11/06/2017 às 15h29min - Atualizada em 17/06/2017 às 15h29min

O desvirtuamento das tradições que ainda resistem

Nossas festas e ritmos tradicionais estão sendo totalmente descaracterizados por modismos de gosto duvidoso (Fotomontagem:Luciano Baía Meneghite)
  Por Luciano Baía Meneghite

Numa noite em 2011, andando pela minha rua, escutei o som de uma sanfona. Era  o hoje saudoso Raul Lanterneiro tocando "Acorda Maria Bonita" e uma outra música do Mario Zan que não lembro o nome.  Parei e fiquei escutando. Passaram uns meninos e perguntam o que eu fazia ali parado encostado num poste. Ao explicar que escutava a sanfona, acharam graça e foram embora.

Lembrei que desde pequeno escutava artistas como Luiz Gonzaga ou Genival Lacerda   junto com meu Vô Dionísio que foi também lanterneiro e amigo do Raul. Lembrei do meu tio-avô Zico também sanfoneiro e muito engraçado que então morava em Cataguases.Hoje já falecido. Lembro do tio Zico voltando do Forró do "Pé Inchado" no Alto do Cemitério e dizendo para a Vó Mariana sua irmã que só iria lavar os pés. Era muito engraçado.

Mas por que parei para escutar a sanfona? É que hoje está cada vez mais raro escutar uma sanfona. Dizem que poucos se interessam pelo instrumento. Parece-me realmente não ser dos mais fáceis de tocar. Se não há estímulo então... Dizem que isso é normal. Que os "gostos" mudam de geração pra geração e que "gosto não se discute". Discordo. Tudo se discute.

Claro que a discussão de qualquer assunto deve ser feita na medida do possível com respeito e tolerância. Musicalmente falando, todos podem ouvir o que quiser. O que não se pode é vender "gato por lebre". Falo da desvirtuação sofrida por ritmos musicais brasileiros. Não sou o primeiro a perceber isso. Várias outras pessoas com um conhecimento até maior que o meu combatem como podem certas "modernizações". 

 Especificamente nessa época do ano, em que são realizadas em todo o Brasil as Festas Juninas, já há alguns anos vemos a substituição do autêntico Forró com sanfona, zabumba e triângulo, por uma outra coisa que chamam de forró ou forró eletrônico.

Se quiserem escutar esses grupos plastificados, “arrocha”, “sofrência” entre outros bichos,  que escutem, mas é um erro identificá-los como artistas do forró. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

 Não vou nem discutir a "música" apresentada por esses grupos  que é até maldade. Eles tem todo direito de tocar o que quiserem, da maneira que quiserem, o que não  podem é usurpar o nome "Forró" não tocando os ritmos do forró. Não se trata de papo de velho, nem tanta idade tenho pra isso, nem a defesa de que se toque só "Coisa velha".Existe atualmente quem ainda faça o autêntico forró. Artistas como Trio Forrozão, Fala Mansa, Flávio José, Trio Virgulino, Osvaldinho, Rastapé, Trio Nordestino, Elba Ramalho, Antônio Barros e Ceceu e muitos outros continuam a mostrar que é possível fazer forró com qualidade e que seja vendável. É bem verdade que os "moderninhos" tem encontrado muito mais espaço na mídia que os verdadeiros forrozeiros.

Leopoldina infelizmente segue nessa mesma trilha de exaltação de coisas de gosto duvidoso em detrimento de nossos verdadeiros artistas locais.

Que falta faz um Vitalino! Suas festas eram simples, mas tradicionais.

Flávio José é um dos autênticos forrozeiros em atividade



Quando falam então em “Festa Junina” com  funk, sertanejo universitário, DJ’s  me dá tristeza. É um desvirtuamento total de nossas tradições. Se gostam desses ritmos, tudo bem, façam   essas festas, mas não digam que é festa junina. Não é.

Paixão Junina Mineira de Belo Horizonte mostrando que podemos modernizar sem perder a tradição
 


Outro dia ouvi alguém dizer que sanfona é coisa só de nordestino e de gaúcho (lá falam gaita). Bobagem pura! Aliás, Minas Gerais  tem tantos ou mais artistas bons que em outros estados e não os valoriza como deveria. Vale lembrar que Luiz Gonzaga teve aulas de sanfona com Domingos Ambrósio, o Dominguinhos quando serviu ao exército em Juiz de Fora. Aqui em Leopoldina temos alguns bons forrozeiros, mas  que muitas vezes são preteridos em favor dos forrós estilizados.  . É que  por imposição da mídia e gravadoras, que preferem investir em coisas descartáveis que não exigem grande esforço mental e artístico para serem produzidas, o público acaba assimilando sem questionar  o valor artístico do que está ouvindo.

As rádios de Leopoldina, salvo algumas exceções, seguem o padrão imposto pelos grandes.  Não tenho preconceito contra músicas mais simples, gosto, por exemplo, de algumas  músicas de duplo sentido e humorísticas, como as de Castanha e Caju ou mais antigas de Cremilda, Manhoso ou Sandro Becker mas até para isso é preciso talento.  O que critico é coisa ruim mesmo! Feita nas coxas!

TEXTO PUBLICADO EM 05/06/2011 NO LEOPOLDINENSE com o título "Gosto se discute sim"  E ATUALIZADO
 
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