12/12/2016 às 21h37min - Atualizada em 12/12/2016 às 21h37min

Grande império criativo no coração do sambista Arlindo Cruz

WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO
Crédito de Foto: Marcos Hermes
Cantinho  Musical  destinará  este  espaço  a  um  compositor  compromissado  com o SAMBA  e  que  traz  na  alma  as  cores  do  Império  Serrano  e  na  memória ,  um  tesouro  criativo  de  lindas  poesias  :   “  ARLINDO   CRUZ  “  .  É como um ciclo: de tempos em tempos certas figuras emergem das profundezas dos terreiros de subúrbio e das quadras das escolas para fazer o samba renascer, recolocar-se no mercado musical e na sociedade como um todo. 
      
Arlindo Domingos da Cruz Filho  ,  nasceu no Rio de Janeiro  em 14 de setembro de 1958 ,  é um músico brasileiro, compositor e cantor de samba e pagode.  É considerado  por muitos ,  no  mundo  do  samba ,  a figura mais importante do pagode.  Arlindo Cruz tem mais de 550 músicas gravadas por diversos artistas e é considerado o responsável pela proliferação do banjo no samba.  A partir de meados da década de 90, Arlindo passou a concorrer nas disputadas eliminatórias de samba enredo de sua escola  do coração: o Império Serrano.  No final dos anos 70 ,  frequentando as rodas de samba do Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos, conheceu Sombrinha, Zeca Pagodinho, Almir Guineto e Beto Sem Braço, e desenvolveu ,  naquele  cenário  artístico , a arte de versejar.  A partir de 1982  ,  com  a  saída  de  Jorge  Aragão ,  passou a integrar o grupo Fundo de Quintal, com o qual gravou 10 LPs . 

     
Passemos  agora  ao  desfile  de  alguns  sambas  que  se  consagraram  na  interpretação  de  grandes  sambistas  da  MPB .  Iniciaremos   com  um  samba  composto  em  parceria  com  Mauro  Diniz  ,  que  prega  uma  bela  apologia  ao  bairro  de  seu  coração , Madureira ,   considerada  a  Capital  do  Samba , descrevendo  o  cotidiano  daquele  lugar   com  suas  festividades , seus  costumes ,  suas crenças , suas  alegrias e  suas  canções   em  uma  bela  linha  poética :    “  O  MEU  LUGAR  “ .    [ “  / O meu lugar / É caminho de Ogum e Iansã / Lá tem samba até de manhã / Uma ginga em cada andar / O meu lugar / É cercado de luta e suor / Esperança num mundo melhor / E cerveja pra comemorar / O meu lugar / Tem seus mitos e Seres de Luz / É bem perto de Osvaldo Cruz, / Cascadura, Vaz Lobo e Irajá / O meu lugar / É sorriso é paz e prazer / O seu nome é doce dizer / Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laia / Ahhh que lugar / A saudade me faz relembrar / Os amores que eu tive por lá / É difícil esquecer / Doce lugar / Que é eterno no meu coração / E aos poetas traz inspiração / Pra cantar e escrever / Ai meu lugar / Quem não viu Tia Eulália dançar / Vó Maria o terreiro benzer / E ainda tem jongo à luz do luar / Ai que lugar / Tem mil coisas pra gente dizer / O difícil é saber terminar / Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa, lá lá laiá, Madureiraaa / Em cada esquina um pagode num bar / Em Madureiraaa / Império e Portela também são de lá / Em Madureiraaa /  E   no Mercadão você pode comprar / Por uma pechincha você vai levar / Um dengo, um sonho pra quem quer sonhar /  Em Madureiraaa / E quem se habilita até pode chegar / Tem jogo de ronda, caipira e bilhar / Buraco, sueca pro tempo passar / Em Madureiraaa / E uma fezinha até posso fazer / No grupo, dezena, centena e milhar / E nos 7 lados eu vou te cercar / Em Madureiraaa / E lalalaiala laia la la ia... / Em madureiraaa  . “  ]  .

