16/07/2014 às 13h24min - Atualizada em 16/07/2014 às 13h24min

Reestruturação do futebol: novo técnico ou nova mentalidade?

João Gabriel B. Meneghite
Pep Guardiola é um dos nomes mais cotados para programar uma nova filosofia na seleção (Foto BBC)

A seleção brasileira frustrou a todos nessa Copa do Mundo. A teimosia e arrogância do técnico Luis Felipe Scolari desencadeou o péssimo desempenho de nossa seleção canarinho, que ficou marcada como um time de várzea na goleada sofrida de 7x1 contra a Alemanha. 

O baque foi grande e o principal assunto do momento é a revisão dos trabalhos. Nisso todos dão o seu pitaco e acham que apenas um novo técnico será a salvação de nosso futebol.

Reflexão

O resultado negativo nos trouxe ao menos uma coisa boa: a reflexão sobre todo o nosso trabalho realizado no futebol, em nossas categorias de base, nos clubes, na gestão das instituições, enfim, em toda a nossa estrutura do futebol. Essa é uma discussão que já vem sendo levantada há muito tempo, mas foi preciso tomar essa bordoada de alguém para acordarmos. A Alemanha já está colhendo frutos de um trabalho exemplar desenvolvido.

O pior problema

Depois do fracasso todos acham que entendem de futebol. Um boleiro, por exemplo, só porque foi jogador acha que pode ser treinador, preparador físico, dirigente de clube e até mesmo político. O pior disso tudo é que a população não sabe separar a emoção da razão e segue o discurso do seu ídolo, da mídia, do vizinho, do amigo de boteco, da torcida, ou seja, segue a onda do momento. São poucas pessoas de personalidade que pesquisam e fazem reflexão sobre o tema. A ignorância e o fervor da emoção de nossa torcida é a principal responsável por eleger pessoas incapacitadas que estão afundando o nosso futebol.

Boleiro x atleta profissional

Existe uma diferença muito grande de boleiro e jogador profissional. O boleiro é aquele cara que tem a sua habilidade e se vangloria de que aquilo é o suficiente para jogar num clube profissional. É marrento e não tem comprometimento, não participa das atividades físicas e táticas propostas. É um detonador de ambiente e a laranja podre dentro de um grupo (pode contaminar as demais). Os clubes brasileiros estão lotados desse tipo de sujeito, que é mantido num time por pressão da torcida que não consegue enxergar essa situação. Infelizmente, os dirigentes e treinadores não têm pulso firme para dizer não para esses malandros idolatrados pela torcida ou ficam com medo de serem repreendidos por aqueles que idolatram o boleiro.

O atleta profissional, além de ter habilidade, se dedica aos treinamentos e estuda a sua profissão. Para ser atleta de futebol tem que ter estudo sim! O jogador tem que ter capacidade de assimilar diversas táticas para ter poder de reação e isso se faz com estudos. Aliás, poder de reação foi o que faltou a nossa seleção. O atleta que é estudioso tem condições de alçar caminhos como técnico e até mesmo dirigente. 

Treinamentos

Como citei anteriormente a diferença de um boleiro e um atleta profissional, o futebol é um esporte que precisa refletir a sua política de treinamentos. É inadmissível um técnico de uma seleção convocar um ou mais atletas fora de forma para uma copa do mundo.

Pesquisem como funciona a preparação de um atleta da natação para uma olimpíada. Até durante a madrugada, de baixo de chuva, no frio eles preparam treinamentos para chegar à competição "voando". Vocês sabem como funciona o treinamento diário de um ginasta? É um absurdo um jogador de seleção chegar numa copa sem ritmo. A preparação começa quatro anos antes da copa!

CBF

Poucos têm coragem de falar e agir. A direção da CBF continua há décadas na mão de grupo de pessoas suspeitas de atos ilícitos e ao que tudo indica não vai mudar tão cedo. Ninguém age, todos ficam calados e se atem somente no futebol e não em sua estrutura.

Novo treinador ou mentalidade?

Sim, a seleção precisa de um novo treinador, que faça um trabalho de longo prazo. A pressão é grande e a CBF tem de ter cuidados para não tomar decisões precipitadas. Se for pensar em nomes de treinadores do Brasil, temos poucas opções. 

Está sendo cogitado Pep Guardiola, responsável pela estruturação do futebol arte do Barcelona. Mas será que a cultura impaciente dos torcedores brasileiros lhe permitirão o desenvolvimento e inovação de nosso esporte?

Foi-se o tempo em que o Brasil era repleto de talentos em várias posições. Tínhamos talentos e opções de escolha no gol, na zaga, nas laterais, no meio campo e no ataque. Somos o país do futebol, mas a dificuldade de encontrar talentos em vários setores nos dias de hoje é a constatação de que o nosso futebol vem caindo.

Nenhum técnico vai conseguir reestruturar nossa seleção se outros pilares de nosso futebol estiverem enfraquecidos. A cada ano no Brasil poderíamos revelar vários Neymar’s. Temos potencial para revelar muitos talentos porque nosso país respira futebol, mas enquanto tivermos pessoas erradas ocupando lugar onde não devem, ficaremos ultrapassados.

Temas importantes

É preciso debatê-los sempre. A Copa acabou, iniciam-se os torneios das equipes nacionais e estaduais e a torcida vai se esquecendo dos temas importantes de nosso futebol que estão sendo abordados nesse momento como categorias de base, gestão de instituições esportivas, desenvolvimento de treinamentos, tecnologia a favor do futebol, entre outros.

A Bundesliga, (campeonato alemão de futebol) é a liga mais rentável do Mundo. Lá, o clube que não cumpre os seus compromissos fiscais é punido até mesmo com rebaixamento. É seriedade em prol do esporte!

O jogador de base estuda e é inteligente o suficiente para assimilar diversas situações de jogo. Façam uma comparação entre as seleções do Brasil e Alemanha e verão que a nossa é monótona. Já a seleção alemã tem muitos recursos táticos. Um jogador daquela equipe atua em duas ou mais posições, tendo os treinadores, alternativas estratégicas a seu favor.

Conclusão

Não sou dono da razão, mas é preciso reconhecer que nosso esporte principal está falido e precisa de uma reestruturação em todos os setores. É preciso de um técnico como Pep Guardiola para programar uma nova filosofia em nossa seleção. Ele poderia ter a sua volta treinadores brasileiros o assessorando.

Esse seria o primeiro passo. Outros tantos são necessários! Para isto precisamos mudar nossa mentalidade e ter a humildade de enxergar nossos defeitos.


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