02/06/2017 às 09h05min - Atualizada em 02/06/2017 às 09h05min

O povo da Serrinha Coroa a nata do samba: Império Serrano

“Vejam esta maravilha de cenário: o Brasil em forma de aquarela!" “Super Escolas de Samba S/A / Super-alegorias / Escondendo gente bamba / “Que covardia!"

WALDEMAR PEDRO ANTÔNIO
Como  terceiro   trabalho  sobre  as  Escola  de  Samba  do  Grupo  Especial  do  Estado  do  Rio  de  Janeiro  ,  o  Cantinho   Musical  resolveu  homenagear  uma  agremiação   que ,  além  de  seus  adeptos apaixonados ,  é  também  a  segunda  escola  de  samba  na  preferência  dos  torcedores  de  outras  agremiações ,  por  simpatia  e  respeito  que  tecem  a  ela  pela  autenticidade  e  pura   permanência  na    tradição  no  samba :   “  IMPÉRIO  SERRANO  “ .

         Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano  é uma das mais tradicionais escolas de samba da cidade do Rio de Janeiro ,  dona de nove  títulos  do  Grupo  Especial .  Sendo  uma  escola  de  samba  de  Madureira , teve  sua  origem na  Serrinha,   com  “  São  Jorge  “ , seu  santo  protetor  .  Nasceu a 23 de março de 1947, a partir de uma dissidência da antiga escola de samba  Prazer  da  Serrinha . O Império Serrano é  considerado , no  cenário  carnavalesco , o signo da liberdade de expressão, de opinião .  Foi na casa da Dona Eulália, na Rua Balaiada, no coração do morro da Serrinha, que a  ideia   de Molequinho  se  tornou  realidade : criar  uma  Escola  de  Samba . O nome  ,  Império  Serrano,   foi sugerido por ele, mas na escolha das    cores , prevaleceu a sugestão do compositor Antenor, pintando de verde e branco o morro da Serrinha, o subúrbio de Madureira e o carnaval carioca. Símbolo de poder, de conquista, de vitória, de legitimidade, a  coroa  se transformou em um dos ícones do carnaval muito graças à sua mítica presença na bandeira do Império Serrano.

      
Diante de  toda a informação sobre a história  de  Império  Serrano  , passemos  a  apresentar  o  acervo  de  seus  sambas-enredo,  glorificando , através  da  COROA  em  tom verde e  branco,  o  entusiasmo  de  seus  componentes .  Iniciaremos  com  o  ícone  de  todos  os  sambas-enredo , consagrado  por  sua  beleza  na  opinião  dos  mais  adeptos  dos  sambistas . Em  seus  lindos  versos  compostos  por  “  Silas  de  Oliveira “ no  desfile  de  1964 , o  samba-enredo  descreve  com  muita  precisão  nas  cores  verde  e  amarelo  um  quadro  do  Brasil  em  uma  turnê  lírica  pelas  regiões  que  compõem  o  mapa  brasileiro , exaltando  em  cada  parte  as  suas  maravilhas  que  expressam  muito  orgulho  em  nosso  povo.  Há  em  seus  detalhes  uma  policromia  que  está  presente  na  pintura  da  “    Aquarela Brasileira  “  .  [ “ / Vejam esta maravilha de cenário / é um episódio relicário / que o artista num sonho genial / escolheu para este carnaval / e o asfalto como passarela / será a tela do Brasil em forma de aquarela / Passeando pelas cercanias do Amazonas / conheci vastos seringais / no Pará, a ilha de Marajó / e a velha cabana do Timbó / caminhando ainda um pouco mais / deparei com lindos coqueirais / estava no Ceará, terra de Irapuã / de Iracema e Tupã. / Fiquei radiante de alegria / quando cheguei na Bahia / Bahia de Castro Alves, do acarajé / das noites de magia do candomblé / Depois de atravessar as matas do Ipu / assisti em Pernambuco / a festa do frevo e do maracatu / Brasília tem o seu destaque / na arte, na beleza e arquitetura / feitiço de garoa pela serra / São Paulo engrandece a nossa terra / do Leste por todo o Centro-Oeste / tudo é belo e tem lindo matiz / o Rio dos sambas e batucadas / dos malandros e mulatas / de requebros febris. / Brasil, essas nossas verdes matas / cachoeiras e cascatas / de colorido sutil / e este lindo céu azul de anil / emolduram aquarela o meu Brasil / Lá rá rá rá rá / Lá rá rá rá rá / . “  ]  . 

