18/08/2016 às 18h10min - Atualizada em 18/08/2016 às 18h10min

Cantinho poético

POR WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO
João Cabral de Melo Neto é um escritor singular dentro da literatura brasileira. Para ele, o trabalho poético não é fruto de uma “inspiração” ou alguma espécie de mero momento criativo, como é comum pensar-se sobre o ato de fazer poemas. Ao contrário, João Cabral declarava que a poesia se encontra no rigor de sua construção e na organização do texto em si. O ideal artístico do poeta é o da “simetria”, algo que só poderia ser conseguido através de um exercício autocrítico e de um trabalho linguístico rigoroso. Por conta disso, João Cabral muitas vezes é chamado de “arquiteto das palavras” ou de “o poeta-engenheiro”. Além de ir contra a ideia de que o fazer poético é fruto de uma inspiração do escritor, o que dá à poesia um caráter extremamente subjetivo, João Cabral buscou construir um poema objetivo, cuja visão não vem mais carregada de sentimentalismo, mas sim com dados objetivos da realidade.  

    Em  uma  metapoesia  ,  cercada  de  maravilhosos  recursos  metafóricos ,  “ TECENDO  A  MANHà “  simboliza  o  método  criativo  na  construção  do  poema , tendo  o  CRIADOR   representado  pelo  GALO  , como  o  artesão  que  monta  lentamente  suas  peças  , e   sua  CRIAÇÃO  simbolizada  pela  MANHà em  alusão  ao  futuro  , demonstrando ,  em  suas  linhas  poéticas , um  confronto  entre o  tempo  presente  e  o  tempo  futuro . A  junção  de  todos  os  GALOS  à  procura   da  obra  final  ganha  espaço  e  se  torna  individual .  O  CRIADOR  deixa  marca  em  sua  CRIAÇÃO  na  caminhada  em  busca  do  amanhã , o  que  nos  faz  pensar  que  o  futuro  está  aí .

TECENDO  A  MANHÃ

"Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
 (a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão".


    Neste  poema  ,  o Poeta , em  uma  comparação  ideológica a  que  chamamos  metáfora , faz  uma  bela associação do  relógio , como  objeto que  marca  a hora  , com  o  tempo  que  escraviza  e  enjaula  o  ser  humano  , fazendo-o dependente  dele . Há , ainda , uma  demonstração  comparativa entre os  homens  e  os  pássaros , quando  afirma  que o  valor  de  tudo  está  no  canto  das  aves .
 
O   RELÓGIO

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade . 

 
 
     O  poema  seguinte  versa  sobre  o  ambiente  em  um  reduto  de  trabalho  , criticando e rejeitando  todas  as  regras impostas para  andamento das  tarefas executadas  pelo  trabalhador  , envolvendo  as  atividades  das  funções  a  partir  das  segundas-feiras , demonstrando  um  cenário ,   com  bastante  morbidez , pessimismo e  insatisfação ,  em  que  atuam  os  funcionários  de  uma  repartição .
 
DIFÍCIL  SER  FUNCIONÁRIO  
 
Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.


É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar...
Fazer seu nojo meu...

Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho. 

   
       De  todas  as  produções  poéticas  de  João  Cabral  de  Melo  Neto  , a sua  obra-prima  é  o Auto “  MORTE  E  VIDA  SEVERINA “  que  demonstra ,  em  cada  verso ,  uma  visão  perfeita das histórias simples e significados profundos  de  um   povo  que  padece com  problemas  climáticos  e  sociais do Nordeste brasileiro   . O protagonista é um retirante, um nordestino de vinte anos que  foge da seca e da vida sofrida e miserável do Sertão e que, caminhando às margens do rio Capibaribe em direção à cidade do Recife, tem a esperança de encontrar vida melhor. João Cabral classificou sua peça de auto de natal pernambucano, levando em conta tanto a forma popular dos versos curtos, comuns nos autos medievais, quanto a circunstância de tratar de um nascimento (natal) e de ambientar-se no sertão pernambucano. O título promove uma proposital inversão entre vida e morte, colocando esta em primeiro lugar. Essa troca da ordem natural indica os encontros com a morte e a vitória da vida, no final.   Morte e Vida Severina  é uma peça de teatro em versos. O autor resgata uma forma popular – os versos curtos – para tratar de um assunto que atingia particularmente o povo nordestino: a seca.  Além disso, o nome próprio Severina é usado como adjetivo no título, sugerindo uma ampliação de sentido que é confirmada logo nas primeiras palavras do retirante, que, ao tentar se apresentar, evidencia que sua situação particular é, na verdade, uma metonímia do que ocorre com outros sertanejos, igualmente vítimas da seca. Devido  à  dimensão  do  poema ,  apresentaremos  um  fragmento do  primeiro  momento  do  auto  para uma  visão ,  mesmo  limitada , do  conteúdo  da obra .
 
MORTE  E  VIDA  SEVERINA
 
— O meu nome é Severino,
 como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
 que é santo de romaria,
deram então de me chamar
 Severino de Maria;
como há muitos Severinos
 com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
 do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
 há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
 que se chamou Zacarias
 e que foi o mais antigo
 senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
 da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
 Mas isso ainda diz pouco:
 se ao menos mais cinco havia
 com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
 já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
 magra e ossuda em que eu vivia.
 Somos muitos Severinos
 iguais em tudo na vida:
 na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
 no mesmo ventre crescido
 sobre as mesmas pernas finas
 e iguais também porque o sangue,
 que usamos tem pouca tinta.
 E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
 mesma morte Severina:
 que é a morte de que se morre
 de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
 de fome um pouco por dia
 (de fraqueza e de doença
 é que a morte Severina
 ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
 a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
 a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
 a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.
 Mas, para que me conheçam
 melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
 passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.
 
Waldemar  Pedro  Antonio                      e-mail  :   wpantonio@terra.com.br
 
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