Junto  com  Sombrinha  e  Franco  ,  Arlindinho (  como  é  conhecido pelos  sambistas  )   compôs  um  belo  samba  que  exalta  a  perseverança  e  o  otimismo  fortificados  diante  das  agruras  da  vida , demonstrando  uma  enorme  vontade  de  vencer  todos  os  obstáculos   ,  porque  :   “  Malandro Sou Eu  “  .  [ “ / Segura teu santo seu moço, que o santo é de barro / Que sarro! Dei volta no mundo e voltei pra ficar / Eu vim lá do fundo de poço / Não posso dar mole pra não refunda! / Quem marca bobeira / Engole poeira e rasteira até pode levar! / Malandro que sou, eu não vou vacilar, / Sou o que sou, ninguém vai me mudar! / E quem tentou teve que rebolar, sem conseguir / Escorregando daqui e dali / Malandreando eu vim e venci! / E no sufoco da vida foi onde aprendi! / E por isso é que eu "vô"! / Vou, eu vou por aí! Sempre por ai / Esse mundo é meu! É meu! / E onde quer que eu vá / Em qualquer lugar, malandro sou eu! / (é por isso que eu digo que "vô") / . “  ] 




Arlindo Cruz  ,  Sombra  e  Sombrinha  compuseram   um  belo  samba  cadenciado  que  versa  sobre  o  desenlace  no  relacionamento  entre  um  casal , externando  ainda  o  sofrimento  pela  paixão  contida  e lamentando  a  dificuldade  de  esquecer  a  pessoa  amada  ,   quando  demonstra  ,  entretanto , que    Ainda É Tempo Pra Ser Feliz  “  .  [ “ /  Me cansei de ficar mudo, sem cantar / Sem falar / Mas não posso deixar tudo como está / Como está você? / Tô vivendo por viver / Tô cansado de chorar / Não sei mais o que fazer / Você tem que me ajudar / Tá difícil de esquecer / Impossível não lembrar você / E você como esta? / Com o fim do nosso amor / Eu também tô por aí / Já não sei pra onde vou / Tantas noites sem dormir / Alivia minha dor / E me faça, por favor, sorrir / Vem pros meus braços, meu amor / Meu acalanto / Leva esse pranto pra bem longe de nós dois / Não deixe nada pra depois / É a saudade que me diz / Que ainda é tempo pra viver feliz / .  “  ]   . 




Este  samba  ,  composto  por  Arlindo  Cruz  e  Acyr  Marques  ,  que  fez  grande  sucesso  na  interpretação  de  Zeca  Pagodinho ,  faz  abordagem  sobre  o  comportamento  de  um  casal ,  relatando  momentos  de  briga  e  de  prazer  que  constituem  o  cotidiano  no  relacionamento , apesar  da  oscilação  após  o  desentendimento  ,  volta  à  normalidade amorosa  , porque  é   um   Casal   Sem Vergonha”  “  .  [ “  / A minha vida é um mar de rosas / Em tua companhia / Brigamos mil vezes ao dia / Mas depois das brigas / Retorna a harmonia / Às vezes ela é dengosa / Às vezes é bicho de peçonha / Sem vergonha / Somos um casal sem vergonha / Nós brigamos por ciúmes / Costumes, queixumes ou coisas banais / Não quero que ela fume / Ela quer que o perfume / Que eu use, não cheire demais / Brigamos quando sou bravo / Brigamos até quando banco o pamonha / Às vezes ela provoca / E às vezes sou eu o provocador / Quando fazemos as pazes / Nós somos os azes na arte do amor / Mesmo brigando esperamos / Por muitas visitas da Dona Cegonha / .  “   ]   . 




Arlindo  Cruz  ,  em  parceria  com  Zeca  Pagodinho  e  Beto  Sem  Braço  ,  utilizando  alguns  ditos  populares ,  criou  este   samba que  é  uma  bela  alusão ao desprezo  amoroso,  comparando  expressões  do  povo   com  o  tema  da canção que  faz uma  demonstração de  um  sentimento  amargurado , porém  com  uma  forte  mensagem   sobre  uma  possível reação   em relação  a  um  descaso  do  amor  . CAMARÃO  QUE  DORME  A  ONDA  LEVA “            [ “ /  Não pense que meu coração é de papel / Não brinque com o meu interior / Camarão que dorme a onda leva / Hoje é o dia da caça / Amanhã do caçador / (BIS) /  Não quero que o nosso amor acabe assim / Um coração quando ama é sempre amigo / Só não faça gato e sapato de mim / Pois é aquele que dá pão, também  dá castigo /  (BIS) / ( Não pense que meu coração )  / Não veja  meu sentimento como desdém / enquanto o bem existir o mal tem cura / A pedra é muito forte mas tem um porém, meu bem / A água tanto bate até que fura / A pedra é muito forte mas tem um porém, meu bem / A água tanto bate até que fura / (Não pense que meu coração) / . “  ]  .  