No  ano  de  1982 ,  Aluísio  Machado  e  Beto  Sem  Braço  compuseram  um  samba-enredo  que ,  sobre  um  belo  som  onomatopaico  (  Bum bum paticumbum prugurundum  ) ,  consegue  narrar  uma  história  do  samba  e  do  carnaval  carioca  na  pureza  de  suas  origens ,  relembrando  partes  que  compuseram  esse  fenômeno  folclórico-musical   encantador .  Além  de  toda  trajetória  descrita  sobre  os  elementos  formadores  dos  primeiros  movimentos  do  samba ,  há  uma  crítica  velada  ao  atual  modelo  dos  desfiles  das  escolas  de  samba do  grupo  especial  que , maldosamente , prioriza  o  espetáculo  visual  em detrimento dos  verdadeiro sambistas : “ Bumbum Paticumbum Prugurundum “  .           [ “ / Enfeitei meu coração / De confete e serpentina / Minha mente se fez menina / Num mundo de recordação / Abracei a Coroa Imperial / Fiz meu Carnaval / Extravasando toda minha emoção / Oh! Praça Onze, tu és imortal / Teus braços embalaram o samba / A tua apoteose é triunfal / De uma barrica se fez uma cuíca / De outra barrica um surdo de marcação / Com reco-reco, pandeiro e tamborim / E lindas baianas / O samba ficou assim / E passo a passo no compasso / O samba cresceu / Na Candelária construiu seu apogeu / As burrinhas que imagem, para os olhos um prazer / Pedem passagem pros Moleques de Debret / "As Africanas", que quadro original / Yemanjá, Yemanjá enriquecendo o visual / (Vem meu amor...) / Vem meu amor / Manda a tristeza embora / É carnaval, é folia / Neste dia ninguém chora (bis) / Super Escolas de Samba S/A / Super-alegorias / Escondendo gente bamba / Que covardia! / Bum bum paticumbum prugurundum / O nosso samba minha gente é isso aí / Bum bum paticumbum prugurundum / Contagiando a Marquês de Sapucaí / . “  ]  . 

Em  1969  com  um  samba-enredo  composto  por  Mano Décio / Manoel Ferreira / Silas De Oliveira , o  Império  Serrano   levou  para  avenida  nada  menos  que  alguns  capítulos  de  um  compêndio  sobre  “  História  do  Brasil “ , exaltando,  em  cada  passagem,  feitos  que  marcaram  uma   parte  importantíssima  na  busca  de  liberdade  da  nossa  nação  e  da  nossa  raça ,  realçando  os  momento  históricos  representados  com  muita  luta  e  perseverança  nas  páginas  dos  acontecimentos   em  perfeita   louvação  a  todos             “   Heróis da Liberdade  “ .  [ “ /  Ô ô ô ô / Liberdade, Senhor, / Passava a noite, vinha dia / O sangue do negro corria / Dia a dia / De lamento em lamento / De agonia em agonia / Ele pedia / O fim da tirania / Lá em Vila Rica / Junto ao Largo da Bica / Local da opressão / A fiel maçonaria / Com sabedoria / Deu sua decisão lá, rá, rá / Com flores e alegria veio a abolição / A Independência laureando o seu brasão / Ao longe soldados e tambores / Alunos e professores / Acompanhados de clarim / Cantavam assim: / Já raiou a liberdade / A liberdade já raiou / Esta brisa que a juventude afaga / Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo / É a evolução em sua legítima razão / Samba, oh samba / Tem a sua primazia / De gozar da felicidade / Samba, meu samba / Presta esta homenagem / Aos "Heróis da Liberdade" / Ô ô ô / . “  ]  . 


Em  1976  o  Império  Serrano , fazendo   homenagem  a  uma  entidade  espiritual ,  desfilou  com  um  samba-enredo  composto  por Arlindo Velloso / Dinoel Sampaio / Vicente Mattos em  que  descrevia  um  verdadeiro  misticismo  sobre  a  “ Rainha  do  Mar “ ,  incluindo  em  sua  narração  belas  paisagens  naturais  como  embelezamento  e  realce  a  todas  as  lendas  misteriosas  sobre  as  entidades  do   mar  :            “  A Lenda Das Sereias, Rainhas do Mar  “  .  [ “ / O mar, misterioso mar / Que vem do horizonte / É o berço das sereias / Lendário e fascinante / Olha o canto da sereia / Ialaô, Okê, laloá / Em noite de lua cheia / Ouço a sereia cantar / E o luar sorrindo / Então se encanta / Com a doce melodia / Os madrigais vão despertar  / Ela mora no mar / Ela brinca na areia  / No balanço das ondas / A paz ela semeia (bis) / Toda a corte engalanada / Transformando o mar em flor / Vê o Império enamorado / Chegar à morada do amor / Oguntê, Marabô / Caiala e Sobá  / Oloxum, Inaê (bis) / Janaína, Iemanjá / São Rainhas do Mar... / . “  ]  .

