11/08/2016 às 14h21min - Atualizada em 11/08/2016 às 14h21min

Cantinho poético

WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO
Após  um  breve  recesso  do  “ Cantinho Poético “ , cedendo o  lugar ao  “ Cantinho das  Curiosidades “ ( que  em  breve  retornará )  , retomamos  o espaço para  publicação  dos belos poemas  em língua portuguesa .  Reiniciaremos  com  um tema  que dará uma enorme  visão  conceitual  e  poética  sobre a feitura  de um poema com  seus  líricos  e ricos detalhes :    “  METAPOESIA “ .

METAPOESIA   é a poesia  em  sua essência , o conhecimento do fazer poético e de suas intrincadas  engrenagens , a poesia  que  fala  da poesia que descreve como se faz poesia .

Fernando  Pessoa  , o  mais  consagrado  poeta  português do Modernismo , manifesta ,  no  poema          “  AUTOPSICOGRAFIA  “ , todo  poder  de nos fazer  entender  o  poeta , como a poesia é construída , e como  acontece a identificação  do  leitor com o que foi lido .

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

  No  poema  “  O QUE  É  POESIA  “  de  Cassiano  Ricardo  , o  autor  ,  através de um  questionamento ,  descreve  no poema  uma  feliz  definição do  que  é  poesia . Posteriormente , o autor discute o ofício de construir  poemas e aprofunda na interpretação , justificando que o poeta também é aquele que vive “ com o suor de seu rosto “ .
 
Poética     (Cassiano Ricardo)
Que é poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos os lados

Que é um poeta?
um homem
que trabalha um poema
com o suor do seu rosto
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.
 
             Em  uma  crítica  velada  aos modelos  tradicionais  de  se  fazer  lirismo ,  Manuel  Bandeira  ,  em   “ POÉTICA “  ,  constrói  o  poema  demonstrando , ironicamente , a essência de se dizer , na poesia ,  o verdadeiro expressar do sentimento lírico do  poeta  indiferente ao  valor temático . Com esta  criação ,  conduz para  a mais pura  característica  do Movimento Modernista : 

LIBERDADE  DE  EXPRESSÃO .
Poética  ( Manuel  Bandeira )
 
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente 
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora 
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário 
do amante exemplar com cem modelos de cartas 
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
 
    Ainda  na  galeria poética  de Manuel  Bandeira  encontramos “ NOVA  POÉTICA “   uma  metapoesia  que desmitifica totalmente o  lado puro e limpo do poeta manifestado em suas criações  .
 
Nova Poética

Vou  lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfa, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
 
       No  poema  de  Ferreira  Gullar   “  NÃO  HÁ  VAGAS  “  , o Poeta  expressa na linha de cada  verso o que deve ser manifestado e não manifestado  em forma de poesia . Por trás  de cada  verso há uma  crítica de ordem social velada , liricamente , em  uma  simples  demonstração  de como  selecionar os  conteúdos  poéticos .
 
NÃO  HÁ  VAGAS           (  Ferreira   Gullar  )
 
O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira
      
       Maravilhosa  construção  poética  de Mário  Quintana  onde  compara , em  um recurso  de  matapoesia ,  os  pássaros  com  os  poemas  .Através de cada verso , dá uma demonstração de identidade  entre os dois eixos  da  comparação , assim como os pássaros alçam voo ,  os poemas  flutuam de mãos  em mãos  para alimentarem os leitores.
 
OS  POEMAS (Mário  Quintana)

Os poemas são pássaros que chegam 
não se sabe de onde pousam 
no livro que lês .
Quando fechas o livro , eles alçam voo 
como de um alçapão .
Eles não têm pouso 
nem porto ; 
alimentam-se um instante em cada 
par de mãos e partem .
E olhas , então , essas tuas mãos vazias ,
no maravilhoso espanto de saberes 
que o alimento deles já estavam em ti ... "

Utilizamos de um fragmento do  poema  “   Procura  da  Poesia  “  para demonstrar que  é  uma  poesia que  fala  da  poesia . O  fazer  poético é  penetração no  reino  das  palavras , descoberta de  suas  faces  secretas, que  se  escondem sob  a  face  neutra , aparente , usual .

PROCURA DA POESIA
 
Penetra surdamente no reino das palavras

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
 
Estão paralisados, mas não há desespero,
 
Há calma e frescura na superfície intata.
 
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e se consuma
Com seu poder de palavra
E seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
E te pergunta, sem interesse pela resposta,
Pobre ou terrível, que lhe deres:
– Trouxeste a chave?
 
   Com  base  em  sua  inspiração  poética , Carlos  Drummond  de  Andrade  retrata  na  poesia  a  angústia de ter um tema delimitado na mente , porém  com muita dificuldade para externar na composição  o  tema inspirado .

POESIA ( Carlos Drummond de Andrade)

Gastei uma hora pensando em um verso 
que a pena não quer escrever. 
No entanto ele está cá dentro 
inquieto, vivo. 
Ele está cá dentro 
e não quer sair. 
Mas a poesia deste momento 
inunda minha vida inteira.
 
Waldemar  Pedro  Antonio                   e-mail  :   wpantonio@terra.com.br 
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