caso  do  adultério  _   um  caráter  velado , sutil , que  o  impede  de  cair  na  vulgaridade  dos  casos  banais , ao  mesmo  tempo  que  sustenta  o  interesse  do  leitor , mergulhado  também na  mesma  DÚVIDA  angustiante   da  personagem-vítima ,  até  os  instantes  finais .

      A  leitura  de  “ Dom  Casmurro  “  pode  ser  indicada  para  pessoas  que  já  apresentam  maturidade  suficiente  a fim de compreender  a  temática  preferida  de  MACHADO  DE  ASSIS  nos  romances  da  segunda  fase  :   O  ADULTÉRIO .

 Waldemar  Pedro  Antonio                                         E-mail :   wpantonio@terra.com.br
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