Império  Serrano  conquistou  o  bi-campeonato , no  ano  de  1949  ,  levando  para  avenida , na  cadência  de  um  samba-enredo  composto  por Estanislau Silva / Mano Décio / Penteado ,  a  mais  justa  homenagem  a  um  dos  maiores  heróis  da  História  do  Brasil , destacando  toda  trajetória  de  um  mártir  brasileiro , que, incessantemente,  lutou  por  nossa  liberdade  :  “  Exaltação a Tiradentes  “ .                     [ “ /  Joaquim José da Silva Xavier / Morreu a 21 de abril / Pela Independência do Brasil / Foi traído e não traiu jamais / A Inconfidência de Minas Gerais/ (BIS)/ Joaquim José da Silva Xavier / Era o nome de Tiradentes / Foi sacrificado pela nossa liberdade / Este grande herói / Pra sempre há de ser lembrado / . “  ]  .


Em  1972  Heitor Achiles / Maneco / Wilson Dia  compuseram  um  samba-enredo   para  o  tema  que  a  Império  Serrano  desenvolveria  na  avenida  homenageando  a  artista  que  foi  pioneira  em  divulgar  a  cultura  musical  fora  do  país , elevando  o  conceito  de  nossa  música  em  suas  apresentações  nos  palcos   e  no  cinema ,  sendo  consagrada   pelo  povo  americano  :  “   Alô, Alô, Taí, Carmem Miranda  “  ..   [ “  / Uma pequena notável / Cantou muito samba / É motivo de carnaval / Pandeiro, camisa listrada / Tornou a baiana internacional / Seu nome corria chão / Na boca de toda gente  / Que grilo é esse  / Vou embarcar nessa onda  / É o Império Serrano que canta  / Dando uma de Carmem Miranda  / Cai, cai, cai, cai / Quem mandou escorregar / Cai, cai, cai, cai, eu não vou te levantar, ôba / . “  ]  .

Respondendo  às  insinuações  de  que  preservar  uma  tradição  no  samba  era  um  ato  de  anormalidade ,  a  Império  Serrano  ,  em  2007  ,  mostrou  na  avenida  que  ser  diferente  não  é  ser  anormal ,  estendendo  a  crítica  aos  preconceituosos   que  consideram  anormais  pessoas  com  alguma  deficiência ,  pedindo  , em  cada  verso , no  samba-enredo  composto  por  Aloísio Machado / Arlindo Cruz / Carlos Senna / João Bosco / Maurição  , respeito  com o julgamento  das diferenças :         “   Ser Diferente É Normal. o Império Serrano Faz a Diferença No Carnaval  “ .     [ “ / Eu quero ver / O amor florescer / Ser diferente é normal / E o império tai / Pra levantar seu astral / Se liga no meu carnaval / Serrinha vem pedir respeito ô ô ô / Temos que olhar com outro jeito / Quem nasceu diferente / E venceu preconceito / A gente tem que admirar / Harmonizar pra ser feliz / Diferença social, pra quê? / Tá na cara que a beleza / Está nos olhos de quem vê / Romantismo e irradia energia pra viver / Nesse mundo onde tudo é relativo / Minha escola é meu motivo (2X) / Meu maior prazer! / A história do samba mudou / Bateria diferente, olha o toque do agogô / No primeiro destaque e na comissão / As novidades verde e branco, meu irmão / É Difícil / Conviver na adversidade / Com arte ser (d)eficiente / Fazer da pintura sua liberdade / Fazer esculturas usando a paixão / Feitiço de poeta invade o coração / Divino é o poder da criação / Eu pergunto a você / Será que existe? / Limite entre a loucura e a razão./ . “  ]  .

Em  estado  onírico ,  a  Império  Serrano  desfilou  com  samba-enredo  construído  maravilhosamente  por  Bacalhau / Ivone Lara / Silas De Oliveira ,  ano  de  1965  ,  narrando    bailes  que  ficaram  na  história  do  Rio  de  Janeiro  no  período  colonial ,  destacando cada  um  dos  cinco  acontecimentos  na  corte :  “  Cinco Bailes da História do Rio  “  .                   [ “ / Carnaval, doce ilusão / Dê-me um pouco de magia / De perfume e fantasia / E também de sedução / Quero sentir nas asas do infinito  / Minha imaginação / Eu e meu amigo Orfeu / Sedentos de orgia e desvario / Cantaremos em sonho / Os cinco bailes da história do Rio / Quando a cidade completava / Vinte anos de existência / O nosso povo dançou / Em seguida era promovida a capital / A corte festejou / Iluminado estava o salão / Na noite da coroação / Ali no esplendor da alegria / A burguesia fez sua aclamação / Vibrando de emoção / O luxo, a riqueza imperou com imponência / A beleza fez presença / Comemorando a Independência / Ao erguer a minha taça / Com euforia / Brindei aquela linda valsa / Já no amanhecer do dia / A suntuosidade me acenava / E alegremente sorria / Algo acontecia / Era o fim da monarquia / Lá rá rá lá rá rá rá rá/ . “  ] .