Uma  simples  e  linda  canção , composta  por  Arlindo  Cruz  ,  Jorge  Carioca  e   Marquinho PQD ,  interioriza  um lamento  de  perda  e  de  solidão , com  uma  maravilhosa  expressividade  lírica ,  utilizando , na  mensagem  poética , manifestações metafóricas, para dizer que o amor está “ FORA  DE  OCASIÃO “ .  [ “ / Acho que a saudade já te encontrou / Te disse como estou, mas deixa como está / Quando  a  solidão  desperta o desamor / Se quer falar de  amor, não  dá, ( ô mas eu  acho ) / Depois              do temporal o sol que vai brilhar / Pode não apagar o que aconteceu / Tanta escuridão pode tornar em vão / A luz que  acendeu  fora  de  ocasião / Teu navio quis abandonar  meu cais / Não adianta mais, correr atrás assim / Pois o nosso amor já chegou ao fim / E não venha procurar por mim, diz outra vez / Pois o nosso amor já chegou ao fim / E não venha procurar por mim   ( mas eu acho ) /  .  “  ]   .




Três  ases  do  samba ,  Arlindo  Cruz  ,  Luís  Carlos  da  Vila  e  Sombrinha ,  em  um  lampejo  emocionante  ,  criaram  uma  canção  que versa  , comparativamente ,  sobre  a  separação  amorosa  com  os  instrumentos  musicais  que  dão  cadência  e  seguram  os ritmos  dos  sambas executados . Esta  bela  visão  metafórica  é  a  mensagem  de  que   “  O Show Tem Que Continuar  “ .  [ “  /  Lalaia lalaia laia / Lalaia lalaia laia / Lalaia Lalaia laaaia / O teu choro já não toca / Meu bandolim / Diz que minha voz sufoca / Teu violão / Afrouxaram-se as cordas / E assim desafina / E pobre das rimas / Da nossa canção / Hoje somos folha morta / Metais em surdina / Fechada a cortina / Vazio o salão / Se os duetos não se encontram mais / E os solos perderam emoção / Se acabou o gás / Pra cantar o mais simples refrão / Se a gente nota, / Que uma só nota / Já nos esgota / O show perde a razão / Mas iremos achar o tom / Um acorde com um lindo som / E fazer com que fique bom / Outra vez, o nosso cantar / E a gente vai ser feliz / Olha nós outra vez no ar / O show tem que continuar / Nós iremos até Paris /Arrasar no Olimpiá / O show tem que continuar / Olha o povo pedindo bis / Os ingressos vão se esgotar / O show tem que continuar / Todo mundo que hoje diz / Acabou, vai se admirar / Nosso amor vai continuar / Lalaia lalaia laia / Lalaia lalaia laia / Nosso amor vai continuar / Lalaia lalaia laia / Lalaia lalaia laia /  .  “   ]   .  


Arlindo  Cruz  ,  Beto Sem Braço  e  Serginho  Meriti compuseram  um  samba  que  foi  sucesso  em  tom  de  malandragem  na  interpretação de   Zeca  Pagodinho .  O  eixo  significativo  desta música  é  um  alerta aos  faladores  da  época  atual ,  não  percebendo  o  perigo  que  corre  em falar  coisas  demais , por  isso  o  aviso  musical  e  bem  direto  :   “   Manera , Mané “  .  [ “ / Hoje o mundo tá diferente / É fera engolindo fera / Quem der com a língua nos dentes / Já sabe que o mal lhe espera / Qualquer criança inocente / Já sabe o que isso gera / Tem gente filmando a gente Mané / Manera mané, manera / Manera, manera, manera, manera, Mané / Manera mané, manera / Te cato desde menino / A gente ainda era pivete / No tempo do Juscelino / Você já pintava o sete / Seu papo de escancarar / Faz parte de outra era / Por isso vem devagar, sai pra lá / Manera mané, manera / Manera, manera... /  Não vou segurar pepino /  Se  a coisa não me compete  /  Você faz seu  desatino / Depois vem jogar confete / Não estou aqui pra brincar / Só gosto de jogo à vera / Por isso é melhor parar, saí pra lá / Manera mané, manera / manera, manera, manera, manera Mané / Manera mané, manera / .  “   ]  . 

