22/07/2016 às 09h02min - Atualizada em 22/07/2016 às 09h02min

VISITAS SENTIMENTAIS

NELSON VIEIRA FILHO
Há pouco tempo, compelido por imensa vontade, fui a Belo Horizonte para rever pessoas queridas, todas  com tempo de vida superior a noventa anos.

Com horário escolhido por dona Zélia, que tinha consultas médicas à tarde, fomos pela manhã à residência do hoje produtivo escritor Milton Pimentel Bittencourt,  o primeiro, em todos os sentidos em que a palavra primeiro possa ser acolhida, gerente do Banco do Brasil em Leopoldina. Loquaz, seu Milton rememorou “causos e causos”.  Rimos quando por Dona Zélia foi lembrado que, indo viajar, pediram ao Rubinho Coutinho, ainda solteiro, dormir na casa deles e o “vigia” passou a noite na varanda, pois o cão que o casal possuía não o deixou ingressar  na casa. Rimos mais quando nos lembramos das queixas do Roberto Jorge quando um monte de fezes e urina, na porta do banheiro da agência, já atraía muitas moscas.  Demorou para se descobrir que era mais uma das  constantes  brincadeiras do impagável Custódio Junqueira,  que, pressionado diante de ameaça de punição coletiva,  se abaixou e tudo pegou com as mãos, eis que era material de plástico por ele adquirido de um camelô na Rua da Alfândega, no Rio,  acrescido de açúcar verdadeiro para atrair as moscas. 

Depois do almoço, visitamos dona Glorinha e o professor Oiliam José, meu mestre mais admirado do primário à colação de grau em Direito. Eles nos acolheram com imenso carinho.   Falamos sobre nossas famílias.  E quando se começa a falar sobre netos, só quem os possui sabe que qualquer conversa se torna infinita, de uma agradabilidade imensurável.  Alongamos conversa sobre a situação imobiliária em Leopoldina, principalmente sobre novos prédios da Cotegipe e da Praça João XXIII. À lembrança de minha amizade com o Zé do Carmo Rodrigues, o professor Oiliam comentou que ele e o Zé do Carmo haviam se encontrado, pouco antes de seu óbito, num evento cultural em Belo Horizonte.

Mesmo com sua decantada discrição, gostosas risadas foram dadas quando repeti reclamação sobre uma nota 9,98 que o professor Oiliam me deu em uma prova parcial de História, unicamente porque, ao invés de escrever “no dia sete de setembro de 1822”, eu escrevi “em 07.09.1822”, levando dona Glorinha a enfatizar “o Oiliam sempre foi assim, muito consciencioso”.  Creio que, do mesmo modo como Calé e eu nos enriquecemos com a vespertina visita, o professor Oiliam e dona Glorinha se distraíram bastante, sendo certo que a secretária comentou “o Dr. Oiliam falou bem mais do que tem hábito”.

Então, para quem queria notícias, os dois maravilhosos casais Zélia & Milton e Glorinha & Oiliam, estão muitíssimo bem, preparando-se garbosamente para receber os amigos para as festividades de seus gloriosos centenários de nascimento.

Já noitinha, visitei Alina Teixeira, prima de meu pai, ambos nascidos e criados “praticamente juntos” na mineira Dom Silvério. Ali foi um despertar de reminiscências, contando e recontando casos, dificuldades e vitórias da família.  Figura desconhecida de todos os leopoldinenses, Alina entra no texto como “Pilatos no Credo”, mas acho que, apesar de ela ser totalmente desconhecida dos leitores do Leopoldinense, é interessante contar:  Alina fica sozinha praticamente o dia inteiro, pois a sobrinha com quem reside trabalha de manhã à tarde. Há, para Alina, uma severa recomendação “tia, não abra a porta para ninguém, em hipótese alguma”.  E, com cara de criança que sabe que fez arte, Alina me contou “esteve aqui o homem do gás para fazer inesperada vistoria. Ele entrou, olhou tudo, disse OK, pediu-me dinheiro e dei a ele somente R$350,00 (trezentos e cinquenta reais), pois eu não tinha mais. A Orquídea, minha sobrinha, falou para não permitir a entrada de ninguém, mas ele era tão lindo, tão fofinho, que não resisti, e o mandei entrar”. Descobriu-se que o tal homem levou um botijão novinho em folha e deixou um velho, com defeito. O “homem do gás”, que usa macacão com logotipo de firma especializada, é um  bandido atualmente muito procurado pela polícia belo-horizontina, pois tem sido useiro e vezeiro de fazer o que ali fez. Por que conto isto? Porque Alina, de lucidez extraordinária, que abriu a porta ao se encantar com o homem “lindo e fofinho”,tem simplesmente mais de 102 anos de idade.  
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