22/07/2016 às 09h13min - Atualizada em 22/07/2016 às 09h13min

A IDADE DO NÃO

“Minha filha tem dois anos e diz não a tudo”.

ANTÔNIO MÁRCIO JUNQUEIRA LISBOA
Muitos pais se sentem desorientados, às vezes irritados, com as crianças que só sabem dizer não.  Esse é um tipo de comportamento é normal, nas crianças de dois, três anos.
 
Costumo chama-las de “investigadoras”, pois sua curiosidade é ilimitada e estão, o dia inteiro, andando, mexendo nas coisas, subindo, descendo, olhando, ouvindo.   No sentido de protege-las, os pais ou os familiares interferem nessas atividades, o que elas detestam. Ao tentarem pegar uma barata pelas antenas, lá vem a mãe dizendo: “Não faça isso! Este bicho é sujo”.  Acham um cigarro no cinzeiro e tentam dar uma tragada; lá vem alguém que grita: “Não faça isso! O cigarro faz mal”.  Tenta subir na cadeira para ver a rua e lhe dizem:” Não suba aí que é perigoso”.  Se abraça um cachorro, lhe dizem:” Cuidado que ele pode lhe morder”. Se resolve lavar a mão na água da privada ouve um urro: “Tira mão daí!”.  Além disso, querem que ele coma com as próprias mãos, largue a mamadeira e passe a usar o copo, faça coco e xixi no penico, etc.    Naturalmente, elas costumam reagir contra essas interferências e as tentativas dos pais e familiares de estabelecer limites, o que representa, para elas, inaceitáveis interferências em suas atividades criativas, de investigação, de autonomia, de independência.  Como não têm uma linguagem que lhes permita dialogar, passam a usar o “não” com muita freqüência, até mesmo quando deveriam dizer sim, olhando o “repressor” de forma desafiadora.  Perguntadas se querem doces, passear no parque, visitar a avô, brincar, dizem que não, embora comecem a chorar assim que percebam que sua recusa foi aceita.  Responderam não, mas queriam dizer sim - estão na fase do negativismo.  Depois que a criança passa andar e a falar, ela passa a ter um estilo e ritmo de vida cada vez mais independente.  Já não é mais o bebê passivo, fácil de ser persuadido, consolado e distraído.   Se se lhe retira da mão um determinado objeto e se se lhe proíbe de pega-lo, tenha certeza que ele irá pega-lo novamente e fazer questão de desafia-lo.    Não quer ir dormir, tomar banho, escovar os dentes, cortar cabelo, ir ao médico. Parece achar que a sua independência depende de fazer o oposto do que os seus familiares querem ou pedem.   Esse comportamento significa o desejo da criança de ser ela própria. O negativismo é um dos aspetos do desenvolvimento infantil, e deve ser interpretado como um sinal de independência e não necessariamente como uma forma de contrariar, de rebeldia ou tentativa de impor sua vontade, como boa parte dos adultos acredita.  Infelizmente, a ignorância desse fato faz com que muitos pais não aceitem esses comportamentos, que interpretam como desafiadores de sua autoridade, e reajam com confronto, raiva, punições e até castigos físicos.    Cabe aos pais educar seus filho, estabelecer limites, disciplinar, com compreensão, carinho e paciência.  As crises de birra e de choro, tão comuns quando essas crianças são contrariadas, não poderão intimida-los e impedir que eles cumpram o seu papel disciplinador, evitando usar punições. Para impedir o emprego do “não”, os adultos devem fazer perguntas que não possibilitem a resposta não.  Em lugar de perguntar “Você quer passear/”, “Você quer tomar suco?”, “Você quer ir dormir?”, dizer “Vamos para a cama”, “Vamos tomar banho”, “Está na hora do almoço”.    Os adultos também erram ao obrigar as crianças (ainda mais aquelas que têm entre um e quatro anos) a obedecer os seu gostos ou vontades, contrariando-as por qualquer coisa. Não deixam as crianças andarem descalças em casa; obrigam-nas a usar: o vestido verde para ir à escola (elas gostam do branco); tênis (querem sandálias), a roupa de banho que a vovó deu (elas detestam); tomar banho à noite; usar o suéter vermelho em dias que a mãe acha que está frio; não arrastar cadeiras; não ligar a televisão.  A independência deve ser encorajada e esses acontecimentos, frequentes e sem importância, no dia-a-dia, não devem ser motivos de interferências.    As restrições e o estabelecimento de limites serão utilizados quando indicados.  Se não for assim, corre-se o risco de criar crianças que vivam na defensiva, medrosas, incapazes de argumentar com os pais, professores e outras pessoas, ou ao contrário, cria-las extremamente agressivas.  Ser paciente, por maior que seja o cansaço, é imprescindível para cuidar dessas crianças, pois as negativas não são dirigidas contra os pais, não têm a intenção de agredi-los ou desafia-los; fazem parte do seu desenvolvimento normal.  Um último conselho: não tente imitar seu filho passando a dizer “não”, a tudo que ele pedir.
 
(*) Membro da Academia Leopoldinense de Letras e Artes
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