Com  o  coração  e  a  alma  coloridos  de  verde  e  branco  ,  cor  da  escola  de  sua  paixão  :  Império  Serrano  , agremiação  em  que    Arlindo  Cruz  se  consagrou  como  compositor  de  samba-enredo  ,   em  2006  ,  para  desfile  de  sua  escola  de  samba ,  Arlindinho  compôs  uma  linda  melodia  cujo  tema  versa  sobre  as  crenças  religiosas  brasileiras  e  a  cultura  folclórica  do  Brasil    representar  na  avenida  a  escola  de  sua  paixão  “   O Império do Divino  “  .    [ “  /  Cantando em forma de oração / Serrinha pede paz, felicidade / Pra nossa gente que não pára de rezar / E como tem religiosidade / Senhor, olhai por nós / Até por quem perdeu a fé / Vem meu amor / Na festa pr'o Divino / Pagar promessa / De joelho ou de pé / Hoje tem maracatu, bate tambor / Cai na folia, é Festa de Reis / Chão colorido / Fogaréu, Semana Santa / Pode chegar / Que aqui tem festa todo mês / Tem romaria lá no Juazeiro / A procissão do Círio faz chorar / Mas o Brasil é tão alegre e festeiro / É um celeiro de cultura popular / A esperança vem do índio caiapó / É louvação com muito amor no coração / Do povo negro, veio todo axé / Lá do terreiro umbanda e candomblé / Um mar de flores para Iemanjá / Água de cheiro, águas de Oxalá / O meu Império é raiz, herança / E tem magia pra sambar o ano inteiro / Imperiano de fé não cansa / Confia na lança do Santo Guerreiro / E faz a festa porque Deus é brasileiro / .  “   ]    . 


Encerrando  esta  seleção  de  um  mundo  de  belas  canções ,  escolhemos  um  samba  bem  cadenciado , composto  por  Arlindo  Cruz  ,  Franco  e  Acyr  Marques , que  é  a  verdadeira  descrição  do  que  é  um  amor  perfeito  e  todas as  lamúrias  que  estão  intrínsecas  na  paixão  presentes na    Saudade Louca “. [ “  /  Nunca mais ouvi falar de amor / Nunca mais eu vi a flor / Nunca mais um beija-flor / Nunca mais um grande amor assim / Que me fizesse um sonhador / Levando a dor pra ter um fim / Pra nunca mais / E nunca mais, amor / Eu tive jeito de sorrir / Eu tive peito de me abrir / Ando louco de saudade / Saudade ô / Que é louca por você / O tempo voa e não perdoa / Só magoa, solidão / Quem ama, chora / Chora quem ama / Quem diz que não ama / Não sonha em vão / Se a gente chora / E tem saudade / E até se atreve / Voltar atrás / Que a velha frase / O vento leve / Era até breve / Não, nunca mais /  .  “   ]  .
     “  NOSSO  CELEIRO  DE  SAMBA  CONTA  COM  VERDADEIRAS  PÉROLAS  MUSICAIS ,     ALENTO  DE  TODOS  OS  SAMBISTAS  QUE   TECEM   UMA  GRATIDÃO  IMENSA  AOS COMPOSITORES  QUE  ENGRANDECEM  A  MÚSICA  POPULAR  BRASILEIRA .  COMPROMISSADO  COM  A  DOAÇÃO  DE  SUAS  BELAS  CANÇÕES  , ARLINDO  CRUZ     É  O  ESPLENDOR  DAS  LINDAS  MELODIAS  CONTIDAS  NA  GALERIA  DOS  NOSSOS  SAMBAS  !  “
Waldemar   Pedro   Antonio                                e-mail  :  wpantonio@terra.com.br
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