Em 1975, o  Império Serrano fez seu enredo em homenagem a Zaquia Jorge, vedete do teatro de revista. No ano de 1950, ela era a proprietária do único teatro de rebolado do subúrbio carioca: o Teatro de Revista Madureira.  O samba escolhido na quadra da Verde e Branco de Madureira para representar a escola naquele ano foi o de autoria do compositor Avarese.  A vedete Zaquia Jorge na verdade foi  um enredo fenomenal, pois além de mexer com o emocional da cidade, da escola e as reminiscências do povo de Madureira exaltou a vedete do teatro rebolado :                       “  Zaquia Jorge, Vedete do Subúrbio, Estrela de Madureira  “ .    [ “ / O Império deu o toque de alvorada / Seu samba a estrela despertou / A cidade está toda enfeitada / P'ra ver a vedete que voltou / Com  seu viver de alegria / Fez tanta gente sonhar  / Outra vez se abre o pano / P'ra todo o céu suburbano  / Ver sua estrela brilhar (bis) / Viagem, revista, aquarela / O passado é presente / E neste teatro-passarela / Ela resplandece novamente / Baleiro-bala / Grita o menino assim  / Da Central a Madureira / É pregão até o fim (bis) / . “  ]  . 


No  ano  de  1977 , em  uma  deferência  especial  à  raça  brasileira  ,  a  Império  Serrano  demonstrou ,  em  cada   verso  do  samba-enredo  composto  por  Jorge Lucas  e  Roberto Ribeiro ,  as  partes folclóricas  identificadas  com  a  manifestação  do  nosso  carnaval   na  formação  do  povo  brasileiro , resultante  da  mistura  de  várias  raças  :  “  Brasil, Berço Dos Imigrantes  “ .  [ “ / É tempo de Carnaval / Hoje as cores do Império / Vem saudar a imigração / Numa dourada alegria / Neste dia de folia / O samba é anfitrião / Desta gente que ao chegar / Semeou nesta terra / Seu folclore popular / Brasil, berço dos imigrantes / Sua raça é mistura / Sem cessar / O povo com seu sorriso / Vem pra avenida festejar / Violas de pássaros / Clarins de vento (bis) / O Arlequim / Entoando um canto lento / Num céu de serpentinas / Um Pierrô vai desfilar / O dominó ganhou confete / E ao imigrante foi saudar / Olha o passo da mulata / Esplendor da Colombina  / Canta e samba minha gente / Nesta festa que domina (bis) / Lá, lá, laia / Lá, laiá, laiá  / Lá, laiá, lá, laia (bis) / . “  ]  .

      O Cantinho  Musical  espera  ter  selecionado,  para  os  que  acompanham  minhas  publicações ,  os  melhores  sambas-enredo  da  Império  Serrano  que  estão  fixados   nas  mentes  de  todos  adeptos  desse  lindo  espetáculo  que    reúne ,  na  Marques  de  Sapucaí   em  dias  de  carnaval , os  desfiles  das  Escolas  de  Samba  do  Grupo  Especial .

    “   QUANDO  UMA  COROA  , QUE  É  O  SÍMBOLO  DA  REALEZA ,  REPRESENTA  UMA  AGREMIAÇÃO  DE  SAMBISTAS ,  DEVEMOS  NOS  CURVAR  A  ELA  EM  RESPEITO  A  TUDO  QUE   REPRESENTOU  E  REPRESENTA  PARA  A  HISTÓRIA   DO  SAMBA .  A  IMPÉRIO  SERRANO  ,  ALÉM  DE  EXALAR  SIMPATIA  A  TODOS  QUE  SE  EMPOLGAM  COM  O  MAIOR  ESPETÁCULO  DA  TERRA ,  TEM  UMA  SEGUNDA  MORADA  NO  CORAÇÃO  DOS  TORCEDORES  APAIXONADOS  POR  OUTRAS   AGREMIAÇÕES   .  ESTE  ATO  É  UMA  PROVA  DE  TERNURA  E  AMOR  QUE  TECEM  PELA  ESCOLA  VERDE  E  BRANCO  DE  MADUREIRA  ,  EM  RECONHECIMENTO  A  TUDO  QUE  O  IMPÉRIO  SERRANO  CONTRIBUIU   PARA  O  MUNDO  DO SAMBA ! “
 
Waldemar  Pedro  Antonio                   e-mail ;  wpantonio@terra.com.br
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