18/04/2014 às 11h01min - Atualizada em 18/04/2014 às 11h01min

SEMANA SANTA EM MIRAÍ

“minha infância querida que vai muito além, muito além”.

Nelson Vieira Filho

Está chegando a Semana Santa, período em que os verdadeiros católicos rememoram, com respeito, acontecimentos da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo. Fiquei a me lembrar da Semana Santa em Miraí-MG, da “minha infância querida que vai muito além, muito além”.

Com mais 3 ou 4 garotos, durante anos fui coroinha, ajudando o Padre Ernesto Tancredo, que foi pároco em Miraí por décadas. Finda uma Semana Santa, ele determinou ao Sebastião Mateus, seu sacristão, que comprasse caixas de engraxate com todos seus apetrechos e desse para os coroinhas como retribuição pelos “serviços prestados”. Informado, corri à Sacristia e soube que o Padre Ernesto ordenara que eu não ganhasse, porque meu pai era bancário e eu não precisava.  Ofendi-me e só retornei a meu “trabalho” de coroinha assíduo depois que mamãe, com enorme esforço, me convenceu de relevar o que considerei discriminação negativa. “Mas, porém, todavia, contudo”, em todas as ocasiões em que via um coleguinha ganhando seu dinheirinho com alguma engraxadela, uma revolta íntima me incendiava o coração de criança.

Coroinha merecia, além de remuneração, até adicional de periculosidade!  Uma das minhas funções era ir às residências próximas pegar brasas acesas de seus fogões a lenha para colocar  nos turíbulos com o incenso;  e nisto havia o perigo de queimaduras.

Parecendo ir para uma festa, na Sexta-feira Santa, todo o povo urbano e do meio rural se dirigia, no cair da noite, para a “Procissão de Enterro”. Numa delas,  em que meu tio Manoel novamente tocou matraca e a Banda Santa Cecília, do Sr. Pascoal Garcia, tocou o mesmo dobrado lúgubre, corri  risco de morte. É que eu havia sido  encarregado de diligenciar para que não houvesse falhas nas filas de uma procissão e, quando fui pedir a um senhor (ele era leiteiro e tinha apenas um braço) para acelerar e “emendar a fila”, ele sacou de uma faca e me disse “que moleque atrevido, vou acelerar é isto em sua barriga”. Saí correndo e desde então, traumatizado,  tremia de pavor quando avistava, ainda que de longe, a carroça do leiteiro. 

Mamãe, como penso ocorria também em muitos lares, tradicionalmente fazia um caldeirão de canjica doce, com cravo e canela, que, após a procissão, consumíamos com amendoim moído. Numa ocasião, eu comentei com meu amigo Júlio César Cury sobre isto e ele “sugeriu” que saíssemos da procissão e fôssemos comer da  canjica. Só que eu não sabia que o Júlio, de corpanzil considerável, fosse insaciável glutão; ele comeu tanta canjica que esta ficou insuficiente para toda nossa família, apesar de feita sem parcimônia.  Até sua morte, Júlio e eu, já adultos, morando em localidades distintas, nunca nos encontrávamos sem nos lembrar do episódio e rir às escâncaras.

Para comemorar a ressurreição de Jesus Cristo, havia baile de carnaval no sábado da Aleluia. Para ajudá-lo nas  confissões, Padre Ernesto conseguira dois padres, mas um proibia e outro permitia ida ao micareme. Em posterior troca de informações, quem confessara com o Padre “mau”, proibidor, confessou de novo, agora com o Padre “bonzinho”, e gloriosamente saiu do confessionário com permissão para curtir o Carnaval fora de época.

            Alceu Silveira, Ceceu, foi grande amigo de infância. Durante alguns anos,  ele e eu esperávamos ansiosos a Sexta-feira da Paixão. É que nos divertíamos com as dezenas de garotas da roça que iam à cidade para a Procissão de Enterro  e ficavam na praça, enquanto aguardavam o início do cortejo. Quando vinham duas, dizíamos que a do meio era a mais bonita; se todas estivessem sem brincos, dizíamos que a de brincos era a mais bonita; se todas estivessem com sapato escuro, dizíamos que a de sapato branco era a mais bonita: se estavam com cabelos sem adornos, dizíamos que a de laço de fita era a mais bonita; e assim por diante. Jamais as meninas que ouviam nossos “elogios” deixavam de conferir qual delas nós estávamos achando a mais bonita. Era sadismo, mas nos divertia a valer. Que coisa mais boba, dirão os mais jovens! Estas brincadeiras, porém, eram as diversões de nossa época. Bom tempo de alegria, tempo de inocência, tempo em que, como disse o mestre Ataulfo Alves, “eu era feliz e não sabia”.

Se “recordar é viver”, estou vivendo intensamente neste momento !

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