02/05/2014 às 08h52min - Atualizada em 02/05/2014 às 08h52min

A Árvore da Forca

Década de 60/70 do século XX

Luciano Baía Meneghite
Fotografia gentilmente cedida por Gilberto Silva Pinheiro

"Estão cortando a Árvore da Forca." Me lembro de ainda pequeno ter escutado meu pai chegar em casa dizendo isso. Era lá pela metade dos anos de 1980. Fiquei curioso. Acho que na época ainda não tinha ouvido falar na famosa Árvore da Forca.

A árvore, uma Piorreira, na verdade estava morta ou quase. Anos antes teria sido atingida por um raio, o que a danificou muito. A prefeitura então decidiu cortar o que restou.

Por ser criança e morar na Cohab, no outro lado do bairro Pirineus, poucas vezes ia até o local da forca que ainda na época era um pasto. A única construção era uma abandonada "Raia de malha" também chamada de "Rinha" por realizarem brigas de galos no local. Hoje é a quadra da Unidos dos Pirineus.

Com o tempo, fui escutando muitas estórias a respeito do Morro da Forca. Os mais velhos, diziam que se tratava de um lugar mal assombrado. Um trilho no local fazia a ligação com a atual Praça do Urubu e quem por lá passava, principalmente à noite, quase sempre relatava ter visto vultos ou sons estranhos. Luiz Rousseu Botelho, em seu livro "Alto Sereno" registrou uma das lendas do local no final do século XIX. Tratava-se de um senhor octogenário conhecido por Chico Cabeludo que morava na "Favela do Morro da Forca" e que nas noites de sexta feira viraria porco e seqüestraria crianças. Entre verdades e invencionices, O local isolado, a velha árvore de galhos retorcidos em que se viam ainda espécies de ganchos e elos de correntes encravados; tudo dava mesmo um aspecto fantasmagórico, contribuindo para as lendas. Mas como quase sempre, por trás das lendas há fatos reais, neste caso não é diferente.

Fizemos um apanhado de tudo que lemos e ouvimos a respeito e com ajuda de colaboradores obtivemos algumas imagens históricas.

Em 10 de junho de 1835, uma lei determinou a pena de morte para "escravos ou escravas que matarem por qualquer maneira que seja, propinarem veneno, ferirem gravemente ou fizerem outra qualquer grave ofensa física a seu senhor, a sua mulher, a descendentes ou ascendentes".

Uma chacina cometida por escravos contra a família de um deputado mineiro disparou a discussão da pena de morte. Outra motivação foi a Revolta dos Malês, em que negros muçulmanos se rebelaram contra seus senhores em Salvador.

A pena capital era aplicada por enforcamento. Outro artigo estipulava uma pena "branda" em casos menos agressivos: "Se o ferimento ou ofensa física forem leves, a pena será de açoites."

Em setembro do ano de 1856, no então distrito de São José do Paraíba (Atual Além Paraíba) o norte americano Michael Jackson foi assassinado, sendo acusados pelo crime, escravos que conduzia para vender. Eram eles: Davi, Américo, Antonio, Francisco, Miguel, Vicente e Joaquim. Depois de presos e encaminhados para a cadeia pública de Leopoldina,foram julgados no ano seguinte. Quatro deles, Davi, Américo, Vicente e Joaquim foram condenados e enforcados. O dia da execução é citado como 15 de dezembro de 1857 ,mas por publicação do Correio Oficial de Minas encontrada por Natania Nogueira, a execução teria ocorrido em 24 do mesmo mês e ano. Segundo o Livro "Nossas Ruas, Nossa gente" de José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni, Pelo relatório da Presidência da Província de Minas Gerais, este enforcamento teria sido executado por um outro carrasco que não Fortunato, citado em outros textos.

Um dos escravos, de menor idade, teria sido poupado da pena capital, mas foi castigado e após cumprir pena foi solto. Muito doente e agonizante teria levantado do leito envolto em um lençol e encaminhado para junto á cova de seus parceiros no Morro da Forca, morrendo no local.

Não se conhece registros oficiais de outros enforcamentos no local, o que não quer dizer que não possam ter ocorrido. O Carrasco Fortunato por alguns relatos teria atuado pelo menos cinco vezes na Vila de Leopoldina.

Um erro judicial em 1855 no caso conhecido como "A Fera de Macabu" levantou no Brasil a discussão sobre a pena de morte que acabou sendo extinta.

Uma curiosidade é que onde hoje é a Praça Mário Malaquias e a capela de Nossa Senhora Aparecida nos Pirineus, seria construída a Matriz original de São Sebastião, por ter sido ali erigida a primeira capela de pau a pique para a primeira missa celebrada no então Arraial de São Sebastião do Feijão Crú em 1831. No entanto, por ter se transformado em local de execução e cemitério, a igreja optou pela construção no morro da atual Catedral.



Fontes Consultadas:

Livro "A Fera de Macabu"- Carlos Marchi - Editora Record

Site do Arquivo Público Mineiro

"O Brasil já teve pena de morte (só para escravos)" Bruno Hoffmann - Almanack Brasil

Revista Acaiaca – Centenário de Leopoldina 1954

Livro "Nossas Ruas, Nossa Gente" – José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni

Livro "Alto Sereno" de Luiz Rousseu Botelho

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