15/08/2014 às 08h42min - Atualizada em 15/08/2014 às 08h42min

Benéfico encontro casual

Terminei meu ginasial em Miraí em 1953. Num domingo de 1954,  manhãzinha, véspera do primeiro dia de aula no Curso Clássico do Colégio Leopoldinense, papai arranjou um carro emprestado e saiu comigo rumo a Leopoldina. Desapontamento ocorreu quando ele, ao chegar, ficou sabendo que o internato somente me abrigaria a partir da manhã seguinte. Sereno como sempre lhe foi peculiar, ele comentou: “não tenho aqui comigo  dinheiro para hotel e refeições,  não posso voltar com você para Miraí e tornar a vir amanhã. Não sei o que fazer. Tem sugestão?”.

Demonstrando coragem que eu não sabia possuir, propus-lhe eu dormir na porta do colégio, fazendo da mala o travesseiro e ele, recusando minha proposta, me disse "vamos andar que Deus nos dará a solução".

Na Cotegipe, rua principal, nós dois a pé, pequena mala na mão porque o automóvel não tinha tranca, um senhor nos olhou, parou-nos e falou que conhecia papai. Este, surpreso, completou o diálogo, afirmando "eu também conheço o senhor de uma ida a minha casa em Miraí com a família, pois uma de suas filhas era colega em Cataguases da minha filha mais velha, a Maria, que os irmãos chamam Lalá". 

Era ! Era o senhor Edmundo Dias da Costa !

Tudo esclarecido, fomos almoçar na companhia dele, então proprietário do Hotel Santos.  Comidinha boa, que, aliviados, degustamos com imenso prazer. Papai se foi e eu fiquei como que anestesiado, envergonhado em lar estranho e, “vítima” de agrado maravilhoso de todos, deitei-me assim que houve como.

 

De manhãzinha, quando dona Amanda foi me despertar, eu já estava prontinho para ir em direção ao Colégio. Tomei café com leite e pão com manteiga, comi um belo naco de queijo e uma ou duas bananas e o Sr. Edmundo, carregando minha “bagagem”, foi me levar à presença do Monsenhor Guilherme de Oliveira, diretor.

 

A solidariedade da família do Sr. Edmundo Costa, sem dúvida, foi um cartão de visita do que é Leopoldina, onde as pessoas dificilmente se visitam, mas, nos infortúnios, nunca se negam a ajudar e, sentindo necessidade, até mesmo, sem limites, oferecem seus préstimos.

 

Quando, na primeira folga no internato, lhes fiz uma visita, fui obrigado a esperar o almoço. E, depois que agradeci a gentileza e elogiei a qualidade da comida, tive que assumir o compromisso de ir sempre para almoçar, o que fiz várias vezes.

 

Em algum aniversário meu, ganhei dele uma camisa de tecido, manga comprida, mas por algum motivo eu não a vestira ainda.  Era “Guararapes”, sinônimo de ótima qualidade, cuja representação comercial era exercida por seu “neto” Rodolfo Tavares Tomé. Num casual encontro nosso na esquina da Travessa Pedro II com a Rua Cotegipe, ele me falou, possivelmente depois de algumas pinguinhas que ele tanto apreciava em seus momentos de lazer, "não vi você com a camisa!". Brincando, respondi "estou guardando para estrear no seu enterro". Deu-me, à vista de todos, um chute na bunda, xingou mamãe e se foi, sorrindo feliz.

 

Dias depois, a Neves, uma das filhas, me ligou, dizendo que o Sr. Edmundo estava internado no Hospital (à época inexistia CTI). Fui para lá e, ao chegar, penso que ele, mesmo mal, percebeu  quando lhe apertei a mão, beijei-o no rosto e pensei em absoluto silêncio, “pelo amor de Deus, não morra agora não, desta vez não !”        

 

Quando ele teve alta e voltou para casa, fui quase que em seguida à casa dele, estreando a camisa. Antes de responder a meu “boa tarde”, ele deu uma gargalhada e disse "ah, seu fdp, pensou que eu ia morrer e agora vem aqui com a camisa”!

 

Fiquei em silêncio, meneando a cabeça negativamente, mas meu semblante desmentia o gesto. Ele, feliz e sorridente, sempre viciado em dizer palavrões, xingou-me docemente e nós rimos bastante ! 

 

Por algum tempo continuei a desfrutar abusadamente do prazer de sua amizade e somente eu sei o quanto senti sua morte.

        

Quando vereador tive oportunidade de ver aprovado projeto dando o nome de Edmundo Dias da Costa a rua em Leopoldina, perpetuando, na história do torrão leopoldinense, a existência de um cidadão honestíssimo, trabalhador, progressista, bom amigo, excelente esposo e chefe de família.

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